Mais de sete décadas depois de começar a desenhar à porta de casa, em Tavira, Carlos José Fonseca Martins continua a criar e a defender a identidade arquitetónica do Algarve. Na sequência da abertura, em junho, de uma galeria e de um museu dedicados ao seu percurso, em Altura, o artista fala ao POSTAL sobre a vocação descoberta na infância, o ensino, o reconhecimento internacional e o legado que pretende preservar.
Da infância em Tavira a uma vida dedicada à arte
P – Recorda-se de, ainda criança, desenhar a Igreja de São Sebastião à porta de casa, em Tavira. Em que momento percebeu que a arte deixaria de ser apenas uma vocação e passaria a ser o centro da sua vida?
R – Creio que essa consciência surgiu gradualmente, muito por incentivo das pessoas que me rodeavam. Ainda criança, ouvia frequentemente dizerem-me que poderia vir a ser artista, e isso foi alimentando a minha confiança e a vontade de continuar. À medida que desenhava e via o reconhecimento dos outros, fui percebendo que a arte podia ser mais do que uma paixão: podia ser um caminho de vida. Com muito trabalho, persistência e um desejo constante de evoluir, fui construindo um percurso que hoje soma mais de sete décadas dedicadas à criação artística.

P – Ao longo de mais de seis décadas de atividade artística, trabalhou com pintura, escultura, talha, cerâmica, azulejaria e outras técnicas. O que permaneceu constante na sua linguagem e o que mais se transformou?
R – A pintura e o desenho foram sempre a base da minha expressão artística, mesmo durante os 26 anos em que trabalhei em arquitetura. Nunca deixei de pintar, desenhar e expor. Ao longo dos anos explorei diferentes técnicas, como a escultura, a talha, a cerâmica e a azulejaria, mas a vontade de criar e de aperfeiçoar o meu trabalho manteve-se sempre constante. Desde muito jovem comecei a receber distinções e a expor regularmente, um percurso que consolidou a minha dedicação à arte e o desejo permanente de evoluir.
Preservar a identidade algarvia e ensinar sem impor
P – A arquitetura, as janelas floridas, os pátios e os interiores algarvios ocupam um lugar recorrente na sua obra. Que Algarve procura preservar ou reinterpretar através desses elementos?
R – Procuro preservar a identidade arquitetónica do Algarve. Defendo uma arquitetura que acompanhe a evolução e o conforto dos tempos modernos, mas sem perder as características que nos distinguem. O branco da cal, os ocres, os pigmentos tradicionais, as janelas, os pátios e a linguagem arquitetónica da região fazem parte da nossa memória coletiva e não devem desaparecer. Preocupa-me a crescente uniformização das cidades, que acabam por perder a sua identidade. Acredito que é possível conciliar modernidade e tradição, desde que essa evolução respeite a história, a cultura e a autenticidade dos nossos centros históricos.

P – Em 1981, começou a ensinar na Escola de Pintura de Tavira. Que influência considera ter exercido sobre as gerações seguintes de artistas algarvios?
R – Sempre procurei ensinar sem impor a minha visão artística. Cada aluno era incentivado a seguir os seus próprios interesses, fossem paisagens, naturezas-mortas, flores ou outros temas. O meu papel era transmitir os conhecimentos técnicos, o domínio dos materiais e os princípios da pintura, para que cada um pudesse encontrar o seu próprio caminho. Alguns aproximaram-se naturalmente da minha linguagem artística, mas isso aconteceu por iniciativa deles e nunca por imposição. Creio que a maior influência que procurei deixar foi precisamente essa: ensinar a pintar com rigor, respeitando sempre a personalidade e a sensibilidade de cada artista.
Do reconhecimento internacional ao novo espaço de Altura
P – A sua obra integra coleções públicas e privadas em Portugal, noutros países europeus, nos Estados Unidos e nos Emirados Árabes Unidos. Sentiu diferenças na forma como o público português e o público internacional interpretam o seu trabalho?
R – É difícil dizer como o público internacional interpretava a minha obra, mas o reconhecimento refletia-se na forma como a recebia. Nas exposições que realizei na Alemanha, vendia frequentemente todas as aguarelas logo na inauguração. Recordo com emoção as palavras do diretor do Banco Sparkasse, durante uma dessas exposições: “Lá fora chove, mas aqui dentro temos o sol do Algarve nas aguarelas de Fonseca Martins.” Também tive colecionadores internacionais que encomendavam regularmente obras inspiradas na luz, na arquitetura e nas paisagens do Algarve, o que sempre me mostrou que a identidade da nossa região era apreciada muito para além de Portugal.

P – A Galeria de Arte Fonseca Martins abriu em junho, em Altura, reunindo um espaço comercial e um museu dedicado ao seu percurso. Como surgiu este projeto e que balanço faz dos primeiros meses de funcionamento?
R – A galeria nasceu de um convite para ocupar um edifício de arquitetura contemporânea que, pelas suas características, se adequava naturalmente a um espaço cultural. Vi nesse convite uma oportunidade única de criar não apenas uma galeria, mas também um museu onde pudesse reunir obras, documentos e objetos que contam o meu percurso artístico e parte da história da região. Depois de uma vida dedicada à arte, senti que era o momento certo para preservar esse legado e partilhá-lo com o público. O balanço dos primeiros meses é muito positivo. A adesão superou as expectativas, tanto por parte dos visitantes como dos colecionadores, registando-se um número significativo de vendas e um feedback muito encorajador.
Preservar o trabalho de uma vida
P – Depois de mais de sete décadas dedicadas à arte, o que gostaria que os visitantes levassem consigo quando saírem da Galeria de Arte Fonseca Martins?
R – Nunca fiz grandes planos para o futuro. Encarei este projeto como uma oportunidade única de mostrar e preservar o trabalho de uma vida. Tenho um compromisso com este espaço e quero vivê-lo com o mesmo entusiasmo com que sempre encarei a arte. Mais do que pensar em estratégias ou expansões, interessa-me continuar a criar, a receber quem nos visita e a partilhar este percurso. Se a galeria conseguir preservar a minha obra e despertar nas pessoas o interesse pela cultura, pela história e pela identidade do Algarve, sentirei que cumpriu a sua missão.
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