Cada vez mais, há pais e mães a serem alvo de violência por parte dos seus próprios filhos. Este fenómeno, conhecido como violência filioparental, tem vindo a crescer de forma silenciosa, encoberto por sentimentos de vergonha, culpa e pela crença de que a família deve ser sempre um espaço protegido. Contudo, quando se ultrapassam determinados limites — quando os filhos insultam, humilham, ameaçam ou agridem os pais — deixamos de falar em comportamentos desafiantes ou malcriados. Falamos então de um padrão relacional disfuncional que compromete o bem-estar de todos os membros da família.
Um problema (quase) invisível
A violência filioparental (VFP) permanece como uma realidade frequentemente silenciada e subestimada. Apesar da ausência de dados sistematizados em Portugal, a experiência profissional revela-nos uma realidade que muitas famílias vivem em silêncio. Muitos pais e mães não pedem ajuda, não denunciam. Sentem vergonha, temem as consequências legais para os filhos, questionam-se se falharam na educação. A nível internacional, segundo um estudo de meta-análise publicado em 2025 na revista científica BMC Public Health, conduzido por Dahouri e colaboradores, 10% dos pais relataram ter sido vítimas de violência física e 82,6% referiram ter sofrido violência psicológica por parte dos filhos (Dahouri et al., BMC Public Health, 2025, 25:1426)[1]. A tendência é de crescimento e estes dados evidenciam a magnitude deste fenómeno e a urgência de o trazer para o debate público.
Como chegámos até aqui?
A parentalidade vive hoje uma série de tensões e desafios. As famílias mudaram — há mais famílias monoparentais, mais conflito na coparentalidade, mais cansaço acumulado, mais exposição precoce dos filhos a conteúdos e ambientes agressivos — e, com elas, mudaram também os modelos educativos.
Fronteiras que se esbatem
No trabalho com famílias, observo várias tensões que atravessam a parentalidade contemporânea e que tantas vezes culminam em crianças que crescem com dificuldade em lidar com limites, regras e frustrações.
- Autoridade vs. Autoritarismo – Atualmente, os pais e mães procuram demarcar-se dos modelos autoritários vividos na infância, onde a exigência estava associada ao poder baseado na força, coação e medo, e procuram um modelo relacional mais próximo e afetuoso, mas nem sempre conseguem manter a necessária firmeza e autoridade. Educar com autoridade é muito diferente de ser autoritário, mas exige clareza e consistência.
- Afeto vs. Permissividade – Muitas vezes, confunde-se carinho e mimo com ausência de regras. Estar presente e atento não dispensa a definição de limites, hierarquia familiar, respeito e empatia, que são igualmente essenciais. As crianças precisam de ser protegidas por limites claros. Colocar limites também é uma forma de amor. A autoridade dos educadores é fundamental para a socialização da criança e pais permissivos, que permitem tudo, deixam de ser uma fonte segura para os filhos.
- Proteção vs. Dependência – Na tentativa de cuidar e proteger, muitos pais acabam por desproteger os filhos, impedindo o seu desenvolvimento autónomo. No jogo natural da experimentação infantil, onde se descobrem limites e frustrações, pais receosos limitam essa experiência, ou cedem para evitar conflitos, gerando uma dependência prejudicial. Crianças descritas como teimosas ou “pequenos ditadores” podem crescer a acreditar que não precisam de ninguém, sem reconhecer qualquer autoridade dos pais na adolescência. Proteger é necessário, mas impedir a frustração ou a responsabilização é limitar o crescimento e a autonomia.
- