O Dia Mundial da Água assinala-se este domingo, dia 22 de março. Instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas e celebrado anualmente desde 1993, o Dia Mundial da Água centra-se na água doce e na necessidade de garantir o acesso universal à água e ao saneamento, em linha com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6.
Em Portugal, a gestão sustentável dos recursos hídricos assenta na Lei da Água, aprovada pela Lei n.º 58/2005. Segundo a UN-Water, o tema oficial de 2026 é “Water and Gender”, com enfoque na relação entre água, saneamento e igualdade de género.
No plano global, a mensagem deste ano das Nações Unidas sublinha que a água não é apenas uma questão ambiental ou de infraestruturas, mas também de igualdade e justiça social. Na mensagem oficial para o Dia Mundial da Água, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apela: “Together, let’s make water a force for gender equality, and let the benefits flow to every community in the world” (“Juntos, façamos da água uma força para a igualdade de género e deixemos que os benefícios cheguem a todas as comunidades do mundo”).
Algarve recupera reservas após anos de seca
No Algarve, o Dia Mundial da Água chega num contexto muito diferente daquele que a região viveu nos últimos anos. Depois de um longo ciclo de escassez, os indicadores mais recentes apontam para uma recuperação significativa das disponibilidades hídricas. De acordo com o boletim semanal de albufeiras da Agência Portuguesa do Ambiente, na primeira quinzena de março de 2026 os armazenamentos por bacia hidrográfica apresentavam-se superiores às médias do mês de março. E, segundo o boletim climatológico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera relativo a fevereiro de 2026, no final desse mês não existia seca meteorológica em Portugal continental.
Os dados publicados na página de disponibilidades hídricas da Águas do Algarve confirmam essa melhoria nas principais albufeiras que abastecem a região.
Na atualização de 27 de fevereiro, a barragem de Odeleite estava a 98,09% da capacidade total, Beliche a 89,23% e Odelouca a 87,61%. Ainda assim, a memória recente da crise mantém-se bem presente: numa publicação conjunta da CCDR Algarve e do Programa Regional Algarve 2030, divulgada em novembro de 2025, é recordado que a região se confrontou, até 2024, com 12 anos consecutivos de seca hidrológica, o que ajuda a explicar por que motivo a abundância momentânea não está a ser lida como solução definitiva. É por isso que o Algarve prossegue os investimentos estruturais.
Investimentos estruturais para garantir futuro hídrico
Entre os projetos mais relevantes está o Sistema de Dessalinização na Região do Algarve, que a Águas do Algarve tem em desenvolvimento, com um investimento de 107,9 milhões de euros e uma capacidade inicial de 16 milhões de metros cúbicos por ano, ficando preparado para futura ampliação. Em paralelo, continuam a avançar intervenções para reduzir perdas nas redes municipais, reforçar a reutilização de água tratada e diversificar origens de abastecimento. Segundo a AMAL, a operação financiada pelo PRR para reduzir perdas de água no setor urbano envolve 43,9 milhões de euros e tem como objetivos a conclusão de 125 quilómetros de intervenções nas redes e um contributo de redução de 2 hm3 nos volumes captados em sistemas naturais até ao fim do primeiro trimestre de 2026.
A reutilização de águas residuais tratadas é outro dos eixos que ganha peso. Segundo a Águas do Algarve, a empreitada das infraestruturas de elevação e adução de Água para Reutilização da ETAR de Almargem, no concelho de Tavira, representa um investimento de 4.395.956,35 euros e permitirá encaminhar ApR de classe B para usos não potáveis, designadamente a rega dos campos de golfe Benamor, Quinta da Ria e Quinta de Cima, substituindo consumo de água potável. Já a 17 de março, a empresa lançou o concurso público para a conceção-construção da remodelação da ETAR de Paderne e do Sistema Elevatório do Purgatório, com preço base de 4.486.000 euros, acrescido de IVA, num procedimento enquadrado no artigo 20.º do Código dos Contratos Públicos.
Ao mesmo tempo, o financiamento público para a resiliência hídrica continua previsto na programação dos fundos europeus. No Plano Anual de Avisos do Portugal 2030, aprovado pela Deliberação n.º 1/2026/PL da Comissão Interministerial de Coordenação, está previsto um aviso-convite de 110,37 milhões de euros, no âmbito do programa Sustentável 2030, destinado a “Ações para mitigação da situação de escassez hídrica e assegurar a resiliência hídrica da Região do Algarve”, com abertura indicada para 2 de março e encerramento a 31 de julho. Antes disso, o Programa Regional Algarve 2030 já tinha divulgado, em setembro de 2025, a receção de 19 candidaturas no ciclo urbano da água, num investimento global superior a 59,3 milhões de euros, apresentadas por municípios e pela Águas do Algarve, com a AMAL a acompanhar as candidaturas em baixa.
Neste Dia Mundial da Água, o Algarve chega, portanto, com uma margem de segurança maior do que em anos anteriores, mas longe de poder declarar a batalha vencida. A chuva devolveu margem de manobra às barragens, mas a região continua dependente de uma gestão mais eficiente, de menos perdas, de mais reutilização e de novas fontes de água. Num território que o Programa Regional Algarve 2030 descreve como particularmente pressionado pela população flutuante sazonal e vulnerável às alterações climáticas, a verdadeira diferença estará menos no alívio de um inverno chuvoso e mais na capacidade de transformar esse alívio em estratégia duradoura.
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