Alguns líderes políticos, uns por manifesta inexperiência, outros por puro cálculo eleitoral, insistem na sedutora ideia de baixar a idade da reforma, como se os problemas estruturais de um País se resolvessem com slogans de campanha, frases emocionalmente calibradas e indignações de ocasião para consumo rápido nas redes sociais.
Falta-lhes, porém, aquilo que nunca se aprende em comícios, assessorias de imagem ou gabinetes partidários, o conhecimento do tecido laboral, sensibilidade social e contacto real com a vida concreta de quem trabalha há décadas, muitas vezes em silêncio, sem palco, sem privilégios e sem direito a discursos inflamados.
Vivemos uma época sociologicamente curiosa e politicamente decadente, quanto menos um político conhece o mundo do trabalho, mais convicção demonstra ao falar sobre ele.
É quase uma lei das democracias fatigadas.
A ignorância tornou-se audácia, a superficialidade passou a virtude pública.
Multiplicam-se os populistas de ocasião, especialistas em indignação performativa, virtuosos do palavreado inflamado e da promessa fácil, mas profundamente incapazes de compreender a complexidade humana, económica, psicológica e civilizacional do envelhecimento laboral.
Porque o trabalho não é apenas rendimento.
É também identidade, disciplina, integração no meio social, responsabilidade intergeracional e participação coletiva.
Uma sociedade que transforma o trabalho numa espécie de castigo moral acabará inevitavelmente por glorificar a dependência, a mediocridade produtiva e a infantilização política dos cidadãos.
E depois há o ritual habitual.
Os acólitos aplaudem.
Rasgam as vestes em defesa do “grande líder”. Repetem palavras de ordem com fervor quase religioso.
A crítica desaparece, substituída pelo culto da personalidade e pela emoção tribal.
Nada de novo.
As pequenas mediocridades políticas sempre sonharam com grandes coreografias de obediência.
É um fenómeno antigo, estudado pela psicologia das massas desde Gustave Le Bon até Orwell, quanto mais frágil é intelectualmente o líder, maior a necessidade de fabricar devoção coletiva.
Mas há aqui uma ironia particularmente portuguesa e profundamente perigosa.
Nunca se viveu tanto tempo.
Nunca a esperança média de vida aumentou de forma tão significativa.
Nunca existiram tantas condições tecnológicas para produzir riqueza, conhecimento e eficiência.
E, ainda assim, o debate político parece obcecado em trabalhar menos, reformar mais cedo, aumentar feriados, multiplicar tolerâncias de ponto e transformar o lazer num novo dogma civilizacional.
Como se um País pudesse prosperar descansando mais do que produz. Como se a riqueza surgisse espontaneamente da retórica parlamentar, das conferências motivacionais sobre direitos adquiridos ou das manifestações emocionais de sindicalismo performativo.
Entretanto, os países que realmente criam riqueza investem em produtividade, inovação, qualificação e responsabilidade coletiva.
Os outros entretêm-se a discutir como dividir aquilo que ainda não produziram.
A verdade inconveniente é esta, nenhum País se desenvolve de forma sustentável alimentando uma cultura permanente de desresponsabilização laboral.
Não existe Estado Social robusto sem economia forte.
Não existe distribuição séria de riqueza sem criação prévia de riqueza. E não existe dignidade social quando a política transforma o cidadão produtivo numa espécie de culpado civilizacional.
Mas o problema não está apenas na idade da reforma.
Está sobretudo na qualidade do trabalho, nas condições indignas, na precariedade estrutural, nos salários insuficientes e no desprezo silencioso por quem envelhece a trabalhar.
Porque muitos reformam-se… para continuar a trabalhar.
E frequentemente em piores condições, com menos estabilidade, menos direitos e mais humilhação.
Reformam-se oficialmente, mas permanecem economicamente condenados à atividade.
Uma espécie de ficção estatística muito útil aos governos, o cidadão sai das contas da população ativa, mas continua preso à necessidade de sobreviver. Talvez por isso me custe ouvir certas proclamações políticas embaladas em moralismo social e paternalismo ideológico.
Comecei a trabalhar cedo, demasiado cedo talvez, e continuo por cá, firme e horto, embora perigosamente politicamente incorreto para os padrões desta era de indignações seletivas, virtudes encenadas e sensibilidades instantâneas.
E talvez seja precisamente essa a diferença.
Há quem fale do trabalho a partir de teorias.
Outros falam dele a partir dos ossos.
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