É fácil associar o estado de um automóvel apenas ao número de quilómetros percorridos. Um carro com 10 ou 15 anos e poucos quilómetros pode, por isso, parecer uma compra particularmente segura. Mas há componentes em que o tempo também conta. Os dez anos não correspondem a um prazo legal geral de validade de um automóvel. Existem, contudo, verificações que se tornam especialmente importantes à medida que o veículo envelhece.
Pneus podem parecer bons e já ter idade a mais
Os pneus são talvez o exemplo mais claro. A Michelin recomenda que, a partir dos cinco anos de utilização, sejam examinados por um profissional pelo menos uma vez por ano. Se atingirem dez anos desde a data de fabrico, aconselha a substituição como medida de precaução, mesmo que ainda não tenham chegado ao limite de desgaste. A recomendação abrange também o pneu sobresselente.
A Continental apresenta uma orientação semelhante: todos os pneus com mais de dez anos, incluindo o suplente, devem ser substituídos, mesmo que aparentem estar em boas condições e a profundidade do piso continue acima do limite legal de 1,6 milímetros.
Este prazo de dez anos é uma recomendação de segurança dos fabricantes, não uma autorização para manter qualquer pneu em utilização até essa idade. Fissuras, deformações, danos, desgaste irregular ou piso abaixo do mínimo legal podem obrigar a uma substituição muito mais cedo.
A idade pode ser verificada através dos quatro últimos algarismos da marcação TIN ou DOT existente na lateral do pneu. Os dois primeiros indicam a semana e os dois últimos o ano de fabrico. Por exemplo, o código 2725 corresponde à 27.ª semana de 2025.
Poucos quilómetros não significam que a correia não envelheceu
Outro ponto a confirmar é a manutenção da correia de distribuição, caso o motor utilize este sistema. A Bosch Car Service explica que o material da correia se degrada com a idade e com a utilização. Como indicação geral, aponta para a substituição entre os 60 mil e os 100 mil quilómetros ou de cinco em cinco anos, consoante o que acontecer primeiro, ressalvando que o intervalo correto depende sempre do fabricante e do modelo.
Fazer poucos quilómetros não é, portanto, motivo suficiente para ignorar o prazo indicado no manual ou no plano de manutenção. Num automóvel usado com mais de dez anos, vale a pena confirmar não apenas quantos quilómetros tem, mas quando foi efetivamente substituída a correia e se existe documentação que o comprove.
A partir dos oito anos, a inspeção já é anual
Há ainda uma consequência concreta da idade do veículo prevista no regime de inspeções aplicável aos automóveis ligeiros de passageiros em Portugal continental.
De acordo com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes, a primeira inspeção é realizada quatro anos depois da primeira matrícula. Seguem-se inspeções de dois em dois anos até o automóvel perfazer oito anos e, a partir daí, a periodicidade passa a ser anual.
Um automóvel ligeiro de passageiros com mais de dez anos encontra-se, por isso, em regra, sujeito a inspeção todos os anos. A aprovação na inspeção não substitui, contudo, o cumprimento do plano de manutenção definido pelo fabricante.
Estar parado também pode trazer problemas
Pouca utilização não é necessariamente uma vantagem para todos os componentes. Um automóvel que passe semanas ou meses parado pode apresentar problemas que não estão diretamente relacionados com a quilometragem.
A associação britânica AA alerta para a possibilidade de a bateria perder carga e recomenda que, depois de um longo período de imobilização, sejam verificadas as pressões dos pneus, os níveis dos fluidos e os travões. Os discos podem apresentar corrosão superficial e o travão de estacionamento pode ficar preso em determinadas circunstâncias.
Assim, num carro com mais de uma década, o número de quilómetros continua a ser importante, mas não conta toda a história. O historial de manutenção, a idade e o estado dos pneus, o cumprimento dos prazos da correia de distribuição e os períodos prolongados de imobilização podem ser tão relevantes como aquilo que aparece no conta-quilómetros.
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