A introdução precoce de tablets, telemóveis e jogos interativos não deixa espaço para um desenvolvimento infantil saudável. Quando olhamos para uma criança de dois anos a exercitar o cérebro num ecrã, devemos perceber que ela perdeu espaço para brincar, para exercitar os seus conhecimentos, para aprender a relacionar-se com o mundo. Perdeu a noção do que são relações humanas saudáveis; perdeu a oportunidade de ultrapassar os seus medos, de mostrar as suas alegrias, ficando passivamente a carregar em pequenos ícones que saltam, brincam, penteiam bonecas, colocam enfeites… com um simples toque, sem prestar atenção ao momento, ao que está à sua volta, absorvida pelo interesse no ecrã.
Onde fica o encaixar das peças? Os pequenos jogos de polícias e ladrões, de bombeiros? O fazer
bolinhos de areia, o saltar à corda? Onde é que o desenvolvimento físico e cognitivo se encontra
com o mundo real, sem se entrelaçar numa realidade paralela, onde a frustração é mínima e não há lugar para a brincadeira a pares, para andar de bicicleta, para desenvolver a aptidão física e intelectual, para saber o que é cair e levantar-se, para chorar, rir, dançar, cantar, sentir o calor do sol, saltar nas poças da chuva, molhar as botas de água, pregar partidas à avó, correr pelos montes, picar-se nas urtigas e sentir o colinho de umas mãos quentes — sempre dispostas a proteger — até este pequeno ser aprender a proteger-se sozinho?
Onde ficam os jogos de faz-de-conta? O construir cabanas? O fingir que se cozinha com folhas secas?
Onde está o contacto com o mundo real — aquele que incentiva a curiosidade, a fala, os sonhos, o descobrir, o ultrapassar de desafios e frustrações, o que aguça a paciência, a criatividade, o ultrapassar da dor, o rir, o brincar e o ser… um ser livre e feliz, inserido na sociedade e no mundo?
Que sociedade teremos no futuro? Quantas coisas ficarão perdidas? Será que estas crianças, futuros adolescentes e adultos saberão refletir, empatizar, esperar, sentir, cuidar de uma casa, educar um filho, ter um verdadeiro amigo, trabalhar em equipa, respeitar as regras de uma sociedade ou expressar-se nos sentimentos mais simples da vida?
De facto, as crianças junto aos ecrãs choram menos, chateiam menos… mas onde fica tudo o resto?
As aprendizagens feitas nesta etapa da vida são a base de toda a estrutura do ser humano — a raiz da árvore — que, quando bem nutrida, dá lugar a um ser magnífico, seguro e saudável, sem medos, criativo, equilibrado, em harmonia consigo mesmo e com o mundo, capaz de se adaptar às circunstâncias mais diversas.
As aprendizagens feitas na infância são as raízes de tudo o que virá: vínculos seguros, inteligência
emocional, criatividade, confiança.
Quando essas raízes são frágeis, cresce um ser inseguro, dependente de estímulos artificiais, pouco
preparado para a vida real — onde as emoções não têm botão de “silenciar”.
Será necessário regressar às origens tradicionais da educação? Será que a infância dos pais se
compara à dos seus filhos? Será o mundo o mesmo?
Estas e outras reflexões cabem a cada um de nós responder, sabemos que vivemos num mundo de
mudanças aceleradas, com muitos desafios e demandas e é exatamente por esse motivo que é tão
importante ter atenção ao desenvolvimento das nossas crianças para que seja equilibrado e
saudável, com cada coisa no seu lugar, no tempo e momento certo, sem excessos.
Os pais devem dispensar tempo de qualidade aos seus filhos, oferecendo-se como modelos de
identificação, mostrando-lhes o mundo através dos seus próprios olhos, até que estes pequenos
seres sejam capazes de desenvolver o seu próprio pensamento. As crianças necessitam de tempo, de
pais presentes, de correr, brincar e de se descobrirem no mundo real que as rodeia.
É impensável observar um passeio domingueiro de uma família em que ninguém interage, ninguém
fala, ninguém ri. Sentam-se numa esplanada onde ninguém observa nada, a não ser um pequeno
ecrã à sua frente. Que histórias terão eles para contar no futuro sobre os seus passeios de infância?
É impensável pensar que uma família não come junta, sentada à sua mesa. Que a comida é dada
num tabuleiro, no sofá ou num quarto à parte, com um ecrã à frente, sem a alegria das conversas,
da partilha e das brincadeiras, tão importantes para o desenvolvimento infantil. Onde ficou o
caminhar na praia, esperar pela hora do gelado, o almoço de domingo com a família reunida?
Estas ausências no crescimento físico, social e cognitivo levantam receios, inseguranças internas, dificuldades relacionais, dificuldades na adaptação a novas situações. Levam a um aumento da falta de empatia, da incompreensão e à dependência dos ecrãs como os amigos que estão sempre ali sem estarem. E mais tarde manifestam-se em inadaptação e problemas ao nível da saúde mental. Afinal, o mundo digital, o mundo dos ecrãs pode ser fascinante, mas também é irreal, imediatista e solitário.
As crianças não podem ser educadas por ecrãs. Precisam de estimulação positiva, regras, limites, amor de qualidade e tempo de qualidade. Cada vez mais os pais devem estar alertas para os riscos que os seus filhos correm, pois, este tipo de estimulação precoce retira lugar a toda uma série de aprendizagens necessárias na infância, com vista a um crescimento saudável. Existem momentos chave no desenvolvimento infantil os quais carecem do nosso amor, da nossa paciência, da devida estimulação, cuidado e educação. Não são os “écrans” que vão ensinar as nossas crianças a amar, a cuidar, a cair e recomeçar – Somos nós.
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