Há imagens que se colam à pele como se tivessem acontecido connosco: não estivemos lá, não ouvimos o grito, mas estremecemos. O olhar perdido de uma criança, a rua vazia depois da explosão, o rosto inundado em lágrimas repetido em loop. A morte em direto, os sons, os gritos, as frases, o choro, o olhar. Não estivemos lá! Mas chega em direto, em alta-definição, atravessa oceanos e aterra nos nossos olhos através de um simples ecrã.
A imagem chega intacta, nítida, vibrante, como se estivéssemos no próprio local, a sentir o som e o pulsar do momento.
Algo em nós se agita. São pessoas que ali estão, é real, não é um filme. São imagens que nos atravessam como se nos pertencessem. A violência, o medo, a raiva, os horrores entram em nossas casas sem pedir licença — pelo telemóvel, pelo computador, pela televisão. E, mesmo à distância, deixam marcas.

Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
A psicologia e a neurociência têm alertado que estas imagens não são neutras. Ao assistirmos repetidamente a narrativas violentas, a amígdala dispara como se houvesse perigo real, o hipocampo grava cada detalhe com nitidez e o córtex pré-frontal, que deveria regular e contextualizar, fica sobrecarregado. O corpo, por vezes, reage como se tivesse vivido a experiência. É aqui que falamos de trauma terciário: não aquele que nos atinge diretamente, nem o que herdamos de quem amamos, mas o que chega através dos média, infiltrando-se pela repetição incessante de imagens. A ferida que não é nossa, mas que se inscreve em nós. É o trauma do que vimos — amplificado pelos ecrãs. É este o paradoxo do nosso tempo: nunca estivemos tão informados e nunca estivemos tão expostos à dor do mundo.
As consequências atravessam gerações.
Nas crianças, a violência mediática alimenta insegurança, medos difusos, dificulta a regulação emocional e pode reforçar condutas agressivas, promovendo a dessensibilização ou desconfiança à medida que crescem.
Nos adultos, muitos desenvolvem sintomas ansiosos e depressivos ligados à saturação noticiosa; noutros, instala-se um efeito cumulativo, com risco de banalização: a dor do outro torna-se ruído, a empatia esmorece.

Psicóloga e vogal da Direção Regional do Sul da Ordem dos
Nos idosos, muitas vezes sozinhos diante da televisão, a informação aumenta a ansiedade. O medo da rua intensifica-se, e a violência que entra pela sala de estar reforça a solidão, fragilizando a saúde mental.
Perante esta situação, o que fazer?
Não podemos desligar o mundo, mas podemos cuidar do modo como ele entra em nós e nas nossas vidas. O jornalismo tem de informar. Mas a nossa empatia e humanidade não podem deixar de existir. Proteger o olhar não é virar as costas ao sofrimento: é garantir que continuamos capazes de nos comover.
O direito à informação é um dos pilares da vida coletiva. Sem ele, ficamos cegos diante das guerras, das injustiças, da dor do mundo. Mas esse direito traz sempre consigo uma pergunta urgente: a que preço? Porque informar não é inocente. Cada imagem pode denunciar uma injustiça, mas também ferir quem a vê. É neste espaço frágil que se instala o dilema ético: contar ou explorar? alertar ou chocar?
Os média vivem este paradoxo todos os dias. Mostrar ou proteger? Repetir até prender atenções ou contextualizar para esclarecer? O choque aumenta audiências, mas fragiliza a saúde coletiva. O jornalismo deve resistir à tentação da espetacularização, oferecendo contexto, clareza e espaço para narrativas de reconstrução.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses tem sido clara: informar exige responsabilidade. Evitar a repetição incessante de imagens violentas, sobretudo em horários em que crianças possam estar expostas. Usar linguagem simples, factual, sem dramatizações nem alarmismo. Humanizar as histórias, dar rosto às pessoas sem reduzi-las a números ou estereótipos. Explicar em vez de repetir. Contextualizar em vez de chocar.
Proteger o olhar não é censura. É cuidado. É reconhecer que, diante da violência, precisamos continuar a sentir. Porque é no sentir que nasce a solidariedade. É no cuidado que se constrói a verdadeira resposta à dor.
O trauma mediático não é invenção académica: é uma realidade inscrita no corpo. A ciência confirma que o cérebro reage às imagens de violência como se tivesse vivido a experiência. Mas talvez o maior perigo não seja apenas o trauma invisível — é a banalização. Quando o horror se repete em loop, o coração habitua-se. A empatia seca. A dor do outro transforma-se em ruído de fundo. E é nesse momento que perdemos um pedaço da nossa humanidade.
O que fazer, então? Não podemos desligar o mundo. Mas podemos aprender a proteger o olhar. Escolher quando e como vemos notícias. Traduzir o medo das crianças em palavras seguras. Acompanhar os mais velhos, diversificar os seus ecrãs, não deixar que a solidão seja feita apenas de tragédias. Reconhecer em nós sinais de ansiedade, insónia, medo persistente — não como fraqueza, mas como pedido de cuidado.
A OPP aponta caminhos claros: educação mediática, para ensinar desde cedo a distinguir relato de espetáculo; regulamentação ética, com limites claros para imagens gráficas, avisos prévios e horários de transmissão; intervenção psicológica, para apoiar crianças, idosos e profissionais expostos ao sofrimento; jornalismo construtivo, que mostre também gestos de resiliência e solidariedade; saúde digital, que ajude a regular emoções antes de regular algoritmos; e uma arquitetura das plataformas mais transparente, que evite loops infinitos de repetição.
O jornalismo tem de denunciar. A sociedade tem de cuidar. E nós, espectadores, precisamos de não desistir da empatia. Proteger o olhar não é virar as costas: é garantir que ainda sentimos. É manter viva a capacidade de comover-nos. Transformar o choque em solidariedade, a violência em cuidado, a dor em ação.
As cicatrizes do trauma mediático podem ser inevitáveis. Mas a sua banalização não precisa de ser. Resistir, hoje, é escolher todos os dias não nos tornarmos indiferentes. É cultivar a empatia — sem anestesia, sem indiferença, sem medo de cuidar.
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