Na celebração dos 80 anos da ONU, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, discursou em inglês. Não por imperativo técnico, não por ausência de tradutores, mas por escolha deliberada — e, dir-se-ia, ideológica. Porque há gestos que, embora envoltos em cortesia diplomática, revelam uma profunda renúncia simbólica. E este foi um deles.
Marcelo não se limitou a falar noutra língua. Falou contra a sua. Contra a língua que o formou, que o pensou, que o elegeu. Contra o português, que é mais do que um código de comunicação — é uma afirmação de soberania, de cultura, de existência. Ao discursar em inglês, Marcelo não internacionalizou Portugal. Desnacionalizou-o.
A escolha do inglês, num momento de celebração institucional, é um sintoma de um mal maior: o complexo de inferioridade lusitano, essa doença crónica que nos leva a acreditar que só somos relevantes se nos traduzirmos. Que só somos modernos se nos calarmos em português. Que só somos ouvidos se falarmos com o sotaque dos outros.

Jurista
Marcelo Rebelo de Sousa, ao discursar em inglês na ONU, não internacionalizou Portugal. Internacionalizou a nossa vergonha!
Marcelo, que nunca perde uma oportunidade de se mostrar, perdeu aqui a oportunidade de representar. Representar um país que tem uma das línguas mais faladas do mundo. Que tem uma literatura que atravessou séculos. Que tem uma história que não precisa de tradução para ser universal. Mas o Presidente preferiu o inglês. Como quem pede desculpa por ser português.
Este gesto não é inocente. É político. E revela uma visão de Portugal como país menor, periférico, decorativo. Um país que não se atreve a falar com voz própria, mas que se contenta em ser figurante no palco das nações. Marcelo discursou como quem pede licença para existir. E isso, num Presidente da República, é lamentável.
A ONU, instituição que nasceu para dar voz aos povos, ouviu um Presidente que escolheu não usar a sua. Que preferiu o conforto da língua dominante à dignidade da língua materna. Que trocou a afirmação pela acomodação. Que confundiu diplomacia com subserviência.
E o mais preocupante é que ninguém se escandalizou. Porque em Portugal, o apagamento é hábito. A tradução é rotina. E a vergonha da própria língua é quase um traço cultural. Mas não devia ser. Porque um país que não se ouve na sua própria voz é um país que não se faz ouvir. E um Presidente que não fala português, quando pode e deve, não está a representar — está a capitular.
Marcelo Rebelo de Sousa, ao discursar em inglês na ONU, não internacionalizou Portugal. Internacionalizou a nossa vergonha!
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