Os certificados de aforro e os certificados do Tesouro estão a ganhar espaço entre as opções escolhidas pelos portugueses para guardar dinheiro, numa altura em que a taxa de poupança das famílias também tem aumentado. Mas o crescimento da procura não significa necessariamente que estes instrumentos sejam a melhor solução, tanto para quem poupa como para o próprio Estado.
De acordo com o portal da rádio Renascença, julho foi o melhor mês desde o lançamento da funcionalidade Aforro Digital dos CTT. O fenómeno acompanha o aumento do peso dos instrumentos de retalho na dívida portuguesa, que passou de 14,6% para 15,2% no ano passado. Para Filipe Grilo, economista e investigador da Porto Business School, existem, contudo, riscos associados a este modelo de financiamento.
O risco que fica do lado do Estado
Uma das questões apontadas pelo especialista está relacionada com a possibilidade de os aforradores levantarem o dinheiro quando necessitam dele. “O certificado de aforro não é o instrumento mais interessante para o Estado”, afirmou Filipe Grilo, explicando que o Estado tem de assegurar o pagamento caso o aforrador decida retirar o dinheiro.
Há ainda a questão da remuneração. A taxa dos certificados de aforro está ligada à Euribor a três meses e existe atualmente um limite máximo de 2,5% na série F. Se as taxas de juro subirem, o Estado poderá ter de suportar uma despesa superior com estes produtos. “Se aumenta, isso significa que o Estado fica a pagar mais imediatamente”, explicou o economista.
Mais procura, mas nem todos veem vantagens
O aumento da procura pode ser explicado por vários fatores. A população residente cresceu e a taxa de poupança das famílias também tem vindo a aumentar desde a pandemia. “Neste momento, estamos a falar de cerca de 12%”, referiu Filipe Grilo, comparando esse valor com os 8% registados durante a pandemia e os 6% anteriores à Covid-19.
A análise não é, contudo, consensual quando se olha para o retorno obtido pelos aforradores. Bárbara Barroso, fundadora do Projeto de Literacia Financeira MoneyLab, considera que os instrumentos do Estado apresentam limitações quando a remuneração não consegue superar a inflação. “As poupanças não estão a ter retornos reais positivos”, afirmou.
Incentivo à poupança com limitações
Para Filipe Grilo, os certificados não devem ser vistos apenas como uma forma de o Estado obter financiamento. Também funcionam como um mecanismo destinado a incentivar as famílias a poupar. O economista considera que esta dimensão é relevante num país onde a capacidade de poupança continua a ser uma questão importante.
Bárbara Barroso entende, porém, que esse incentivo poderia ser reforçado através da fiscalidade. “Se o Estado quisesse, efetivamente, incentivar a poupança, fazia-o na tributação”, defendeu. A especialista considera que uma isenção até determinado montante poderia funcionar como estímulo adicional, mesmo tratando-se de produtos de baixo risco.
O Estado também se protege da subida dos juros
Com o aumento do peso dos certificados de aforro, o IGCP avançou com uma estratégia para limitar a exposição do Estado à evolução das taxas de juro. Foram contratados novos swaps, instrumentos que funcionam, neste contexto, como uma forma de cobertura do risco.
“É simplesmente o IGCP a trabalhar, como faz, e muito bem, na proteção da dívida”, considerou Filipe Grilo. O mecanismo permite ao Estado reduzir o impacto de uma eventual subida das taxas, transferindo parte desse risco para uma operação de cobertura.
A procura futura dependerá de fatores, como a evolução da população e do mercado de trabalho. Se o emprego continuar resiliente e os rendimentos permitirem manter níveis de poupança elevados, os certificados poderão continuar a captar dinheiro das famílias. Ao mesmo tempo, os investidores mais jovens têm hoje acesso a alternativas, como os ETF, que podem funcionar como concorrentes indiretos destes produtos.
Leia também: Recebeu pagamentos da Segurança Social sem ter direito? Saiba o que fazer para não ter de devolver o dinheiro
















