O Algarve é a região do país onde mais utentes recorrem a médicos de família no setor privado, apesar de a maioria já ter clínico atribuído no Serviço Nacional de Saúde (SNS), segundo um estudo divulgado.
De acordo com a análise desenvolvida pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros, da Nova SBE, 19,3% dos adultos algarvios recorreram ao privado em 2025, a taxa mais elevada a nível nacional, acima da Grande Lisboa (16,8%), do Grande Porto (13,6%) e do Norte Litoral (11,5%).
Os dados revelam que, a nível nacional, 14,1% dos adultos recorreram a médico de família no setor privado e, destes, cerca de 70% já tinham médico de família atribuído no SNS. Apenas 4,2% da população recorreu ao privado por não ter acesso a médico no sistema público, enquanto cerca de 10% apresenta dupla cobertura, utilizando simultaneamente o SNS e o setor privado.
“O principal fator subjacente ao recurso a médico de família no setor privado em Portugal não é a ausência de médico de família no SNS, e sim a cobertura por seguro de saúde privado ou outra forma de dupla cobertura”, sublinham os investigadores na análise “Médicos de Família no Setor Privado em Portugal: Ponto de Situação”.
O estudo indica que a existência de seguro de saúde aumenta em cerca de 39 pontos percentuais a probabilidade de recorrer ao privado. Entre os beneficiários de subsistemas, esse impacto é também significativo: 24,5 pontos percentuais nos subsistemas privados, 15,2 pontos na ADSE e 10,8 pontos na ADM (incluindo PSP e GNR).
Em contraste, a ausência de médico de família no SNS tem um efeito bastante mais reduzido. “Não ter médico de família no SNS eleva essa probabilidade apenas em 6,3 pontos percentuais (um impacto cerca de quatro vezes inferior ao associado ao seguro de saúde privado)”, refere o estudo. Mesmo quando há perda de acesso a médico de família no SNS, o aumento do recurso ao privado é moderado: a probabilidade passa de 13,4% para quem mantém médico no SNS para 18,7% para quem deixa de o ter.
Níveis significativos de dupla utilização
Os investigadores destacam ainda que o recurso ao setor privado não está necessariamente associado a falhas de cobertura do SNS. “Curiosamente, regiões com elevada cobertura pública, como o Norte Litoral (94,6%) e o Grande Porto (93,1%), registam igualmente níveis significativos de dupla utilização (10,9% e 12,6%, respetivamente), sugerindo que o recurso ao privado não decorre exclusivamente de falhas de cobertura do SNS”, apontam.
Outro fator determinante é o nível socioeconómico, com a probabilidade de ter seguro de saúde a aumentar à medida que sobe o rendimento. “Este padrão destaca que o seguro de saúde privado é altamente sensível à vulnerabilidade económica”, sublinha o estudo.
Por outro lado, o estado de saúde tem um impacto limitado na decisão de recorrer ao privado, indicando que esta escolha está mais relacionada com a capacidade financeira do que com a necessidade clínica imediata.
Os investigadores concluem que o crescimento dos seguros de saúde está a consolidar um padrão de utilização do setor privado independente da cobertura do SNS. “O crescimento dos seguros de saúde privados […] estará a potenciar o desenvolvimento de um hábito de recurso a médico de família no setor privado que não é resultado único, ou mesmo predominante, da falta de cobertura global por médicos de família no SNS”, afirmam. Para os autores, estes dados mostram que o reforço da cobertura no SNS poderá não reduzir de forma significativa a procura no setor privado, uma realidade particularmente evidente no Algarve, onde o recurso a cuidados privados se destaca no contexto nacional.
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