Maria chegou ao Luxemburgo em 1992 com duas filhas pequenas e uma vida profissional ainda longa pela frente. Mais de três décadas depois, e apesar de já estar reformada, a portuguesa continua a levantar-se de madrugada para trabalhar. Aos 65 anos, voltou às limpezas porque os cerca de 1.100 euros que recebe de pensão não chegam para fazer face às despesas.
A história foi contada ao Contacto, um jornal de língua portuguesa dirigido sobretudo à comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo. Por questões relacionadas com o trabalho que atualmente realiza sem declarar, Maria é um nome fictício utilizado para proteger a identidade da portuguesa.
Reformada há quatro anos, Maria explica que 500 dos 1.100 euros que recebe mensalmente são destinados ao pagamento do empréstimo da casa que construiu em Portugal. Perante as restantes despesas, decidiu voltar ao trabalho e faz atualmente cerca de 23 horas de limpezas por semana, distribuídas por quatro casas.
Maria chegou ao Luxemburgo em 1992 e passou grande parte da vida nas limpezas
A vida profissional de Maria no Luxemburgo começou num café português em Mersch, onde trabalhou durante cinco anos como cozinheira. Mais tarde, mudou-se para o setor das limpezas, atividade que exerceu durante cerca de 15 anos em diferentes empresas.
Segundo conta, esses empregos foram sempre realizados com contratos e com os respetivos descontos. Depois surgiu uma nova oportunidade numa grande organização europeia em Capellen, onde permaneceu durante mais 12 anos, novamente a trabalhar nas limpezas. Nessa altura, recebia cerca de 3.000 euros líquidos por mês.
Ao todo, Maria afirma contar com 40 anos de descontos para a Segurança Social, incluindo 13 anos em que trabalhou a tempo inteiro em Portugal. Contudo, a pensão de aproximadamente 1.100 euros que recebe atualmente corresponde apenas aos 15 anos passados em várias empresas de limpeza no Luxemburgo.
Os descontos referentes aos 12 anos em que trabalhou na organização europeia foram, segundo explica, considerados como tendo sido realizados em Bruxelas e deram origem a um pagamento efetuado de uma só vez. Maria aguarda ainda pela pensão correspondente aos anos em que descontou em Portugal.
Reforma de Maria começou nos 900 euros e só mais tarde chegou aos 1.100 euros
Maria entrou na reforma antecipadamente aos 60 anos. Conta que lhe disseram que já tinha completado os 40 anos de serviço necessários, embora não tivesse atingido a idade habitual para deixar de trabalhar.
Quando ainda recebia cerca de 3.000 euros mensais, conseguia pagar o empréstimo da casa em Portugal e suportar as despesas do quotidiano. A passagem à reforma alterou significativamente essa realidade.
Inicialmente, a pensão rondava os 900 euros mensais, tendo aumentado posteriormente para cerca de 1.100 euros. Ainda assim, a portuguesa garante que o dinheiro continua a ser insuficiente para todas as suas responsabilidades.
Aos 65 anos acorda às 4 da manhã para voltar a limpar casas
A reforma não significou, por isso, o fim do trabalho. Maria voltou às limpezas e, às segundas-feiras, chega a acordar às quatro da manhã para apanhar um autocarro e seguir até Canach, no sudeste do Luxemburgo. Trabalha durante quatro horas, entre as sete e as 11 da manhã, seguindo depois para outro trabalho em Steinsel. Nos restantes dias da semana repete uma rotina semelhante noutras casas.
Em média, são 23 horas semanais de limpezas, divididas por quatro residências, pelas quais diz receber 17 euros por hora. Os trabalhos são feitos sem recibos e sem descontos, uma situação que a própria reconhece não ser correta e que pretende abandonar assim que a situação financeira o permitir.
Apesar de juntar este rendimento à pensão, Maria admite que continua a fazer sacrifícios para conseguir poupar algum dinheiro. Além dos 500 euros mensais destinados ao empréstimo da casa em Portugal, contribui para despesas da casa da filha mais velha, com quem vive no Luxemburgo, e ajuda ainda a filha mais nova.
Pensão de Portugal pode permitir a Maria deixar finalmente de trabalhar
A esperança está agora na pensão correspondente aos anos de descontos realizados em Portugal. Maria acredita que, caso o rendimento total se aproxime dos 2.000 euros mensais, poderá finalmente abandonar os trabalhos de limpeza e usufruir da reforma.
A portuguesa quer também regressar definitivamente a Portugal. A casa que construiu ao longo dos anos continua a representar o maior investimento da sua vida e faltam-lhe cerca de dois anos para terminar de pagar o último empréstimo associado à construção.
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