Há pessoas que parecem conseguir impor limites com naturalidade, discordar sem criar um conflito e manter a própria posição sem sentir necessidade de agradar a toda a gente. No dia a dia, estes comportamentos são frequentemente associados a uma “personalidade forte”. A expressão, contudo, não corresponde a uma categoria científica formal da Psicologia.
A American Psychological Association define personalidade como o conjunto relativamente duradouro de características e comportamentos que influencia a forma como cada pessoa se adapta à vida.
Dizer “não” pode ser uma das pistas
Um dos comportamentos que mais se aproxima daquilo que popularmente é descrito como uma personalidade forte é a assertividade.
Segundo o Dicionário de Psicologia da American Psychological Association, esta corresponde a uma forma de comunicação em que a pessoa consegue expressar diretamente sentimentos e necessidades mantendo o respeito pelos outros.
Na prática, uma pessoa assertiva pode recusar um pedido, manifestar desacordo ou estabelecer um limite sem precisar de recorrer à agressividade.
Por isso, alguém que consegue dizer “não” quando considera necessário, sem atacar o outro e sem sentir que precisa de justificar excessivamente a sua decisão, pode estar a demonstrar assertividade.
Personalidade forte não é o mesmo que agressividade
Falar mais alto, dominar uma conversa ou nunca ceder não significa necessariamente ter uma personalidade mais forte.
A própria definição da APA distingue a assertividade de formas agressivas de comunicação. O objetivo não é impor uma vontade aos outros, mas conseguir defender necessidades e opiniões de forma direta e adequada.
Da mesma forma, reconhecer um erro ou alterar uma decisão perante nova informação não é necessariamente sinal de fraqueza.
A personalidade é composta por vários traços, valores, padrões emocionais e comportamentos, pelo que não existe um único gesto que permita classificar alguém como tendo uma personalidade “forte” ou “fraca”.
Recuperar depois de uma dificuldade também conta
Outro conceito frequentemente associado à ideia de força psicológica é a resiliência.
A APA define resiliência como o processo e o resultado de uma adaptação bem-sucedida perante experiências difíceis ou desafiantes, envolvendo flexibilidade mental, emocional e comportamental.
Isto significa que ser emocionalmente forte não implica nunca sentir medo, tristeza ou ansiedade perante uma situação difícil.
A diferença pode estar na capacidade de se adaptar, reorganizar e continuar depois de enfrentar um problema.
A investigação psicológica salienta ainda que a resiliência não é uma característica imutável que algumas pessoas possuem e outras não. Comportamentos e estratégias associados a esta capacidade podem ser desenvolvidos e praticados.
Não precisar de ter sempre razão também pode ser sinal de segurança
Uma pessoa segura das próprias posições pode igualmente conseguir ouvir uma opinião diferente sem interpretar imediatamente a discordância como uma ameaça. Da mesma forma, estabelecer limites não significa recusar todos os compromissos ou colocar permanentemente as próprias necessidades acima das dos restantes.
É precisamente esse equilíbrio que distingue a assertividade da agressividade: defender a própria posição sem deixar de respeitar a outra pessoa.
Assim, se há um comportamento que pode servir de pista para aquilo que popularmente se chama uma personalidade forte, é a capacidade de dizer “não”, estabelecer limites e comunicar aquilo de que se precisa sem transformar isso num confronto.
Ainda assim, não existe um teste científico simples que permita concluir que alguém tem uma “personalidade forte” apenas porque apresenta um destes comportamentos.
Leia também: As folhas da Espada de São Jorge começaram a enrolar? Este sinal pode indicar um problema que muitos ignoram
















