Os atrasos e erros que marcaram a correção digital dos exames nacionais de 2026 tiveram várias causas, mas uma destacou-se das restantes: o sistema teve dificuldades em ler os códigos QR impressos nas provas. Um relatório oficial revela agora que até a solução criada para contornar o problema acabou por introduzir novos erros.
O Ministério da Educação, Ciência e Inovação tornou públicos os relatórios elaborados pelo Júri Nacional de Exames e pela Deloitte e enviou-os à Assembleia da República e ao Conselho Nacional de Educação. Os documentos podem ser consultados através do comunicado oficial do Governo.
Códigos QR estiveram no centro dos problemas
Cada página das provas utilizadas em 2026 tinha dois códigos QR, destinados a identificar o aluno e a prova no sistema informático. Logo na primeira fase, surgiram dificuldades significativas na leitura desses códigos, o que comprometeu a associação correta das páginas digitalizadas às respetivas provas e afetou etapas posteriores da classificação.
A Deloitte classificou este problema com o nível máximo de gravidade. Quando o código QR não podia ser lido, foi introduzido um mecanismo alternativo que tentava reconhecer automaticamente o número impresso por baixo do código. Essa solução revelou-se menos eficaz e acabou por gerar novas identificações incorretas. Em alguns casos, páginas da mesma prova chegaram a aparecer associadas a números diferentes.
Também houve falhas nas respostas e nas folhas de continuação
Os problemas não ficaram pela identificação das provas. O sistema também teve dificuldades em interpretar respostas de escolha múltipla, sobretudo quando existiam rasuras ou alterações de resposta. Para reduzir o risco de erros, os casos menos claros passaram a ser enviados para validação humana.
Foram ainda identificadas falhas nas folhas de continuação. Algumas folhas aparentemente vazias não chegaram a ser digitalizadas ou foram anuladas no sistema, havendo situações pontuais em que folhas com respostas ficaram temporariamente de fora. Também foram detetadas páginas em falta, provas digitalizadas como estando em branco, erros na versão atribuída ao exame e folhas associadas ao código de outro aluno.
Quase 290 mil provas tiveram de ser recuperadas
Na primeira fase foram realizadas cerca de 290 mil provas. Depois dos problemas na digitalização e identificação, foi necessário recorrer a apoio informático adicional para reconstruir e validar a informação.
No final, foi possível recuperar 99,9% das provas, mas o processo obrigou a adiar a divulgação das classificações de 14 para 17 de julho. Cerca de 0,1% dos resultados ficaram temporariamente suspensos e foram resolvidos posteriormente.
Problema não tinha aparecido no teste de 2025
Um dos pontos mais relevantes do relatório é que a dificuldade na leitura dos códigos QR não tinha sido detetada no projeto-piloto realizado em 2025, com o exame nacional de Filosofia. Nesse teste, a leitura dos códigos tinha funcionado sem dificuldades relevantes.
Foi apenas quando o modelo foi generalizado em 2026 que a falha ganhou uma escala suficientemente grande para afetar o processo.
Segunda fase já funcionou de forma diferente
Depois dos problemas, foi introduzido um novo algoritmo de leitura dos códigos QR e criada uma ferramenta de verificação antes de as provas entrarem no sistema principal. Essa etapa passou a confirmar o número de provas, a existência de todas as páginas e a correspondência dos códigos com a informação enviada pelas escolas.
Segundo os relatórios oficiais, a segunda fase e a época extraordinária decorreram dentro dos prazos previstos e sem os problemas que tinham marcado a primeira fase.
O Governo pediu entretanto ao Conselho Nacional de Educação uma avaliação independente do sistema, que deverá servir de base às mudanças a introduzir nos exames de 2027. Os relatórios deixam claro que o problema não teve uma única origem, mas a dificuldade na leitura dos códigos QR foi uma das falhas mais graves e acabou por desencadear erros em várias etapas seguintes.
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