António Laginha transformou os cartazes que começou a guardar quando era bailarino num acervo dedicado à memória da dança. A apresentação de pouco mais de meia centena de peças no Museu Municipal de Faro, entre os dias 25 de julho e 4 de outubro [até este domingo], dá o mote a uma entrevista ao POSTAL em que o antigo intérprete do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado recorda as origens da coleção e reflete sobre a relação entre o espetáculo e a imagem que lhe sobrevive. Entre a investigação e o colecionismo, critica a falta de atenção das instituições ao património coreográfico português e fala do legado que quer deixar às novas gerações.
Do palco à coleção de cartazes
Em que momento guardar um cartaz deixou de ser apenas um gesto de memória pessoal e passou a representar, para si, uma responsabilidade perante a história da dança?
Comecei a colecionar cartazes quando, no final dos anos 1970, dançava no extinto Ballet Gulbenkian e, anos mais tarde, continuei quando me tornei artista da Companhia Nacional de Bailado. Um pouco por vaidade, diria, porque um objeto feito para habitar superfícies públicas com muita visibilidade confere ao bailarino uma dimensão que ultrapassa a sua própria. E, certamente, produz no seu trabalho uma certa sensação de longevidade, perante aquela que é a mais efémera de todas as artes – a Dança. Na verdade, foi quando deixei de dançar, regular e profissionalmente, que a aquisição de cartazes passou para uma dimensão menos amadora. Primeiro deixou de ser uma atividade estritamente pessoal, depois tornou-se numa espécie de deslumbramento de ordem estética e, só já na qualidade de jornalista cultural, quando tive oportunidade de fazer a cobertura dos mais importantes festivais de dança do mundo, os meus cartazes, de certo modo, começaram a juntar-se e a dialogar entre si para contribuir para algo mais duradouro do que a missão de um simples retângulo de papel.

“A arte deve ler-se naturalmente com os olhos, com o coração e, só depois, com a mente.”
De que forma a formação em arquitetura e design, aliada à experiência como bailarino, coreógrafo e crítico, influencia a maneira como lê um cartaz de dança?
Sendo um cartaz, basicamente, um veículo em que a palavra dialoga (por vezes com grande audácia) com a imagem, é natural que uma sólida formação académica em artes visuais e performativas se posicione como uma boa base para capturar a essência das obras. Mas tal não é condição sine qua non para desfrutar, sobretudo, da beleza subterrânea que um cartaz pode encerrar. Por outras palavras, para consumir a mensagem imediata que um cartaz sempre pretende transmitir – e essa é a função primária deste tipo de arte que não considero de modo nenhum “pobre”, mas propositadamente “acessível” – muitas vezes o exercício da leitura acaba por ser o mais imediato e sensorial.
A arte deve ler-se naturalmente com os olhos, com o coração e, só depois, com a mente.
A memória que sobrevive ao espetáculo
Ao escolher pouco mais de meia centena de peças de um acervo muito mais vasto, que narrativa procurou construir sobre a evolução da dança e da comunicação visual nas últimas cinco décadas?
Devo começar por responder que a proposta inicial – que espero poder vir a concretizar noutro espaço – era de “um século de cartazes”, pois a coleção começa com uma peça de 1917, que aparece impressa no meu mais recente livro intitulado Os Ballets Russes em Portugal. Reduzindo para metade o número de peças, uma possível narrativa histórica acabou por diluir-se em “núcleos” e cada cartaz acabou por ter uma voz mais pessoal do que, propriamente, de conjunto que representasse uma narrativa com outro tipo de propósito.

“A imagem fiel de um espetáculo ao vivo não existe, pois no dia a seguir já é diferente.”
Quando um cartaz sobrevive ao espetáculo que anunciava, até que ponto preserva fielmente a memória da obra e até que ponto a reconstrói através da imagem?
Numa época em que, ironicamente, tudo é cada vez mais efémero (e também falso), um cartaz com o cheiro da tinta sem a agilidade dos virtuais pode ajudar a fazer perdurar no tempo um evento que, por si só, já é passageiro, embora não tenha que ser descartável. A imagem fiel de um espetáculo ao vivo não existe, pois no dia a seguir já é diferente. Mas sim, tudo o que possa ajudar a prolongar no tempo a memória de um evento, ainda que esquecido numa parede de um qualquer canto de rua, é um pedaço de memória que insiste em dizer: estou aqui!
Faro, os públicos e o risco do esquecimento
Que significado tem apresentar esta coleção pela primeira vez em Faro e que lacuna da memória da dança no Algarve gostaria que a exposição ajudasse a preencher?
A razão por que escolhi o Museu Municipal de Faro para a apresentação desta exposição original e única é pelo facto da instituição já ter feito uma exposição de cartazes de cinema no passado. Apesar da minha opinião ser algo suspeita, considero os cartazes de dança bem mais coloridos, com designs mais dinâmicos e apelativos.
Embora a coleção não tenha uma ligação direta com o Algarve, penso que a sua intrínseca beleza e a narrativa a ela associada podem contribuir um pouco para a formação de mais e melhores públicos.

