O Verão em Portugal promete ser quente. Não apenas pelas temperaturas abrasadoras ou pelos incêndios do costume, mas sobretudo pela combustão política e social que começa a ganhar forma nos bastidores do regime.
A greve geral anunciada pela CGTP-IN poderá transformar-se num movimento de contestação mais vasto, arrastando sindicatos independentes e até sectores da própria UGT, historicamente mais domesticada pelos equilíbrios do poder partidário.
Tudo dependerá do destino da chamada reforma da Lei do Trabalho.
E é precisamente aí que começa o verdadeiro problema do Governo.
A AD parece desconfortável com as suas próprias propostas.
Como tantas vezes sucede na política portuguesa, governa-se primeiro para Bruxelas, depois para os grupos económicos e só no fim, quando sobra tempo, para o País real.
A Ministra do Trabalho, Palma Ramalho, insiste que a reforma laboral é indispensável para a competitividade e para o desenvolvimento económico.
A teoria é bonita.
O problema começa quando a realidade social entra pela porta dentro.
Porque o País que vive de salários baixos, precariedade elegante e emigração qualificada já não acredita facilmente na narrativa do “sacrifício necessário”.
Portugal tornou-se um estranho laboratório sociológico onde se exige produtividade nórdica com salários balcânicos e onde se fala de modernização enquanto milhares de jovens adultos continuam condenados a viver em casa dos pais.
Até dentro do aparelho de Estado e do próprio PSD os apoios parecem curtos, tímidos e pouco convictos.
A ala social-democrata da UGT, nos corredores do poder político, aparenta compreender a necessidade da reforma.
Mas quando desce aos corredores sindicais e sente o pulsar do descontentamento social, o discurso muda rapidamente: talvez seja melhor deixar cair tudo isto antes que a rua aqueça demasiado.
No fundo, ninguém quer assumir o custo político de parecer demasiado próximo do patronato num momento em que a classe média se dissolve lentamente entre impostos altos, crédito caro e serviços públicos degradados.
E se no plano sindical o cenário já é complexo, no tabuleiro partidário o ambiente aproxima-se mais de uma peça de teatro tragicómica do que de uma democracia funcional.
O PS vacila entre dois instintos contraditórios, cálculo prudente de quem pensa que ainda é cedo para derrubar o Governo e a tentação quase biológica de regressar ao poder o mais depressa possível.
Afinal, em Portugal, perder eleições raramente significa perder influência, significa apenas aguardar a próxima oportunidade de reciclagem governativa.
O Chega, por sua vez, vive o dilema típico dos partidos de protesto, perceber se continua em crescimento ou se já começou o lento processo de normalização que antecede o desgaste.
Entre a erupção e a erosão, André Ventura sabe que há um risco mortal para qualquer força populista, o de se tornarem previsíveis.
E no meio de tudo isto surge o Presidente António José Seguro, figura improvável de estabilidade num sistema cada vez mais fragmentado e emocionalmente fatigado.
Seguro observa, mede temperaturas e tenta perceber se deve manter a pose institucional de árbitro distante ou se acabará inevitavelmente por dar uma ajuda, subtil ou musculada, ao espaço político de onde veio.
O dilema talvez já nem seja um dilema.
Talvez seja um trilema nacional, um Governo fragilizado, uma oposição ansiosa e um eleitorado cada vez mais descrente.
Porque o problema português já não é apenas económico ou político.
É psicológico.
O País vive num estado de exaustão silenciosa.
As pessoas trabalham mais, acreditam menos e esperam quase nada.
E quando uma sociedade perde a expectativa de futuro, começa inevitavelmente a procurar culpados, salvadores ou rupturas.
É por isso que teremos um Verão quente e um Outono potencialmente tórrido.
A hipótese de queda do Governo e de eleições antecipadas deixou de pertencer apenas ao domínio da especulação jornalística para entrar no campo das possibilidades reais.
Claro que a política não é uma ciência exacta.
É antes uma mistura imperfeita de ambição, medo, oportunismo e circunstância histórica.
E eu admito, gosto de extrapolar tendências, antecipar movimentos e pensar fora da caixa.
Ou, dito de outra forma, tenho o defeito, ou a virtude, de continuar politicamente (in)correto.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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