Escrevia esta quarta-feira Nuno Cabrita Alves, num apelo pungente lançado da sua página de Facebook, sobre a ameaça que paira sobre as conquilhas no Sotavento algarvio. É o relato de uma tragédia iminente, onde os gestos imprudentes e a ganância descontrolada ameaçam apagar da memória coletiva um símbolo de identidade regional e um recurso que alimentou gerações.
Entre Vila Real de Santo António e Tavira, especialmente nas praias de Monte Gordo, assiste-se à impunidade quase absoluta da apanha indiscriminada deste bivalve. Turistas e famílias inteiras, na sua inocência ou inconsciência, deixam para trás areais devastados e ecossistemas feridos de morte. O mesmo acontece com algumas embarcações espanholas, que aproveitam a insuficiente fiscalização portuguesa para operar em águas nacionais, indiferentes às regras e horários estabelecidos, destruindo bancos naturais já debilitados.

Devolver ao mar as conquilhas que não atingem o tamanho mínimo recomendado não é só um gesto ético, é uma obrigação moral perante as gerações futuras
É preocupante observar que, do outro lado da fronteira, Espanha já reconheceu a gravidade da situação, impondo restrições severas. Por lá, mariscadores profissionais estão limitados a quatro dias de atividade semanal, e embarcações semelhantes às que invadem o nosso espaço estão proibidas de operar devido à escassez crítica deste recurso.
Tal cenário é um alerta gritante, exigindo uma resposta firme e imediata por parte das autoridades portuguesas, nomeadamente da Autoridade Marítima Nacional e da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM). Mas, como bem lembra Cabrita Alves, não se pode esperar que apenas as autoridades resolvam um problema que é, afinal, da responsabilidade coletiva. Aos mariscadores profissionais apeados cabe também a missão de defenderem este património natural, adotando práticas sustentáveis e responsáveis.
Devolver ao mar as conquilhas que não atingem o tamanho mínimo recomendado não é só um gesto ético, é uma obrigação moral perante as gerações futuras.
No fim, talvez seja preciso perguntar às famílias que hoje dizimam os areais: o que deixarão aos seus filhos e netos além da areia despida e rochas nuas? O apelo de Cabrita Alves não é apenas sobre marisco; é sobre preservar uma memória viva, uma herança que pertence a todos nós.
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