Com o fim da monarquia portuguesa em 1910, extinguiu-se o título de rei de Portugal e dos Algarves, D’Aquém e D’Além Mar em África. No entanto, a designação “Reino do Algarve” nunca foi formalmente abolida, o que alimenta ainda hoje curiosidades históricas e algumas ambiguidades de interpretação.
O que poucos sabem é que, ainda hoje, o atual monarca espanhol, Filipe VI, se intitula também rei do Algarve. Um título que permanece nos registos oficiais da Casa Real espanhola e cuja origem remonta aos séculos XIII e XIV.
O Reino que veio do Al-Gharb
De acordo com a Associação dos Autarcas Monárquicos, o termo “Algarve” deriva do Al-Gharb muçulmano, uma região que não coincidia exatamente com os limites geográficos atuais. Durante o período islâmico, o Al-Gharb estendia-se de Coimbra até Silves, cidade que funcionava como capital da região.
Segundo a mesma fonte, este território conheceu um elevado desenvolvimento económico e cultural, herança também de influências romanas. A presença muçulmana manteve-se por mais de cinco séculos, até ser gradualmente substituída pela Reconquista cristã.
Silves: o título que veio e foi
O primeiro rei português, D. Afonso Henriques, nunca chegou a conquistar o Algarve. Foi o seu filho, D. Sancho I, quem tomou Silves em 1189, proclamando-se rei de Silves e do Algarve. Escreve a publicação que a cidade foi retomada pelos mouros apenas dois anos depois, levando à perda do título.
Foram necessários cinco monarcas portugueses e o apoio de cruzados estrangeiros para garantir a conquista definitiva da região. D. Afonso III concretizou esse objetivo em 1249, depois de negociar com as populações muçulmanas locais.
A paz que se fez por aliança
Para assegurar a paz e a lealdade dos mouros, D. Afonso III garantiu-lhes autonomia legal, direito à propriedade e proteção. Explica a Associação dos Autarcas Monárquicos que, em troca, os cavaleiros muçulmanos passaram a servir o rei português.
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Conforme a mesma fonte, a consolidação da conquista não foi pacífica. O rei de Castela, Afonso X, contestava a posse portuguesa do Algarve, argumentando que o último rei muçulmano da região, Musa ibn Mahfuz, lhe tinha prestado vassalagem.
O tratado que fez a fronteira
A rivalidade foi ultrapassada através de um casamento estratégico. D. Afonso III casou-se com D. Beatriz de Castela, filha de Afonso X, e em 1267 foi assinado o Tratado de Badajoz. Este acordo formalizou a cedência dos direitos sobre o Algarve a Portugal, fixando o rio Guadiana como fronteira entre os dois reinos.
Este tratado seria complementado trinta anos depois pelo Tratado de Alcanizes, já com D. Dinis no trono, no qual se consolidaram os limites fronteiriços a norte do Tejo.
Do casamento à consolidação territorial
Apesar de já ser casado com Matilde II de Bolonha, D. Afonso III celebrou a união com D. Beatriz em 1253. O Papa Alexandre IV contestou a validade do novo casamento, mas a questão foi superada com a morte de Matilde, em 1258.
D. Dinis, filho de D. Beatriz, foi legitimado cinco anos depois. Com a morte do seu avô Afonso X, a mãe herdou várias terras a leste do Guadiana, incluindo Moura, Serpa, Noudar e Mourão, o que reforçou a presença portuguesa na fronteira.
O neto que convenceu o avô
Relata a mesma fonte que D. Dinis terá visitado o avô em criança, deixando forte impressão. Embora tenha cedido o Algarve a Portugal, Afonso X continuou a usar o título de Rei do Algarve, designação que passou para os seus descendentes.
Segundo a Associação dos Autarcas Monárquicos, o título mantém-se no protocolo da Casa Real espanhola, hoje representada por Filipe VI. Apesar de Filipe VI ser considerado o rei do Algarve, o monarca espanhol não exerce qualquer tipo de função em Portugal. Curiosamente, o rei espanhol usa também o título de rei de Jerusalém, entre outros de natureza simbólica.
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