A história de Kay Coombes e do marido Pete no Algarve começou há 45 anos, quando os dois chegaram à região numa caravana e acabaram por comprar uma pequena quinta perto de Monchique. Tinham pouco mais de 30 anos, vinham do Reino Unido e procuravam um lugar onde pudessem viver de forma diferente. Encontraram uma propriedade com mais de três hectares, sem eletricidade nem telefone, e fizeram dela a sua casa.
A decisão surgiu depois de várias viagens pelo Algarve. Numa dessas passagens pela região, uma conversa com outros estrangeiros levou-os a conhecer uma casa em Monchique que tinha sido comprada por cerca de 2.300 euros. A ideia começou então a ganhar forma e o casal vendeu a propriedade que tinha no Reino Unido para avançar com a compra.
Monchique antes da transformação
Segundo a revista Tomorrow Algarve, a vila de Monchique que Kay e Pete conheceram no início dos anos 80 tinha pouco em comum com a realidade atual. Muitas das estradas eram ainda caminhos de terra, os trajetos até Portimão ou Lagos demoravam bastante mais e a presença de estrangeiros na zona era reduzida.
Foi durante uma passagem pela serra que Kay começou a imaginar uma vida naquele território. O casal tinha seguido até à Fóia depois de conhecer um parapentista norueguês que estava acampado numa praia perto de Albufeira. A intenção era avaliar o local para a prática de parapente, mas acabaram por permanecer ali durante a noite.
“Lembro-me de ver duas mulheres a serem deixadas por um carro. Saíram e começaram a caminhar para um lugar que parecia ser o meio do nada. Pensei: imaginem viver aqui!”, recorda Kay.
Casa sem eletricidade e uma nova aprendizagem
A quinta comprada pelo casal exigia trabalho. Situada no final de um caminho íngreme, não tinha eletricidade nem ligação telefónica. A realidade obrigou os novos moradores a aprenderem rapidamente a tratar da terra e a resolver problemas que não faziam parte da vida que tinham deixado no Reino Unido.
Os vizinhos desempenharam um papel importante nesse processo. Ajudaram-nos a encomendar materiais para as obras e ensinaram-nos a cultivar frutas e legumes. Para Kay, a experiência representava uma mudança profunda nos hábitos quotidianos.
“Era como voltar atrás no tempo. Era difícil comprar produtos e as duas pequenas lojas da vila pareciam ter sobretudo peixe enlatado. Até o pão tínhamos de encomendar. Parecia muito primitivo, mas foi precisamente por isso que ficámos rendidos”, conta.
Comunidade que abriu as portas
A vida no interior algarvio também implicou aprender português. Ao longo dos anos, o casal criou relações com pessoas de diferentes nacionalidades, algumas das quais continuaram a viver na região. Kay teve ainda contacto direto com tradições locais que, naquela altura, faziam parte do quotidiano da comunidade.
Uma delas era a matança anual do porco. Embora não apreciasse o início do processo, participou no trabalho que se seguia, incluindo a preparação da carne e a produção de banha. As jornadas juntavam várias pessoas e eram acompanhadas por comida e bebidas, entre elas o medronho.
Numa dessas ocasiões, Kay recusou participar numa tarefa relacionada com a confeção de chouriço, mas ofereceu-se para lavar a loiça. A refeição reunia mais de 20 pessoas e acabou por pedir a ajuda de Pete. A presença de um homem a lavar a loiça divertiu os habitantes locais.
O Algarve mudou, mas a casa ficou
A entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia, em 1986, e o crescimento registado durante a década de 1990 trouxeram novas infraestruturas, mais turismo e um aumento do número de pessoas que passaram a residir na região. A transformação criou também novas oportunidades profissionais para o casal.
Pete trabalhou como pintor e decorador, enquanto Kay exerceu funções comerciais no grupo hoteleiro Pestana e no Alto Golf and Country Club, em Alvor. Ao mesmo tempo, a quinta em Monchique continuou a ser o ponto de regresso dos dois.
Já na reforma, Kay e Pete voltaram a viajar de caravana, mantendo a casa na serra como ponto de referência. A doença de Pete, em 2017, alterou os últimos anos da vida do casal. Morreu em 2019, deixando Kay na propriedade que ambos tinham comprado e transformado ao longo de décadas.
Vida 45 anos depois
Hoje, aos 78 anos, Kay continua a viver na mesma casa. O lugar que conheceu quando o Algarve tinha menos infraestruturas, poucos residentes estrangeiros e uma vida rural mais marcada pelas tradições locais continua a ser a sua residência.
A quinta tornou-se, assim, o ponto de ligação entre duas épocas distintas do Algarve. Foi ali que o casal começou uma vida longe do Reino Unido, aprendeu a trabalhar a terra com a ajuda dos vizinhos e acompanhou as mudanças que transformaram a região ao longo das últimas quatro décadas.
Para Kay, a relação com aquele lugar começou numa viagem sem um plano definido e acabou por se transformar numa permanência de 45 anos. A casa que encontrou com Pete no início da década de 1980 continua a ser, agora sozinha, o lugar onde decidiu ficar.
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