Chega o fim do ano letivo – um tempo que convida à pausa e ao balanço pessoal. Em muitas casas, este é também o momento de destralhar: roupas que já não servem, brinquedos com os quais já não se brinca, livros que deixam de ser precisos. E é natural que surja a vontade de transformar esse gesto num ato solidário. De ajudar quem precisa. De ensinar aos nossos filhos o valor da partilha. Mas é importante que esta vontade, por mais genuína que seja, vá acompanhada de reflexão e respeito — que o foco seja colocado verdadeiramente no outro que tencionamos ajudar.
Em Portugal existem atualmente cerca de 6 200 crianças e jovens acolhidos em regime residencial[1] distribuídos por cerca de 400 Casas de acolhimento [2] por todo o país. Estes números mostram bem a dimensão — e a urgência — de um apoio bem orientado e consciente.
As Casas de Acolhimento Residencial (CAR) são espaços onde vivem crianças afastadas das suas famílias por motivos graves, e onde se procura garantir-lhes proteção, estabilidade e, sempre que possível, um recomeço. Algumas destas instituições recebem donativos de roupa, brinquedos e livros; outras não. Não porque não lhes façam falta, mas porque, muitas vezes, não dispõem de recursos humanos para fazer a triagem, higienização e arrumação dos bens que recebem. As equipas que lá trabalham têm como principal função assegurar os cuidados e as rotinas das crianças que acolhem.
Por isso, antes de preparar sacos e caixas para doar, o primeiro passo deve ser sempre ligar. Informar-se. Perguntar se estão a aceitar donativos, que tipo de artigos precisam e qual o melhor momento para fazer a entrega. É um cuidado simples, mas que demonstra respeito pela organização e, acima de tudo, pela privacidade e rotinas das crianças acolhidas. A entrega de donativos nunca deve interferir na vida da casa, que é um lar para aquelas crianças e jovens.
Outro aspeto que merece atenção é o desejo, também comum, de “ir brincar com as crianças acolhidas”. Quero acreditar que, atualmente, já nenhuma Casa de Acolhimento no nosso país permite visitas pontuais de pessoas bem-intencionadas com esse intuito. As Casas são isso mesmo: casas. São o lugar seguro das crianças que lá vivem. O seu espaço. E as crianças acolhidas, muitas delas com histórias marcadas por ruturas e perdas, precisam acima de tudo de estabilidade e consistência nas relações. Precisam de pessoas que não entrem e saiam das suas vidas.
É compreensível que, ao pensarmos em solidariedade, queiramos envolver os nossos próprios filhos. Que desejemos que vejam outras realidades, que aprendam a dar valor ao que têm, que desenvolvam empatia. Mas esse desejo não deve ser satisfeito à custa das crianças acolhidas. Não se deve “visitar” uma Casa de Acolhimento como quem vai ao zoo ou a um centro interpretativo. A experiência pode ser muito difícil para as crianças que vivem sem referência familiar — sobretudo quando são confrontadas com famílias completas que vêm “passar um bocadinho” e depois desaparecem.
Isto não significa que não se possa ser útil. Pelo contrário. O voluntariado estruturado, quando feito com compromisso e formação adequada, é muitas vezes essencial. Existem instituições que trabalham com voluntários que vão de forma consistente, semanal ou quinzenal, dar explicações, desenvolver atividades regulares, ajudar nas tarefas da casa ou mesmo acompanhar jovens em processos de autonomização. Sempre com o foco no superior interesse da criança — não no nosso.
Neste fim de ano letivo, se destralhar a casa faz parte dos seus planos, ótimo. Se quiser ajudar, ainda melhor. Mas ajude com intenção e responsabilidade. Ligue antes de doar. Reflita antes de propor. E se quiser dar mais do que um saco de roupas, considere dar tempo. Mas um tempo comprometido, respeitador e contínuo — o único que realmente faz diferença.
O que pode fazer com impacto real:
- Destralhe com intenção – ligue primeiro, pergunte que tipo de donativos precisam e quando é mais conveniente entregar.
- Evite visitas informais – uma visita sem convite pode perturbar o ritmo e a segurança da casa.
- Voluntariado com compromisso – se quiser ajudar com tempo, procure instituições que organizem atividades consistentes, com formação e integração na rotina das Casas de Acolhimento Residencial.
- Preserve e respeite a casa que é um lar para muitas crianças – respeite quem vive ali, não transforme a Casa de Acolhimento Residencial num palco.
[1] Os dados mais recentes sobre acolhimento em Portugal referem-se ao Relatório CASA 2023, publicado em novembro de 2024. O número exato reportado no Relatório CASA 2023 foi de 6 183 crianças e jovens acolhidos em regime residencial e 263 em acolhimento familiar. https://gfcjivd.ministeriopublico.pt/destaque/relatorio-casa-2023
[2] Dados disponíveis na Carta Social referentes a 2023. O número exato reportado de Casas de Acolhimento é de 393. https://www.cartasocial.pt/dashboard
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