Uma noite de monitorização no Parque Natural do Cadí-Moixeró no passado dia 20 de julho acabou por surpreender os investigadores. Entre as centenas de morcegos capturados encontrava-se uma espécie que nunca tinha sido identificada na Península Ibérica e que costuma viver muito mais a norte da Europa.
Primeira identificação na Península Ibérica
O exemplar de morcego-do-norte, com o nome científico Cnephaeus nilssonii, foi encontrado no Parque Natural do Cadí-Moixeró, na Catalunha. Trata-se do primeiro registo confirmado da espécie em toda a Península Ibérica.
Segundo uma nota oficial do Governo da Catalunha, a descoberta é considerada excecional porque alarga para oeste a distribuição conhecida deste morcego, até agora associada às regiões boreais da Europa e aos Alpes.
Equipa capturou 231 morcegos numa noite
O exemplar foi identificado durante uma campanha de monitorização realizada pelo Parque Natural do Cadí-Moixeró, em colaboração com o grupo de investigação BiBio, integrado no Centro Tecnológico BETA, e o Museu de Ciências Naturais de Granollers.
Numa única noite, a equipa capturou 231 morcegos pertencentes a 12 espécies diferentes. Entre os animais encontrava-se um macho adulto de morcego-do-norte, cuja presença naquela região não era esperada pelos investigadores.
O que é o morcego-do-norte?
O morcego-do-norte encontra-se sobretudo na Escandinávia, Finlândia e Rússia, embora também esteja presente em regiões montanhosas do centro e sul da Europa, como os Alpes. É considerado um dos morcegos com distribuição mais setentrional do planeta.
Esta espécie insetívora alimenta-se principalmente de insetos voadores e consegue sobreviver em ambientes marcados por temperaturas muito baixas e longos períodos de inverno. O seu habitat inclui florestas boreais de coníferas e zonas montanhosas.
Torpor ajuda a enfrentar o frio e a falta de alimento
Uma das adaptações fisiológicas do morcego-do-norte é a capacidade de entrar em torpor, um estado temporário de atividade metabólica reduzida. Este mecanismo funciona como uma hibernação de curta duração e permite diminuir o consumo de energia.
A redução do metabolismo ajuda o animal a atravessar períodos em que existem menos insetos disponíveis e as temperaturas descem acentuadamente. A espécie é ainda capaz de se reproduzir acima do Círculo Polar Ártico, uma característica pouco comum entre os morcegos.
Descoberta deixa várias perguntas sem resposta
Os investigadores procuram agora perceber se existe uma população de morcegos-do-norte instalada no Parque Natural do Cadí-Moixeró. Outra possibilidade é que o exemplar tenha percorrido uma longa distância a partir das populações conhecidas mais próximas, localizadas nos Alpes.
Também não está excluída a hipótese de existirem populações que sobreviveram no sul da Europa desde as últimas glaciações e permaneceram indetetadas.
A equipa pretende ainda estudar uma possível relação com a presença do morcego-argênteo, Vespertilio murinus, identificado recentemente no mesmo parque.
Análises podem revelar origem do exemplar
O animal recolhido está a ser submetido a análises morfológicas e genéticas. Os resultados poderão ajudar a determinar a sua origem e esclarecer se a descoberta corresponde a uma deslocação isolada ou à presença de uma população desconhecida.
A equipa está também a preparar uma publicação científica para formalizar o primeiro registo do morcego-do-norte na Península Ibérica, de acordo com a informação divulgada pelas autoridades catalãs.
A investigação poderá fornecer novos dados sobre a dispersão e a capacidade de sobrevivência desta espécie. Permitirá igualmente compreender melhor como algumas populações de morcegos responderam às alterações ambientais ocorridas na Europa ao longo de milhares de anos.
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