Aos 78 anos, Leonel Agostinho viu a sua vida mudar por completo para conseguir cuidar da mulher. Maria Elisabete sofre de Alzheimer, tem uma incapacidade de 80% e necessita de acompanhamento permanente. O casal recebe ajuda profissional durante apenas uma hora por dia. Nas restantes, é Leonel quem assegura praticamente tudo.
A história foi contada numa reportagem da Renascença publicada em setembro de 2025, dedicada aos homens que assumiram o papel de cuidadores informais num país onde esta responsabilidade continua maioritariamente entregue às mulheres.
“O resto das outras 23 horas do dia é comigo”
Maria Elisabete recebe apoio profissional sobretudo durante o banho da manhã. Depois disso, Leonel fica responsável pelo resto do dia.
Ao longo dos últimos anos, teve de aprender tarefas que anteriormente não faziam parte da sua rotina. Passou a limpar a casa, engomar a roupa e organizar a medicação da mulher. Cozinhar já fazia antes. RR
Há até pequenos problemas do quotidiano para os quais encontrou as suas próprias soluções. Leonel admite que nunca conseguiu aprender a colocar corretamente uma fralda e, por isso, optou por comprar cuecas-fralda, mais simples de vestir.
Alzheimer mudou a vida do casal
Maria Elisabete vive com Alzheimer há vários anos e a doença tem progredido. Segundo Leonel, a situação agravou-se particularmente nos últimos cinco anos.
A mulher já tem dificuldades em falar e deixou de reconhecer grande parte das pessoas que a rodeiam. Leonel continua, porém, a ser um dos rostos que reconhece. Há momentos especialmente difíceis, como quando termina uma refeição e, poucos minutos depois, Maria Elisabete já não se recorda de ter comido.
O desgaste também se sente durante a noite. Leonel contou à Renascença que frequentemente só consegue adormecer depois da uma da manhã, vencido pelo cansaço, e volta a levantar-se por volta das oito.
“É uma vida de dedicação total”
Antes da doença, Leonel tinha uma vida bastante diferente. Fazia caminhadas, viajava e encontrava-se com antigos camaradas. Grande parte dessas atividades desapareceu à medida que os cuidados exigidos pela mulher aumentaram.
Para o reformado, ser cuidador significa abdicar de uma parte considerável da própria vida. Ainda assim, rejeita a ideia de que cuidar seja uma tarefa exclusivamente feminina e considera que qualquer pessoa pode assumir essa responsabilidade.
A história ganha também uma dimensão particular quando Leonel recorda o passado do casal. Durante anos, trabalhou longe de casa em obras e barragens, enquanto Maria Elisabete ficava responsável pelos filhos. Hoje, considera que, se os papéis estivessem invertidos, a mulher faria o mesmo por ele.
Enquanto tiver forças, quer continuar ao lado da mulher
Leonel recebe ainda algum apoio de uma associação, através da visita semanal de uma voluntária, mas a responsabilidade diária continua essencialmente sobre os seus ombros.
Apesar das dificuldades, não pretende, enquanto conseguir, colocar Maria Elisabete numa instituição. À Renascença explicou que continuará a cuidar dela enquanto tiver forças e capacidade para o fazer.
O que mais teme no futuro é que a mulher deixe de o reconhecer. E, apesar do cansaço acumulado, mantém um desejo simples: que um dia Maria Elisabete volte a olhar para ele e o abrace.
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