Há conversas que não terminam quando acaba a última mensagem. Ficam dentro de nós, a prolongar perguntas, a abrir caminhos e a revelar sentidos que ainda não tínhamos encontrado.
Depois de ler o editorial «Estamos todos em lista de espera…», a profissional de saúde que, com a sua experiência no Serviço de Oncologia, tinha inspirado aquele texto voltou a escrever-me. Disse que o tinha achado extraordinário, mas confessou também uma inquietação: receara que eu tivesse ficado chateado por ela ter apresentado “o outro lado da moeda” em relação ao editorial anterior, «O enterro da Morte».
Chateado? De forma alguma.
Na verdade, sem aquele outro lado da moeda, o segundo editorial nunca teria existido.
Foi precisamente a sua discordância — ou, talvez melhor, a sua perspetiva diferente — que obrigou a ideia inicial a sair do conforto da imaginação e a confrontar-se com a realidade. Enquanto eu escrevia sobre um hipotético futuro em que a Humanidade poderia enterrar a Morte, ela respondeu a partir de um lugar onde a morte não é uma abstração filosófica. É uma presença concreta, feita de diagnósticos, tratamentos, esperas, esperança, medo, vitórias e despedidas.
Não destruiu a reflexão anterior. Tornou-a maior.
O outro lado da moeda
Vivemos num tempo em que muitas pessoas receiam dizer o que pensam. Não necessariamente porque lhes faltem argumentos, mas porque temem que uma opinião diferente seja entendida como uma provocação, uma afronta ou uma rutura pessoal.
Confundimos demasiadas vezes discordância com hostilidade. Transformamos conversas em combates, opiniões em trincheiras e interlocutores em adversários. Em vez de escutarmos para compreender, esperamos apenas pela oportunidade de responder. Já não procuramos o outro lado da moeda; queremos provar que a nossa face é a única que existe.
Mas uma ideia que não suporta ser contrariada não é uma ideia forte. É apenas uma convicção protegida do mundo.
O pensamento cresce quando encontra resistência. Uma perspetiva diferente pode incomodar-nos, obrigar-nos a rever certezas ou revelar contradições que preferíamos ignorar. Contudo, é precisamente aí que começa uma conversa verdadeira.
Escutar alguém não significa concordar com tudo o que essa pessoa diz. Significa reconhecer que há experiências que não vivemos, dores que não conhecemos e realidades que não conseguimos compreender inteiramente a partir do lugar onde estamos.
Uma profissional que trabalha em oncologia olha inevitavelmente para a vida, para o tempo e para a morte de maneira diferente de quem observa essas questões à distância. Não porque saiba todas as respostas, mas porque convive diariamente com perguntas que muitos de nós conseguimos adiar.
Foi por isso que a frase «Estamos todos em lista de espera» teve tanta força. Não nasceu de um exercício literário. Nasceu da experiência.
E foi também por isso que a conversa não poderia acabar ali.
Olhar para o lado
Ao comentar o editorial, aquela profissional deteve-se especialmente numa passagem: «olhar para quem espera ao nosso lado».
Talvez porque, num hospital, esperar não seja apenas uma metáfora.
Espera-se por uma consulta, por um exame, por um diagnóstico, por um resultado, por um tratamento ou por uma notícia que pode alterar toda uma vida. Nas salas de espera, pessoas desconhecidas sentam-se umas ao lado das outras, cada uma transportando um mundo invisível.
Há quem esconda o medo atrás de um telemóvel. Há quem fale sem parar para evitar o silêncio. Há quem esteja acompanhado e quem atravesse tudo sozinho. Há rostos tranquilos que escondem tempestades e rostos cansados que ainda guardam uma esperança extraordinária.
Estamos fisicamente próximos, mas nem sempre verdadeiramente presentes.
Passamos grande parte da vida a olhar em frente. Para o próximo objetivo, para o próximo compromisso, para o próximo problema, para o lugar que queremos alcançar. Preocupamo-nos com a nossa posição na fila, com o tempo que falta e com a rapidez com que os outros avançam.
Raramente olhamos para o lado.
E, no entanto, é ao nosso lado que estão as pessoas com quem partilhamos a espera. A família, os amigos, os colegas, os vizinhos e até os desconhecidos com quem nos cruzamos durante alguns minutos. Cada um carrega as suas próprias perdas, receios, desejos e batalhas.
Olhar para quem espera ao nosso lado não exige respostas extraordinárias. Por vezes, basta ouvir sem interromper. Estar presente sem tentar resolver. Perguntar sinceramente como alguém está e ter disponibilidade para escutar a resposta.
Não se trata de transformar cada encontro numa grande lição de vida. Trata-se apenas de não atravessar o mundo como se fôssemos os únicos a sentir o peso do tempo.
A atenção é uma das formas mais raras de generosidade. Dar atenção a alguém significa oferecer-lhe uma parte daquilo que nunca poderemos recuperar: o nosso tempo.
