Num momento em que se multiplicam estudos sugerindo que o consumo moderado de álcool poderá até trazer benefícios, alguns especialistas apelam à cautela. Entre eles está o neurologista norte-americano Richard Restak, que alertou recentemente para os riscos que mesmo quantidades reduzidas de álcool podem representar para a saúde cerebral.
A recomendação é clara: aos 65 anos, o consumo de álcool deve ser seriamente repensado. Ou, de acordo com o especialista, completamente abandonado.
O cérebro não esquece
De acordo com o artigo assinado por Richard Restak no Daily Mail, publicado em 2023, o álcool, mesmo em doses tidas como seguras, afeta negativamente o funcionamento do cérebro. O médico defende que não existem evidências de que o álcool atinja apenas a memória, deixando incólumes as restantes capacidades cognitivas. Pelo contrário, explica, os efeitos são generalizados e podem culminar em quadros de demência.
O autor sublinha que, ao longo da vida, há uma perda progressiva de neurónios, sendo por isso sensato eliminar o consumo de álcool até aos 70 anos, no máximo. “Aos 65 anos, já perdemos uma quantidade significativa de neurónios”, justifica.
Estudos com números expressivos
Segundo a mesma fonte, uma investigação conduzida em França, que analisou mais de um milhão de diagnósticos de demência, concluiu que o consumo excessivo de álcool é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença. Os dados revelaram que este fator supera outros mais conhecidos, como a hipertensão ou a diabetes.
Num outro estudo, conduzido no Reino Unido com cerca de 25 mil participantes, os investigadores encontraram alterações no cérebro associadas à perda de memória e ao agravamento de casos de demência, mesmo entre quem consumia álcool de forma moderada.
Não existe dose ideal
O Hospital da Luz reforça que, para a maioria dos adultos saudáveis, existem limites máximos diários e semanais que não devem ser ultrapassados. No caso dos homens com menos de 65 anos, o máximo recomendado é de 20 gramas de álcool puro por dia, o equivalente a duas bebidas padrão, não excedendo 14 por semana. Acima dessa idade, o valor desce para metade: 10 gramas por dia, até um máximo de 7 por semana.
Nas mulheres, independentemente da idade, a recomendação mantém-se nas 10 gramas por dia, não ultrapassando 7 bebidas padrão por semana.
O risco do “binge drinking”
Mesmo quando pontual, o consumo excessivo num curto espaço de tempo pode trazer riscos significativos.
Conforme a mesma fonte, o “binge drinking”, ou consumo episódico excessivo, ocorre quando uma pessoa consome, em poucas horas, cinco ou mais bebidas padrão (50 g) no caso das mulheres; e seis ou mais (60 g) no caso dos homens, repetindo esse comportamento pelo menos duas vezes por mês. Este tipo de consumo, ainda que esporádico, não deve ser considerado seguro.
Como medir o que se bebe
Explica o Hospital da Luz que uma bebida padrão corresponde a 10 gramas de álcool puro. Na prática, isso equivale a um copo de vinho (100 mL), uma imperial (200 mL) ou meia dose de bebida destilada (50 mL). A quantidade de álcool ingerido pode ser calculada com uma fórmula simples: multiplicar o volume da bebida (em mL) pelo teor alcoólico e por 0,79 (densidade do álcool), dividindo o resultado por 100.
Por exemplo, uma lata de cerveja de 500 mL com 5,2% de teor alcoólico contém cerca de 20,5 g de álcool puro, o que equivale a duas bebidas padrão.
E quanto é demais, afinal?
Segundo a mesma fonte, qualquer valor que ultrapasse as quantidades máximas recomendadas é considerado consumo excessivo. Mesmo episódios isolados podem ter consequências. Num único dia, não se devem ultrapassar os 40 g de álcool (4 bebidas padrão) no caso das mulheres e os 50 g (5 bebidas padrão) no caso dos homens.
A resposta não é igual para todos
O hospital acrescenta que a tolerância ao álcool varia de pessoa para pessoa. O que para alguns é um consumo aparentemente inofensivo pode representar, para outros, um risco aumentado de doenças e alterações cognitivas. Estão especialmente em risco os adolescentes, grávidas, pessoas com doenças crónicas, em medicação ou com histórico de dependência.
Quando procurar ajuda
Se o consumo de álcool ultrapassa regularmente os limites recomendados ou se há sinais de perda de controlo, o melhor é procurar apoio. Conforme a mesma fonte, os sinais de alerta incluem necessidade de beber mais para obter o mesmo efeito, dificuldade em parar, sintomas indesejáveis na ausência de consumo ou impactos na vida pessoal ou profissional.
Falar com um médico é o primeiro passo para avaliar a situação e, se necessário, ser orientado para ajuda especializada.
















