Estou de férias há três dias.
Ou, pelo menos, é isso que consta oficialmente.
Vim para o Norte com a família, trouxe roupa, sapatos, livros, carregadores, as coisas normais que uma pessoa leva quando pretende interromper por uns dias a sua vida habitual.
Esqueci-me apenas de deixar a vida habitual em casa.
O telefone toca. Um arqueólogo. Depois outro. Um cliente. Um relatório. Uma autorização que não chegou.

Uma coisa que era urgente ontem, outra que será urgentíssima amanhã e uma terceira que, aparentemente, só eu, entre dez milhões de portugueses, tenho capacidade para resolver.
Desligo. Olho em volta. Estou de férias.
Cinco minutos depois, toca novamente o telefone.
Começo a sentir uma inesperada solidariedade por Prometeu.
Prometeu, recordemos, roubou o fogo aos deuses e ofereceu-o aos homens. Zeus, que não era propriamente conhecido pela tolerância perante divergências laborais, resolveu castigá-lo: acorrentou-o a uma montanha e mandou uma águia comer-lhe o fígado todos os dias. O fígado regenerava-se durante a noite. A águia regressava de manhã. Ultimamente, compreendo perfeitamente o mecanismo.
No meu caso não há águia. Há emails. Também regeneram durante a noite.
Quando acordo, estão todos outra vez lá.
E começo a suspeitar de que o verdadeiro castigo de Prometeu não era a águia. Era a repetição.
Resolver. Recomeçar. Resolver. Recomeçar.
É claramente esse o grande paradoxo da vida adulta: passamos a juventude inteira a lutar pela liberdade e, quando finalmente a conquistamos, usamos essa liberdade para construir as nossas próprias correntes.
Eu construí algumas bastante resistentes.
Sou arqueóloga. Tenho uma empresa. Sou professora. Escrevo. Publiquei um livro.
E cada uma destas coisas, de que me orgulho e que escolhi, trouxe consigo uma pequena corrente.
A empresa trouxe clientes, trabalhadores, prazos, relatórios e responsabilidades.
A arqueologia trouxe obras que não esperam, património que não pode esperar e problemas que, curiosamente, parecem desenvolver uma extraordinária capacidade para acontecer quando estou longe.
A escrita, que eu imaginava ser o meu território de liberdade, trouxe contratos, apresentações, divulgação, vendas e a necessidade permanente de tentar. Tentar chegar a leitores. Tentar conseguir apresentações. Tentar que o livro circule. Tentar que alguém repare. Tentar outra vez.
E quando penso que talvez possa pousar tudo durante alguns dias, setembro começa a aparecer ao fundo.
E com ele chega outra corrente.
A escola. Depois de tantos anos a ensinar, aproxima-se novamente aquele extraordinário momento em que um professor pode não saber onde vai trabalhar. Ou se vai trabalhar. Esperamos por listas. Por horários. Por colocações. Por uma espécie de oráculo administrativo que decidirá onde estaremos quando setembro chegar.
Há qualquer coisa de profundamente surreal nisto.
Podemos ter anos de experiência, alunos que passaram pelas nossas salas, reuniões, avaliações, projetos, turmas, pais, problemas resolvidos, sucessos e fracassos acumulados.
E, ainda assim, em agosto, podemos estar sentados diante de um computador a pensar: Onde estarei daqui a quinze dias?
É uma forma muito peculiar de estabilidade profissional.
Talvez por isso, nestes três dias de férias, tenha começado a sentir-me uma espécie de Prometeu moderno.
Agrilhoada não a uma montanha, mas ao telefone. Em vez da águia, as notificações. Em vez do fígado, a paciência. E a minha também parece regenerar-se durante a noite, o que começa a ser francamente inconveniente.
Porque continuo. Atendo. Resolvo. Escrevo. Telefono. Envio. Tento. E talvez seja precisamente aí que esteja o problema.
Há pessoas que sabem desistir. Eu não sei.
Há pessoas capazes de dizer “agora não”. Eu digo “só vou resolver esta última coisa”. Nunca é a última coisa.
Durante muito tempo achei que isto era uma virtude. Hoje já não tenho tanta certeza. Persistência é uma qualidade extraordinária.
Mas existe uma fronteira muito fina entre persistir e passar a vida inteira a empurrar uma pedra montanha acima. Esse era Sísifo, eu sei. Mas a esta altura já tenho mitologia suficiente para dois castigos.
Talvez aquilo que eu procure não seja propriamente deixar esta vida. Não quero deixar de escrever. Não quero deixar de ensinar. Não quero deixar de ser arqueóloga. Não quero deixar de criar coisas, começar projetos, ter ideias e acreditar nelas.
Quero apenas descobrir se é possível fazer tudo isso sem estar permanentemente acorrentada a tudo isso.
Talvez liberdade, aos quarenta mais IVA, já não seja poder fazer tudo aquilo que queremos.
Talvez seja poder desligar o telefone sem sentir culpa.
Poder estar três dias de férias e estar, simplesmente, três dias de férias.
Poder escrever porque queremos escrever e não porque é preciso promover.
Poder ensinar sem passar todos os anos pelo purgatório das colocações.
Poder confiar que, durante algumas horas, o mundo continuará a girar sem a nossa intervenção.
Prometeu acabou por ser libertado. Hércules matou a águia e quebrou-lhe as correntes. Eu não estou à espera de Hércules. Também seria pedir demais.
Mas talvez possa começar por uma coisa bastante menos épica.
Quando este telefone tocar outra vez, vou olhar para ele.
Respirar fundo.
E experimentar não atender.
Só para ver se o mundo acaba.
Depois, digo-vos qualquer coisa.
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