Falar do corpo do outro ou olhar para si mesmo como alguém que não é perfeito – isso é “body shaming”!
“Body Shaming” é uma agressão que envolve criticar ou humilhar alguém através de comentários negativos e depreciativos acerca do corpo ou aparência física (tamanho, forma, características ou forma de vestir). Pode acontecer presencialmente ou online, sendo a critica dirigida a outra pessoa ou a nós próprios/as.
Mas será que, por sermos altos, baixos, gordos ou magros, somos menos do que os outros? Será que existem padrões incutidos desde a infância acerca do que é ter um corpo perfeito? Será que devemos proibir ou comentar o que os outros comem, vestem, ou ainda a forma como se apresentam, com base nas nossas próprias imagens ou ideais de beleza? Será que nos devemos comparar com os outros, sem respeitar as nossas próprias diferenças?
O “body shaming”, ou vergonha corporal, nasce desse olhar crítico, moldado por uma sociedade que impõe padrões adulterados e inalcançáveis de beleza.
Na infância, em que nos regulamos pelos nossos modelos de identificação, muitos de nós absorvemos padrões e ensinamentos que nos fazem acreditar que certos corpos são “perfeitos”, enquanto outros devem ser transformados ou moldados até caberem num padrão que nunca foi feito para todos. E assim, ao longo da vida, carregamos uma falta de aceitação de nós próprios,
Somos muitas vezes ensinados a olhar para o espelho com olhos de julgamento – todos queremos ser mais bonitos, aceites, amados e acarinhados. Esta insatisfação silenciosa, se não for devidamente travada com autocompaixão, cresce com o tempo, como uma erva daninha que mina o ser. O “body shaming” instala-se no pensamento, nas palavras, nos olhares, ecoando e afetando a forma como nos vemos e nos relacionamos com o mundo, achando que poderíamos ser muito melhores e “mais perfeitos”. Por vezes, denota-se numa constante critica com o que nós ou os outros comem, fazem ou deveriam fazer para melhorar a imagem.
Devemos explorar as raízes deste fenómeno e os impactos psicológicos e sociais que ele causa, apontando caminhos para um olhar mais compassivo e inclusivo.
Em Portugal estima-se que a exposição a ecrãs é, em média, de duas horas e meia para crianças e jovens em desenvolvimento. Tempo excessivo, especialmente sem supervisão critica, e que pode ter consequências negativas ao nível do desenvolvimento da linguagem e da visão, do expressar e regular de emoções e comprometer a motricidade (coordenação motora). Muitas vezes, estão expostos exposição a conteúdos desadequados violentos, impróprios, promovendo o desenvolvimento de uma imagem distorcida do que é ser humano, com consequências no desenvolvimento que podem desencadear insatisfação corporal, desordens alimentares ansiedade, bem como outros problemas ao nível da saúde mental.
O tempo excessivo de exposição aos ecrãs em detrimento da realização de outras tarefas, e a diminuição da interação com adultos e pares, bem como a constante comparação com imagens idealizadas (utilização de filtros) e a pressão para se conformar a padrões de beleza, de uma cultura globalizada, pode levar a uma perceção distorcida do corpo e a comportamentos alimentares prejudiciais, que se ampliam quando entramos no âmbito das redes sociais.
Para os jovens a adolescentes no seu período de metamorfose, de descobertas, incertezas e inseguranças, pode tornar-se, para aqueles que não se encaixam nos modelos estabelecidos, uma tortura, sendo o espelho e a opinião dos outros uma sentença. Nas escolas ou nas redes sociais, os comentários podem ser devastadores para os adolescentes e afetar a sua imagem, autoestima e autoconfiança. Muitas vezes perpetuando-se na vida adulta, o “body shaming” pode ter um impacto devastador nesta fase, sendo amplificado pelas redes sociais, onde o “cyberbullying“ perpetua comparações nocivas e críticas destrutivas.
Já na vida adulta, a vergonha corporal manifesta-se de formas mais subtis, influenciando relações, oportunidades profissionais e a perceção do próprio valor. O mercado de trabalho ainda impõe padrões estéticos, favorecendo determinados perfis, enquanto o envelhecimento, sobretudo para as mulheres, é encarado como uma ameaça ao reconhecimento social. A idealização da beleza, reforçada pela cultura digital, cria um ciclo contínuo de insatisfação e autocrítica.
É importante ensinar desde cedo a lidar com comentários depreciativos. A autoestima começa nos nossos pensamentos e sentimentos, não no espelho, não na opinião dos outros. É importante saber e ensinar a valorizar a nós próprios, enquanto pessoas, enquanto seres humanos, não apenas na definição do corpo.
Pais, escolas e educadores devem promover a aceitação da diversidade corporal, incentivar a autoestima, o respeito e o amor a si mesmo e aos outros. É essencial promover a utilização das redes sociais com um olhar crítico. A desconstrução começa com a educação emocional e o incentivo à aceitação da própria imagem e à rejeição de padrões rígidos de beleza. O combate ao “body shaming” é essencial.
Fazer “body shaming” não é aceitável – nem em público, nem em privado, seja por mensagem ou nas redes sociais. E mesmo quando familiares ou amigos nos dizem que é feito de “forma bem-intencionada”, ninguém merece ouvir comentários negativos sobre a sua aparência.
A verdadeira beleza está na diversidade dos corpos e na liberdade de sermos quem somos, sem julgar e sem medo do julgamento alheio, sabendo amar o nosso corpo e a nossa alegria de viver.
Um psicólogo pode ajudar nesta mudança, a psicoterapia pode ser uma ferramenta valiosa nesse processo, ajudando a desenvolver a autoaceitação, compreender as emoções e criar estratégias para lidar com a pressão social. Podemos construir uma sociedade mais inclusiva e saudável, onde a alegria de viver não seja restringida por padrões estéticos opressivos.
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