A queda do voo MU5735 da China Eastern Airlines continua a levantar dúvidas mais de quatro anos depois do desastre de avião. O acidente, que envolveu um Boeing 737-800 no sul da China, tornou-se um dos casos mais marcantes da aviação recente, não só pelo número de vítimas, mas também pela falta de uma conclusão pública definitiva sobre a causa.
Novas informações divulgadas a partir de dados do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos, conhecido pela sigla NTSB, indicam que os interruptores de combustível dos dois motores terão passado da posição de funcionamento para a posição de corte durante o voo de cruzeiro. A informação foi divulgada na sequência de um pedido feito ao abrigo da lei norte-americana de acesso à informação.
O acidente ocorreu a 21 de março de 2022, quando o Boeing 737-800 da China Eastern Airlines fazia a ligação entre Kunming, na província de Yunnan, e Guangzhou, na província de Guangdong. Segundo a Administração de Aviação Civil da China, a aeronave descolou às 13h16 e, cerca de 64 minutos depois, afastou-se da altitude de cruzeiro de 8.900 metros, acabando por cair perto da aldeia de Molang, em Tengxian, na região de Guangxi.
A bordo seguiam 123 passageiros e nove tripulantes. Todos morreram no acidente, confirmou a autoridade chinesa, que identificou o aparelho como um Boeing 737-800 com matrícula B-1791.
Dados apontam para corte de combustível
De acordo com os dados citados pela CNN e reproduzidos por outros meios internacionais, durante o voo a cerca de 29.000 pés, os interruptores de combustível de ambos os motores terão sido movidos da posição “run”, ou funcionamento, para “cutoff”, ou corte. Após essa alteração, a rotação dos motores diminuiu e deu-se a consequente queda do avião.
Esta informação é relevante porque, no Boeing 737, estes comandos são físicos e regulam a passagem de combustível para os motores. Especialistas em aviação citados pela imprensa internacional sublinham que esse tipo de movimento dificilmente acontece de forma acidental, embora os dados divulgados não identifiquem quem terá acionado os comandos nem estabeleçam, por si só, uma motivação.
A CNN citou o analista de segurança aérea David Soucie, que considerou que estes dados indicam claramente que os interruptores foram colocados manualmente na posição de desligado pouco antes da queda. Segundo o mesmo especialista, a ausência de indicação de que tenham sido religados torna menos provável a hipótese de uma ação acidental.
Investigação oficial ainda sem conclusão pública
Apesar destas novas informações, a causa oficial da queda do avião ainda não foi divulgada pela China. A investigação é liderada pela Administração de Aviação Civil da China, enquanto o NTSB participou devido ao facto de a aeronave ter sido fabricada pela Boeing, uma empresa norte-americana.
Na comunicação preliminar publicada em abril de 2022, a autoridade chinesa explicou que o relatório inicial continha dados factuais sobre o voo, a tripulação, a manutenção, a aeronave e a distribuição dos destroços, mas não incluía conclusões sobre a causa do acidente.
A mesma comunicação indicava que, antes de o avião se desviar da altitude de cruzeiro, não foram detetadas anomalias nas comunicações rádio entre a tripulação e o controlo de tráfego aéreo. Também referia que os dois gravadores de voo estavam muito danificados e que a recuperação e análise dos dados ainda estavam em curso.
Autoridade chinesa não encontrou falhas antes da descolagem
Na atualização de março de 2024, a Administração de Aviação Civil da China afirmou que a tripulação tinha licenças válidas, cumpria os requisitos de descanso e tinha passado no exame médico antes do voo. A autoridade referiu ainda que a aeronave tinha certificados válidos e que, antes da descolagem, não tinham sido encontrados problemas nos sistemas do avião, na estrutura da fuselagem ou nos motores.
A mesma nota oficial indicou que não havia registos de mau tempo perigoso na zona do voo, nem provas de que a carga, a bagagem ou o correio transportado contivessem materiais perigosos. A investigação técnica, segundo a autoridade chinesa, deveria prosseguir com testes laboratoriais, validações e análise das causas.
Documento do NTSB não é relatório final
O material atribuído ao NTSB surgiu através da sala pública de pedidos FOIA, a lei norte-americana de acesso à informação. Um repositório que arquiva estes ficheiros indica que o pacote foi publicado a 1 de maio deste ano com o título “DCA22WA102 3/21/2022 Wuzhou, China” e a descrição “China Eastern Airlines Flight 5735 FOIA Release Records”.
O NTSB não tem transcrições do gravador de voz da cabine e os ficheiros técnicos do gravador de dados exigem software especializado e documentação proprietária do fabricante.
Isto significa que os novos dados reforçam a hipótese de intervenção humana na queda do avião, mas não substituem um relatório final da autoridade responsável pela investigação. Até ao momento, não encontrei uma conclusão oficial publicada pela CAAC a dizer que a queda foi intencional.
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