Entre os canais da Ria Formosa e a cidade de Tavira, no Algarve, estendem-se várias salinas que, em determinadas fases da produção, podem apresentar tons cor-de-rosa, avermelhados e alaranjados. A paisagem tem sido comparada nas redes sociais com os grandes cenários salgados da Bolívia, apesar de ficar no Sotavento Algarvio e poder ser observada a poucos minutos do centro da cidade.
A comparação é sobretudo visual. As salinas de Tavira são tanques costeiros destinados à produção de sal, alguns dos quais continuam em funcionamento, não sendo uma formação natural equivalente aos grandes desertos de sal bolivianos.
Uma publicação da página de Instagram @francktravels chamou novamente a atenção para o local, apontando o período entre maio e outubro como aquele em que as cores podem ser observadas e destacando a facilidade dos acessos. Esta indicação deve, contudo, ser entendida como a experiência do autor da publicação e não como um calendário oficial: não há qualquer garantia de que os tanques estejam cor-de-rosa durante todo esse período.
As tonalidades variam consoante o tanque, a concentração de sal, a fase da produção, a abundância dos microrganismos e as condições de luz. Por isso, o aspeto encontrado no dia da visita pode ser bastante diferente daquele que aparece nas fotografias divulgadas nas redes sociais.
Porque apresentam as salinas esta cor?
Os tons rosados das águas muito salgadas estão associados à presença de organismos adaptados a ambientes extremos. A microalga Dunaliella salina pode acumular grandes quantidades de betacaroteno, um pigmento alaranjado, enquanto arqueias halófilas e bactérias como as do género Salinibacter também produzem pigmentos avermelhados.
A literatura científica sobre salinas hipersalinas explica que a combinação destes organismos pode conferir às águas cores entre o rosa, o laranja e o vermelho. A tonalidade não é, portanto, provocada apenas por uma alga nem depende exclusivamente da temperatura. Resulta da composição e da densidade da comunidade microbiana, da salinidade, dos nutrientes, da luz e de outros fatores presentes em cada tanque.
Durante os períodos mais secos, a evaporação pode aumentar a concentração de sal e favorecer o aparecimento de comunidades adaptadas a salinidades muito elevadas. Ainda assim, uma maior concentração de sal não garante, por si só, que a água fique cor-de-rosa.
Por esse motivo, nem todos os tanques apresentam a mesma aparência. Enquanto alguns podem estar rosados ou avermelhados, outros permanecem azulados, esverdeados, acastanhados ou praticamente secos. O aspeto também muda ao longo do dia, uma vez que a posição do Sol, os reflexos e a nebulosidade influenciam a forma como as cores são observadas e fotografadas.
As salinas integram a paisagem do Parque Natural da Ria Formosa, uma área protegida composta por sapais, canais, ilhas-barreira, lagoas e outras zonas húmidas. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a diversidade destes habitats torna a Ria Formosa uma das áreas mais importantes do país para as aves migratórias, sobretudo para as limícolas.
O próprio Plano de Ordenamento do Parque Natural da Ria Formosa, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 78/2009, identifica as salinas como locais importantes para a reprodução, alimentação e descanso de várias espécies de aves. A Câmara Municipal de Tavira destaca, por exemplo, a presença do perna-longa nas salinas junto às Quatro Águas.
Como chegar às salinas de Tavira?
Uma das formas mais simples de observar esta paisagem é seguir do centro de Tavira em direção ao cais das Quatro Águas, de onde partem barcos para a Ilha de Tavira. O cais fica a cerca de dois quilómetros da cidade e dispõe de estacionamento gratuito e pago, de acordo com a informação turística oficial do Algarve e do Município.
A Câmara Municipal de Tavira refere que o percurso até às Quatro Águas permite observar o rio Gilão, a frota de pesca artesanal e as extensas salinas. O Turismo de Portugal acrescenta que, ao longo da estrada de acesso ao cais, podem ser vistas salinas ativas em diferentes fases da extração do sal.