Num tempo em que a divulgação cultural vive sobretudo em conteúdos digitais efémeros, que riscos corre a memória da dança e o que deveria ser preservado pelas instituições?
Durante décadas fui crítico de dança, uma profissão que desapareceu, pois hoje toda a gente (por mais ignorante que seja) dá opinião sobre tudo e sobre todos em qualquer meio de informação. Para me satisfazer intelectualmente optei por fazer cada vez mais investigação usando, naturalmente, as excelentes ferramentas que encontramos no mundo digital. No que toca à Dança, uma arte essencialmente visual, a sua preservação sempre foi e continua a ser bastante difícil e as instituições portuguesas famintas de novas obras, praticamente nada fazem para guardar o bom que o passado nos deixou. Basta dizer que o património coreográfico português se perdeu quase por completo e hoje o que aparece em cartaz parece ser coreografias improvisadas ou em progresso.

“Basta dizer que o património coreográfico português se perdeu quase por completo e hoje o que aparece em cartaz parece ser coreografias improvisadas ou em progresso.”
Um legado para as próximas gerações
Depois de meio século a dançar, escrever, investigar e reunir documentos, que parte da história da dança portuguesa ainda teme que desapareça e que legado quer deixar às novas gerações?
Possuo uma coleção muito valiosa de documentação de dança – atrevo-me a dizer que é a mais expressiva em Portugal em termos de livros, programas, fotos, revistas, cartazes, memorabilia e até alguns figurinos – que não quero que morra comigo. Infelizmente não vejo grande interesse da parte das instituições portuguesas que parecem mais preocupadas em investir no futebol! Já ofereci à Biblioteca Nacional de Portugal duas dezenas de cartazes de dança para enriquecer um acervo que não é nada rico nesta arte.
Neste momento estou em negociações para passar para a Universidade da Madeira a Revista da Dança (única no nosso país) que fundei e dirijo desde 1998, para que o projeto possa se manter e evoluir. O legado que deixarei, necessariamente passa pelos livros que vou escrevendo – designadamente a História do Bailado em Portugal (CTT, 2020) – e, sobretudo, pelos milhares de artigos jornalísticos e académicos que tenho vindo a produzir ao longo de 50 anos e que, naturalmente, espelham uma parte substancial da dança que se fez em Portugal nas últimas décadas.

De Loulé para os palcos e os arquivos da dança
António Laginha nasceu em Loulé, a 5 de maio de 1955. Começou por estudar arquitetura e design antes de se dedicar profissionalmente à dança, construindo um percurso como intérprete, professor, coreógrafo, investigador e escritor.
Licenciado em Arquitetura, obteve o grau de mestre em Belas-Artes na Universidade de Nova Iorque, em 1987, e o doutoramento em Estudos Artísticos na Universidade de Coimbra, em 2014, com uma tese dedicada ao Ballet Gulbenkian.Como bailarino, integrou o Ballet Gulbenkian e a Companhia Nacional de Bailado. Foi também cofundador e primeiro professor da Companhia de Dança de Lisboa, em 1985.
No jornalismo, escreveu para órgãos como o Diário de Notícias e o Correio da Manhã e colaborou com publicações internacionais especializadas em dança. Fundou a Revista da Dança, em 1998, e o Centro de Dança de Oeiras, em 2002.
Entre os seus livros contam-se História do Bailado em Portugal (2020) e Os Ballets Russes em Portugal (2024). O seu trabalho estende-se à literatura infantojuvenil: O Segredo de Natália, editado em 1998, foi distinguido com o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores.
Leia também: Nem Faro nem Tavira: há 2.000 anos esta antiga cidade romana no Algarve cunhava a própria moeda junto à Ria Formosa















