Durante 17 anos, Paulo Clemente trabalhou como motorista de camião, profissão que descreveu como o seu “trabalho de sonho”. Uma doença muscular progressiva acabou, porém, por lhe limitar a mobilidade e obrigá-lo a abandonar a estrada. Aos 47 anos, depois de ainda tentar manter-se ativo noutras funções, passou a receber uma pensão de invalidez.
A história foi contada ao Contacto, jornal de língua portuguesa dirigido sobretudo à comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo, em março de 2026, quando o Paulo tinha 50 anos. Natural de Vila Real e a viver no Luxemburgo desde os dois anos, explicou como tentou continuar a trabalhar apesar do agravamento da doença e da recomendação médica para que deixasse de conduzir.
Paulo começou a sentir dificuldades aos 37 anos
Os primeiros sinais surgiram quando Paulo tinha cerca de 37 anos. Começou a sentir dificuldades em subir escadas, sobretudo quando levava o filho ao colo, e passou cerca de cinco anos entre consultas médicas sem obter uma resposta definitiva para aquilo que estava a acontecer.
Após uma avaliação no Hospital de Estrasburgo, em França, os médicos apontaram para uma distrofia muscular da cintura, embora o diagnóstico ainda estivesse a ser aprofundado através de análises genéticas.
Segundo a Orphanet, esta designação abrange um grupo de doenças musculares raras caracterizadas por fraqueza progressiva, sobretudo nos músculos próximos da bacia e dos ombros.
Escondeu a doença para evitar uma reforma precoce
Apesar das dificuldades, Paulo continuava determinado a permanecer no mercado de trabalho. Segundo contou ao Contacto, entrou numa empresa sem revelar a doença, numa altura em que os sinais físicos ainda eram pouco visíveis, e conseguiu manter a situação em segredo durante cerca de um ano.
As limitações acabaram, contudo, por se tornar impossíveis de esconder. Paulo sofreu três quedas no trabalho e, depois de a última ter sido presenciada por colegas, foi encaminhado para o médico do trabalho. Chegou a pedir que a situação fosse encoberta, porque queria continuar a trabalhar, mas foi considerado inapto para conduzir.
Deixar os camiões foi especialmente duro. Paulo tinha experimentado outras funções antes de chegar à estrada, mas foi ao volante que disse ter encontrado a profissão em que se sentia verdadeiramente realizado. Ainda tentou regressar à venda de peças automóveis, mas abandonou o trabalho ao fim de sete meses e voltou a conduzir, apesar das recomendações médicas.
Ainda tentou trocar o camião por um trabalho de escritório
Quando deixou definitivamente de poder conduzir, Paulo conseguiu emprego numa empresa de transportes, desta vez num escritório, onde organizava horários e rotas. Mesmo sentado, porém, as limitações continuaram a agravar-se e, ao fim de três meses, uma nova avaliação médica concluiu que já não conseguia trabalhar oito horas por dia.
Durante dois meses, tentou encontrar uma alternativa, incluindo a possibilidade de trabalhar apenas quatro horas e beneficiar de uma compensação pelas restantes. A solução não avançou e Paulo acabou por receber a indicação de que a sua vida profissional tinha terminado. “Foi muito difícil engolir. Foi como se me tivessem tirado o chão”, recordou.
O que dizem as regras luxemburguesas
No Luxemburgo, a pensão de invalidez pode ser atribuída a uma pessoa com menos de 65 anos que, devido a doença prolongada, incapacidade ou desgaste, tenha perdido capacidade para exercer a última profissão ou qualquer outra atividade adequada às suas forças e aptidões. A situação médica é avaliada pelo Controlo Médico da Segurança Social e o beneficiário tem também de cumprir as condições contributivas previstas.
A atribuição da pensão não impede totalmente o exercício de uma atividade profissional. Segundo a Caixa Nacional de Seguro de Pensão do Luxemburgo, o beneficiário pode trabalhar por conta de outrem ou por conta própria, desde que o rendimento profissional, considerado ao longo de um ano, não ultrapasse mensalmente um terço do salário social mínimo. Se esse limite for excedido, a pensão pode ser retirada.
Reforma aos 47 anos trouxe quebra nos rendimentos
Segundo o relato de Paulo, a passagem à pensão de invalidez provocou também uma redução dos seus rendimentos. Enquanto camionista, recebia acima do salário social mínimo qualificado no Luxemburgo; depois de deixar de trabalhar, passou a dispor de um montante inferior.
Paulo disse receber ainda um apoio adicional de 150 euros que relacionou com a natureza genética da doença. O Contacto não identificou, contudo, o nome da prestação nem o respetivo enquadramento. Depois do divórcio, regressou a casa dos pais, em Larochette, cujo apoio considera essencial, mantendo também encargos com uma habitação que comprou na região de Torres Vedras.
Apesar de já receber uma pensão de invalidez e de ter a mobilidade condicionada, Paulo continuava a admitir que gostaria de voltar a trabalhar. Para o antigo camionista, a saída precoce do mercado de trabalho não resultou de falta de vontade, mas da progressiva impossibilidade física de continuar a desempenhar uma atividade profissional.
















