Pagar um quarto pode consumir quase toda a reforma e deixar por comprar os medicamentos receitados pelo médico. Depois de décadas de trabalho, conseguir uma casa onde viver com tranquilidade continua a ser uma preocupação na velhice. Conceição Faria tem 76 anos, recebe 392 euros de pensão e paga 317 euros por um quarto em Benfica, Lisboa. A sua história foi contada numa reportagem da Renascença, na qual recordou uma vida passada entre vários países e empregos que chegaram a ocupar-lhe a manhã, a tarde e a noite.
Renda absorve cerca de 81% da pensão
Dos valores que apresentou, a conta é simples: descontando os 317 euros do quarto à pensão de reforma de 392 euros, a diferença era de apenas 75 euros. A renda correspondia, assim, a cerca de 81% da pensão declarada. “Pago 317 de renda, recebo de reforma 392 euros”, afirmou Conceição à Renascença.
As dificuldades sentem-se também na farmácia. “Não tenho vergonha de dizer. Prefiro passar fome a roubar. E, às vezes, não compro os medicamentos”, contou na mesma reportagem. Na altura, tinha uma receita por aviar havia três semanas ou um mês, apesar de os medicamentos lhe terem sido prescritos pelo médico.
Saiu do Funchal com promessa de emprego
Natural do Funchal, Conceição cresceu com oito irmãos numa família onde não faltava comida, mas havia dificuldades para assegurar outras necessidades. Trabalhou no artesanato e em cabeleireiros e recordou que, em criança, chegou a pedir sapatos nas lojas para si e para a mãe. Numa dessas memórias, contou à Renascença que até fez calçado de cartão.
Foi a promessa de um emprego num salão de cabeleireiro que a levou a embarcar para Lisboa no navio Santa Maria, ainda menor. Segundo o seu testemunho à estação, duas mulheres trouxeram-na com um documento de identidade falso. O trabalho que esperava encontrar não existia e, conforme relatou, a intenção era encaminhá-la para a prostituição.
Conceição contou que só conseguiu sair dessa situação ao fim de dois anos, em 1969, primeiro com a ajuda da filha de uma das mulheres e depois com o apoio de um polícia. Decidiu então deixar Lisboa e seguir para Moçambique, onde trabalhou como dançarina em bares e casinos até 1975.
Mais de 20 anos entre a Bélgica e Espanha
Com a independência de Moçambique, regressou a Lisboa através da Ponte Aérea. A passagem por Portugal não significou, porém, o fim da vida no estrangeiro. De acordo com a mesma fonte, Conceição voltou a partir e viveu entre a Bélgica e Espanha durante mais de duas décadas.
O regresso definitivo aconteceu em 1997, depois de um negócio falhado na Andaluzia. Fez uma viagem de autocarro de mais de 20 horas e chegou a Lisboa com pouco mais do que uma mala. Em menos de um dia, conseguiu trabalho num hotel no centro da cidade, dando início a uma nova fase de empregos acumulados.
Quatro empregos, das seis da manhã à meia-noite
A rotina que descreveu começava cedo. “Trabalhava das seis às nove nas limpezas. No hotel, entrava às dez e saía às cinco”, recordou. Entre uma ocupação e outra, sobrava pouco tempo, mas o final da tarde ainda não marcava o fim do trabalho.
Às seis da tarde entrava noutro emprego, de onde saía às nove da noite. Depois, ia a casa tomar banho e comer, antes de voltar ao serviço à meia-noite, no metro. Conceição explicou que gostava do que fazia, mas tinha também um objetivo concreto: conseguir uma casa para viver.
Casa onde viveu começou a deixar entrar chuva
Com a ajuda de uma colega de trabalho, encontrou um T0 no bairro social das Galinheiras, onde permaneceu durante mais de 20 anos. A localização permitia-lhe apanhar transportes diretos para os empregos. O ordenado chegava para a renda, mas deixava pouca margem para outras despesas, e as obras foram sendo adiadas.
Em 2022, as infiltrações tinham piorado e já chovia dentro da habitação. Aceitou então o convite de uma conhecida para se mudar para a Covilhã. Segundo contou, essa mulher já lhe devia 450 euros e não lhe arranjou a casa esperada. “Fui burlada”, afirmou Conceição, que acabou por regressar a Lisboa e passar a viver em quartos.
Partilhar casa não lhe trouxe tranquilidade
Quando falou com a Renascença, em novembro do ano passado, vivia num quarto em Benfica e partilhava um T6 com outros cinco idosos: três homens e duas mulheres. Descreveu problemas de higiene nas zonas comuns, apenas dois bicos de fogão a funcionar e a necessidade de desinfetar a cozinha e a casa de banho. Muitas vezes, acabava por limpar esses espaços e pagar os detergentes.
A convivência também é difícil. Conceição relatou à estação que um dos moradores bebia, gritava e a tinha agredido numa paragem de autocarro. “A mim maltratou-me. Bateu-me na rua, na paragem”, afirmou. Segundo o seu testemunho, apresentou queixa à polícia, mas a situação na casa não mudou.
Com o apoio do Centro Social de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, continuava a procurar uma saída. Ter novamente uma casa era o desejo que mantinha, apesar das dificuldades. “Tenho esperança. Nem que seja para viver três dias. Eu gostava de ir viver para Massamá, aquilo é lindo”, disse à Renascença.















