Hugo Freitas de Sousa, de 39 anos, regressou a Portugal a 5 de setembro, depois de passar seis semanas detido pelo serviço de imigração dos Estados Unidos, o ICE. O açoriano tentava entrar no país para visitar o filho, de 12 anos, quando foi intercetado pelas autoridades norte-americanas.
Em declarações prestadas à RTP, Hugo denunciou as condições em que permaneceu detido em Washington. “De quatro em quatro dias podemos tomar um duche”, afirmou após aterrar em Lisboa, onde a companheira, Joyce Hernandez, o esperava.
Noites com as luzes acesas e sem almofada
As dificuldades que descreveu estendiam-se à alimentação e ao descanso. “Para dormir era num colchão de ioga, nem sequer uma almofada, nada. As luzes sempre ligadas”, contou. Sobre as refeições, acrescentou: “A comida é péssima, eu não dava aquela comida ao meu cão, se tivesse um.”
Perante a falta de respostas sobre a sua situação, decidiu fazer greve de fome durante quase quatro dias. “Eu disse: tenho de chamar a atenção de alguém”, recordou. No seu relato, referiu ainda que havia “centenas e centenas de pessoas de todos os países a serem tratadas desta forma”.
Companheira procurou ajuda em Portugal
Enquanto Hugo permanecia detido, Joyce, a companheira, contactou embaixadas e advogados para tentar resolver o caso. Segundo a estação pública, só depois de procurar a comunicação social sentiu avanços no apoio recebido, incluindo por parte do consulado português, que passou a dar-lhe informações sobre as diligências em curso.
“Tomaram medidas, disseram-me que estavam a trabalhar nisso”, contou Joyce. Hugo atribuiu também importância à iniciativa da companheira: “Sinto que quando a Joyce ligou [para a comunicação social] fez toda a diferença.” No regresso, agradeceu a todos os que se envolveram na resolução da situação.
Viveu 35 anos nos Estados Unidos
Natural da ilha Terceira, Hugo mudou-se ainda criança para os Estados Unidos com os pais. Viveu naquele país durante 35 anos, com autorização de residência permanente, o chamado “green card”. Os seus laços familiares mantêm-se do outro lado do Atlântico, onde tem pais, irmãos e um filho norte-americanos.
Durante a pandemia, instalou-se nos Açores e acabou por ficar. O documento de residência terá expirado cerca de um ano antes da tentativa de regresso. Para visitar o filho, viajou pelo Canadá, seguindo de Vancouver para Seattle, mas foi detido à entrada nos EUA. Segundo contou, ficou quatro dias sem poder contactar ninguém.
Consulado acompanhava o processo
No final de agosto, o Governo português tinha confirmado à publicação que acompanhava o caso. Numa resposta, o Ministério dos Negócios Estrangeiros indicou que o Consulado-Geral em São Francisco mantinha “comunicação recorrente com as autoridades norte-americanas competentes”, embora ainda não fosse possível indicar um prazo concreto para a conclusão do processo.
A deportação ocorreu mais de uma semana depois desse contacto. No Aeroporto de Lisboa, Hugo reencontrou Joyce, que não via há mais de um mês. Disse estar “cansado” e “cheio de fome”, mas manifestou alívio pelo fim da detenção: “Até que enfim que acabou tudo.”
