De automóvel, basta seguir as indicações para as Quatro Águas ou procurar “Cais das Quatro Águas” no sistema de navegação. Não é necessário entrar nas explorações para observar parte dos tanques, uma vez que vários são visíveis a partir da estrada e das zonas públicas do percurso.
A distância também permite fazer o trajeto a pé ou de bicicleta. Quem escolher estas opções deve, contudo, ter em atenção o trânsito, o calor e a reduzida presença de sombra, sobretudo durante as horas mais quentes do verão.
Também há visitas junto ao Tavira Gran Plaza
Outra zona de salinas tradicionais encontra-se nas proximidades do centro comercial Tavira Gran Plaza. É neste local que o Centro Ciência Viva de Tavira organiza a atividade “Sal e salinas”, em colaboração com a empresa Tavisal.
Segundo a Ciência Viva, a iniciativa permite entrar numa salina tradicional em funcionamento, conhecer o processo de produção e compreender a importância histórica desta atividade no Algarve. Em 2026, a visita foi anunciada como gratuita, mediante inscrição, com um percurso a pé de cerca de 300 metros e uma duração aproximada de uma hora e meia.
À data de 6 de agosto, a plataforma da Ciência Viva apresentava duas sessões ainda previstas para este ano: 11 de agosto e 4 de setembro, ambas às 17:00. A disponibilidade pode mudar à medida que as inscrições forem sendo efetuadas.
Para chegar ao ponto de encontro, a organização indica que se deve seguir em direção ao Tavira Gran Plaza, contornar a rotunda nas imediações e estacionar no parque de terra batida em frente ao centro comercial. O local exato e as restantes instruções devem ser confirmados na ficha da atividade no momento da inscrição.
Observar é gratuito, mas as salinas não são de livre acesso
A observação das salinas a partir das estradas e zonas públicas não implica o pagamento de qualquer entrada. Isso não significa, porém, que seja permitido atravessar os terrenos, caminhar sobre os cômoros ou aproximar-se livremente dos tanques.
Muitas das salinas continuam em funcionamento e o acesso ao interior das explorações pode depender de autorização ou de uma visita organizada. Em maio de 2026, por exemplo, o Museu Municipal de Tavira promoveu uma visita às Salinas dos Herdeiros de Rui Simeão com inscrição obrigatória e pagamento diretamente ao produtor.
O Plano de Ordenamento do Parque Natural da Ria Formosa também condiciona a circulação de veículos motorizados nos cômoros dos tanques aos meios necessários à exploração e aos que estejam devidamente autorizados. A proteção das aves e das zonas de nidificação deve igualmente ser respeitada.
Os visitantes devem, por isso, permanecer nas estradas e nos caminhos públicos, respeitar vedações, sinalização e indicações dos trabalhadores e evitar qualquer comportamento que possa perturbar as aves. Os cômoros e taludes fazem parte das estruturas de produção, podendo ser estreitos, irregulares ou inadequados à circulação de visitantes.
Qual é a melhor altura para visitar?
A publicação da página @francktravels aponta os meses entre maio e outubro como os mais favoráveis para encontrar as cores rosadas. Os meses quentes e secos coincidem com maior evaporação e com a atividade de produção de sal, o que pode contribuir para o aumento da salinidade em determinados tanques.
Não existe, contudo, uma época oficial que garanta a cor. Mesmo no verão, alguns tanques podem estar azuis, verdes, vazios ou cobertos por sal, enquanto outros apresentam tonalidades mais próximas das imagens divulgadas nas redes sociais.
O início da manhã e o final da tarde oferecem geralmente temperaturas mais suportáveis e uma luz menos intensa para fotografar. A incidência da luz pode alterar bastante a cor aparente da água, pelo que o resultado das fotografias depende também da hora, da posição do observador e das condições atmosféricas.
Quem fizer o percurso a pé deve levar água, chapéu, protetor solar, calçado confortável e evitar as horas de maior calor. Mesmo que as águas não apresentem os tons vistos nas redes sociais, o trajeto permite observar uma das paisagens mais características de Tavira, onde a produção tradicional de sal, a Ria Formosa e a presença de aves se encontram junto às portas da cidade.
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