As falhas de eletricidade e de telecomunicações durante situações extremas mostraram como uma freguesia pode ficar rapidamente sem contacto com o exterior. Para reduzir esse risco, várias autarquias portuguesas estão a instalar ligações de internet por satélite e o Governo tem um programa nacional de 46 milhões de euros para levar comunicações redundantes às juntas de freguesia.
O programa chama-se “Freguesias Ligadas” e está previsto na Resolução do Conselho de Ministros n.º 106/2026, publicada em Diário da República. O objetivo é dotar todas as juntas de freguesia de três meios complementares: um telefone SIRESP, um telefone por satélite e uma ligação de dados Starlink, para que possam continuar a comunicar quando as redes terrestres falham.
Programa custa 46 milhões de euros
A medida prevê a aquisição, distribuição, ativação e configuração dos equipamentos, assim como formação básica das equipas locais. A intenção é que as freguesias mantenham contacto com os serviços municipais, Proteção Civil e outras estruturas de emergência mesmo perante uma interrupção generalizada das comunicações convencionais.
O plano oficial estabelece 2026 como horizonte para a implementação e integra uma estratégia mais ampla de reforço da resiliência do país perante fenómenos extremos e falhas de infraestruturas.
Já há equipamentos instalados em algumas freguesias
A solução não existe apenas no papel. Em Castelo Branco, por exemplo, a própria Câmara Municipal confirmou em fevereiro que estava a instalar antenas Starlink em juntas de freguesia depois das falhas de comunicações provocadas pelo mau tempo. Santo André das Tojeiras e Malpica do Tejo estavam entre as primeiras localidades abrangidas, permitindo inclusive disponibilizar acesso à internet à população.
Também a Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima, no Entroncamento, anunciou em setembro que iria implementar comunicações de emergência através de Starlink no âmbito do programa “Freguesias Ligadas”. Neste caso, estão igualmente previstos geradores e outros meios para manter os sistemas a funcionar em situações de crise.
Proteção Civil também está a receber internet por satélite
O reforço das comunicações de emergência não se limita às juntas de freguesia. Um documento do Ministério da Administração Interna prevê 5.176 terminais Starlink ou OneWeb para centros municipais de Proteção Civil, forças de segurança, centros de coordenação e outras estruturas de resposta a catástrofes.
O investimento previsto só nestes terminais ascende a 5,75 milhões de euros. O mesmo plano inclui ainda 4.000 rádios TETRA para municípios e freguesias e 3.500 sistemas de baterias, UPS ou geradores, destinados precisamente a criar redundância energética quando falha a rede elétrica.
Mas Starlink funciona mesmo quando falta a luz?
A expressão “internet anti-apagão” precisa de uma ressalva. A ligação ao exterior é feita através de satélite e, por isso, pode continuar disponível mesmo quando as redes terrestres de telecomunicações estão em baixo. Contudo, a antena Starlink, o router e os restantes equipamentos continuam a precisar de eletricidade.
É por essa razão que os programas de emergência incluem também baterias, sistemas UPS ou geradores. Sem uma fonte alternativa de energia, uma antena de internet por satélite instalada numa junta de freguesia também deixa de funcionar durante um apagão prolongado.
Objetivo é evitar freguesias completamente isoladas
A estratégia surge depois de episódios em que tempestades, incêndios ou falhas de energia provocaram simultaneamente cortes de eletricidade, rede móvel e internet, dificultando o contacto das populações com os serviços de emergência.
A lógica do programa é criar várias alternativas em vez de depender de uma única rede. Se as comunicações terrestres falharem, a junta poderá recorrer ao satélite e ao SIRESP; se faltar eletricidade, deverá existir uma fonte de energia de reserva.
A implementação ainda está em curso e nem todas as freguesias dispõem já do conjunto completo de equipamentos. Ainda assim, os exemplos no terreno mostram que a internet por satélite começou a integrar de forma concreta os planos de emergência das autarquias portuguesas.
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