O tempo que nos é concedido
A mensagem que recebi trouxe novamente à conversa O Senhor dos Anéis e uma das ideias mais belas da obra de Tolkien: não escolhemos o tempo em que vivemos nem quanto tempo teremos; apenas podemos decidir o que fazer com aquele que nos é concedido.
Talvez seja essa a verdadeira questão.
Gostaríamos de controlar o futuro, prolongar a vida, afastar a doença e escolher o momento de cada despedida. Mas, apesar de todos os avanços da ciência, continuamos a receber o tempo sem conhecer a sua quantidade.
Planeamos como se nos pertencesse. Adiamos como se estivesse garantido. Desperdiçamos como se fosse inesgotável.
O tempo, porém, não nos pertence. É-nos confiado.
E não é apenas nosso. É também daqueles com quem o partilhamos.
O valor de uma vida não se encontra exclusivamente no número de anos que contém. Encontra-se nas relações que constrói, nos cuidados que oferece, nas palavras que deixa e na forma como toca outras vidas.
Podemos viver muito e estar ausentes durante quase todo esse tempo. Podemos acumular conquistas, bens, cargos e reconhecimento, mas passar pela vida sem reparar verdadeiramente em quem caminhou ao nosso lado.
Também podemos ter uma existência mais breve e deixar uma presença tão profunda que continua a viver na memória dos outros.
O tempo não vale apenas pelo que nele conseguimos fazer, mas também por quem nele conseguimos acolher.
É por isso que a finitude não deve conduzir apenas ao medo. Pode conduzir à atenção. A consciência de que o tempo é limitado deveria tornar-nos mais cuidadosos com as palavras, menos disponíveis para ressentimentos inúteis e mais capazes de distinguir o que importa daquilo que apenas faz ruído.
Quantas relações se perdem por orgulho? Quantas conversas ficam adiadas porque ninguém quer dar o primeiro passo? Quantas pessoas vivem lado a lado sem conseguirem realmente encontrar-se?
Temos tempo para discutir, mas não para compreender. Tempo para julgar, mas não para perguntar. Tempo para percorrer interminavelmente as vidas dos outros através de um ecrã, mas não para olhar demoradamente para quem está sentado à nossa frente.
Talvez não precisemos de mais tempo. Talvez precisemos de estar mais presentes naquele que temos.
A espera não é igual para todos
Olhar para quem espera ao nosso lado também não pode ser apenas um gesto sentimental. Implica reconhecer que, embora todos pertençamos à mesma grande lista, nem todos esperamos nas mesmas condições.
Há quem espere por cuidados de saúde com acesso aos melhores profissionais e tratamentos. Há quem aguarde meses por uma consulta, um exame ou uma cirurgia. Há quem possa suspender o trabalho para acompanhar um familiar e quem tenha de escolher entre estar presente e garantir o salário no fim do mês.
Há quem enfrente a doença rodeado de apoio. Há quem a enfrente praticamente sozinho.
A mortalidade pode ser universal, mas a vulnerabilidade não é distribuída de forma justa.
Por isso, olhar para quem espera ao nosso lado significa também recusar a indiferença perante as desigualdades. Não basta oferecer palavras de conforto quando as instituições falham, os cuidados chegam tarde ou alguém é abandonado pela sociedade no momento em que mais precisa.
Cuidar é um gesto individual, mas também uma responsabilidade coletiva.
Uma comunidade mede-se pela forma como trata os que esperam: os doentes, os idosos, as crianças, os desempregados, os que aguardam uma casa, uma decisão judicial, um apoio social ou simplesmente alguém que repare neles.
Nenhum avanço científico nos tornará verdadeiramente melhores se continuarmos incapazes de garantir dignidade a quem partilha connosco este tempo.
Podemos nunca enterrar a Morte. Podemos permanecer para sempre inscritos naquela lista invisível, sem saber quando o nosso nome será chamado.
Mas há uma escolha que continua a pertencer-nos.
Podemos passar a espera concentrados apenas em nós, disputando lugares e acumulando razões para não reparar nos outros. Ou podemos olhar para o lado.
Podemos transformar uma diferença de opinião numa ofensa ou aceitá-la como uma oportunidade para pensar. Podemos afastar-nos de quem nos contradiz ou reconhecer que, por vezes, é justamente essa pessoa que nos ajuda a ver aquilo que nos escapava.
Foi uma perspetiva diferente que deu origem a esta sequência de reflexões. Primeiro, imaginámos o enterro da Morte. Depois, reconhecemos que estamos todos em lista de espera. Agora, resta-nos talvez a pergunta mais humana de todas:
Como tratamos quem espera connosco?
No fim, poderá não ser o tempo a salvar-nos. Serão os gestos que couberam dentro dele, as conversas que nos fizeram crescer e as pessoas que escolheram permanecer ao nosso lado.
Porque o tempo é curto.
E quem o partilha connosco faz toda a diferença.
Leia também: Estamos todos em lista de espera… | Editorial de Henrique Dias Freire















