Trabalhar diariamente perto de aparelhos de raio-X ou em instalações onde existem materiais radioativos pode parecer uma das situações profissionais mais associadas à exposição à radiação. No entanto, um estudo que contou com investigadores ligados à Harvard Medical School, em colaboração com outras instituições de Boston e Cambridge, chegou a outro tipo de profissão quando analisou a mortalidade por cancros relacionados com este tipo de exposição.
A investigação, publicada no JAMA Internal Medicine, analisou dados de mortalidade de cerca de 12,7 milhões de pessoas, distribuídas por 503 profissões nos Estados Unidos. O objetivo foi perceber em que grupos profissionais existia uma maior proporção de mortes por tipos de cancro associados à radiação ionizante.
Assistentes de bordo surgem no primeiro lugar
Entre todas as profissões analisadas, foram os assistentes de bordo que apresentaram a maior proporção de mortes por cancros considerados relacionados com radiação. Cerca de 6,9% das mortes registadas neste grupo profissional estavam associadas às doenças incluídas pelos investigadores nesta categoria. Logo a seguir surgiram os pilotos, com uma proporção próxima dos 6,7%.
Entre os cancros considerados na análise estavam diferentes doenças com associação conhecida ou estudada à exposição a radiação ionizante, incluindo cancro da mama, tiroide e sistema nervoso central, além de melanoma, leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. O resultado chamou a atenção dos investigadores por colocar duas profissões da aviação no topo da comparação.
Porque é que trabalhar num avião pode aumentar a exposição?
A explicação está relacionada com a chamada radiação cósmica, proveniente do espaço e que atinge continuamente a Terra. Ao nível do solo, a atmosfera funciona como uma espécie de barreira, absorvendo e dispersando grande parte destas partículas. Quanto maior é a altitude, menor é a proteção proporcionada pela atmosfera e maior tende a ser a exposição.
É precisamente isso que acontece nos voos comerciais. Pilotos e assistentes de bordo passam centenas de horas por ano a altitudes elevadas, acumulando uma exposição que é muito diferente da de quem viaja apenas ocasionalmente. Os próprios autores do estudo salientam que os membros das tripulações aéreas recebem, em média, uma das maiores doses anuais de radiação ionizante entre os grupos profissionais nos Estados Unidos, sobretudo devido à radiação cósmica encontrada às altitudes utilizadas pela aviação comercial.
Nem todos os voos representam a mesma exposição
A dose de radiação cósmica recebida durante uma viagem depende de vários fatores. A altitude, a duração do voo e a latitude da rota influenciam o nível de exposição. Um voo longo a grande altitude pode significar uma dose superior à de uma ligação curta. As rotas que passam por latitudes mais próximas das regiões polares também tendem a envolver uma exposição maior.
Para um passageiro que realiza alguns voos por ano, as doses são geralmente reduzidas. A situação é diferente para pilotos e tripulantes de cabine, cuja exposição se repete durante vários anos ou décadas de atividade profissional.
Radiação pode não ser a única explicação
Apesar da associação encontrada, os investigadores não concluem que a radiação cósmica seja responsável, por si só, pelo aumento observado. Quem trabalha na aviação também está sujeito a outros fatores que têm sido estudados pela ciência. Entre eles encontram-se as alterações frequentes do ritmo circadiano, provocadas pelo trabalho noturno, horários irregulares e sucessivas mudanças de fuso horário.
No caso dos pilotos, existe ainda investigação sobre a possível exposição a radiação ultravioleta através das janelas do cockpit. Desta forma, o resultado deve ser interpretado como uma associação estatística e não como uma prova de que trabalhar como assistente de bordo ou piloto causa diretamente cancro.
Estudo analisou mortes e não novos casos de cancro
Há outra distinção importante. A investigação não procurou saber qual a profissão em que existe maior probabilidade de uma pessoa desenvolver cancro em geral. O que os investigadores compararam foi a proporção de mortes atribuídas a um conjunto específico de cancros relacionados com radiação entre centenas de grupos profissionais.
Esta diferença é relevante porque mortalidade e incidência de cancro não são a mesma coisa. Para determinar diretamente o risco de desenvolver a doença seria necessário acompanhar diagnósticos, exposição individual e outros fatores ao longo do tempo.
Passageiros ocasionais não estão na mesma situação
Os resultados também não significam que viajar de avião ocasionalmente represente o mesmo risco observado entre profissionais da aviação. As autoridades norte-americanas de saúde ocupacional explicam que a quantidade de radiação recebida num único voo é pequena. O interesse científico concentra-se sobretudo nos efeitos acumulados da exposição repetida, como acontece com trabalhadores que passam grande parte da vida profissional no ar.
O estudo reforça, assim, uma particularidade pouco visível da aviação comercial: embora pilotos e assistentes de bordo trabalhem longe de equipamentos que normalmente associamos à radiação, a altitude coloca-os em contacto regular com uma fonte natural de radiação ionizante proveniente do espaço.
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