Na Europa, diversos estudos indicam que os homens têm uma taxa de mortalidade por suicídio duas a três vezes superior à das mulheres, embora estas registem mais tentativas. Esta aparente contradição poderá estar relacionada com a natureza dos métodos escolhidos, sendo que os homens recorrem com maior frequência a meios mais letais.
Um dos principais desafios é que os homens tendem a partilhar menos os seus pensamentos suicidas com os profissionais de saúde, o que faz com que a evolução dessas ideias para atos concretos possa passar despercebida, dificultando uma intervenção atempada.
O pensamento e o comportamento suicida resultam de processos complexos e não lineares, que variam de forma imprevisível e rápida. Por isso, fatores de risco clássicos, como a depressão, ideação suicida ou tentativas anteriores, têm um poder preditivo limitado para futuros suicídios.

Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Em contraste, as normas sociais e crenças associadas à masculinidade tradicional podem oferecer uma perspetiva alternativa ou complementar para compreender o elevado risco masculino.
As ideologias de masculinidade tradicional enfatizam a importância de crenças e pensamentos de autossuficiência, controle emocional e negação de vulnerabilidades.
As normas tradicionais de género masculino são crenças sociais e culturais sobre como um homem típico deve ser e agir. Essa visão típica de masculinidade retrata o homem como fisicamente forte, emocionalmente controlado e invulnerável.

Psicóloga e vogal da Direção Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Esta dinâmica cria um contraste entre a pressão para parecer forte e a experiência real de sintomas depressivos, como tristeza ou baixa autoestima. Homens frequentemente mascaram esses sintomas através de comportamentos externos como raiva, abuso de substâncias ou sintomas físicos, que podem aumentar o risco de suicídio e são muitas vezes não reconhecidos por diagnósticos convencionais.
Além disso, pedir ajuda é frequentemente percebido como uma perda de estatuto e exposição da vulnerabilidade, o que leva homens a evitar procurar apoio psicológico. Estudos indicam que essas normas rígidas estão associadas a um aumento significativo do risco de ideação e comportamento suicida, com homens conformes a essas normas apresentando maior probabilidade de morrer por suicídio e menor probabilidade de revelar pensamentos suicidas. Em ambientes que reforçam a necessidade de conformidade a essas normas restritivas, alguns homens podem ver o suicídio como a única saída viável para o sofrimento psicológico, encarando-o inclusive como um ato de coragem para retomar controlo sobre sentimentos de aprisionamento.
O Movember, movimento internacional cuja expressão em Portugal tem crescido, tem um papel fundamental na sensibilização para a saúde mental masculina e para a prevenção do suicídio. No mês de novembro, este movimento incentiva os homens a deixar crescer o bigode como símbolo de solidariedade e de compromisso com a sensibilização e prevenção.
Neste mês desafiamos a noção de que os homens devem ser invulneráveis e promovemos a importância de expressar emoções e procurar ajuda. O Movember contribui para a desconstrução do estigma e para a promoção do apoio psicológico.
Por fim, é crucial que a sociedade adopte uma nova perspetiva sobre a masculinidade, combatendo os estereótipos e promovendo ambientes onde os homens se sintam seguros para expressar emoções, procurar apoio psicológico e cuidar da sua saúde mental. A publicação de campanhas como o Movember, apoiadas por políticas públicas e ações comunitárias, representam passos essenciais para prevenir suicídios e salvar vidas, reforçando que mostrar vulnerabilidade é um ato de coragem e uma expressão de verdadeira força.
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