Antes mesmo de perceber o que aquelas eleições significavam politicamente, vivi um dos episódios mais marcantes e menos conhecidos das presidenciais de 1986. Não aconteceu num palco, nem num estúdio de televisão, mas na Avenida Marginal, num ponto hoje irreconhecÃvel para quem ali passa diariamente. Foi ali, à beira de um comÃcio, que a História nacional e a história da minha famÃlia se cruzaram de forma abrupta.
O acidente ocorreu quando a viatura onde seguiam a minha prima Mizé, mulher de Diogo Freitas do Amaral, e os filhos do casal circulava no sentido Cascais–Lisboa. O objetivo era claro e então perfeitamente normal: cruzar a Marginal para entrar no parque da antiga FIL, em Belém, onde se realizaria um comÃcio da campanha presidencial. Essa manobra, hoje impossÃvel devido à s alterações profundas da circulação rodoviária, era então habitual. No momento da travessia, o carro foi violentamente atingido por outra viatura que vinha de frente.
O estrondo ouviu-se à distância. Eu estava com a minha mãe, à espera de familiares para seguirmos para o comÃcio, quando aquele som seco e brutal interrompeu tudo. Fomos ver o que se passava sem imaginar, por um segundo, o que irÃamos encontrar. Ao aproximarmo-nos, o choque foi imediato: o carro estava destruÃdo, reduzido a um amontoado de metal retorcido, e dentro dele estavam os meus primos e a minha prima Mizé.
A imagem é uma daquelas que ficam para sempre. Ver um automóvel praticamente pronto para a sucata e reconhecer ali pessoas da famÃlia provoca um silêncio interior impossÃvel de descrever. Durante segundos, a campanha, as eleições, os discursos e a própria polÃtica desapareceram. Restou apenas o medo cru de perder quem nos é próximo.
Felizmente, o desfecho foi benigno. Todos saÃram ilesos, apenas com dores no corpo e no pescoço, consequências normais de um impacto daquela violência. O alÃvio foi enorme, mas o choque permaneceu. Quem já chegou a um local de acidente e encontrou ali familiares sabe que, mesmo quando não há mortos, algo se parte para sempre.
Este episódio ocorreu num contexto em que as presidenciais de 1986 eram vividas intensamente. Na escola primária, na quarta classe, as eleições eram discutidas no recreio com a seriedade de um clássico de futebol. Falava-se de candidatos, repetiam-se argumentos ouvidos em casa, tomavam-se partidos com uma convicção absoluta. A democracia portuguesa ainda era jovem e sentia-se no quotidiano, até entre crianças.
Em casa, na Cruz Quebrada, a campanha era uma presença constante. Jornalistas apareciam para entrevistar o meu pai, pela sua relação muito próxima com Diogo Freitas do Amaral, a quem fora ligado desde a infância como um verdadeiro tio. Solteiro, acompanhara-o em brincadeiras e partilhara a paixão pela equitação, um gosto comum que ajudou a consolidar uma ligação pessoal profunda, anterior a qualquer protagonismo polÃtico.
Apesar do acidente, seguimos para o comÃcio. A campanha continuou, como sempre continua. A democracia não parou por causa de um choque na Marginal. Mas ninguém ganhou naquele dia. O susto foi demasiado grande para entusiasmos.
Hoje, como historiador, sei que as presidenciais de 1986 foram decisivas para o rumo polÃtico de Portugal. Mas sei também que a História não se faz apenas de resultados eleitorais e análises institucionais. Faz-se de episódios invisÃveis, como este acidente ocorrido quando um carro tentava cruzar a Marginal para entrar na FIL, num gesto hoje impossÃvel e então banal.
Esse momento lembra-nos que por detrás das grandes campanhas existem famÃlias, crianças e fragilidades. E que, muitas vezes, os episódios mais reveladores de uma época não são os que ficaram nos arquivos, mas os que sobreviveram apenas na memória de quem os viveu.
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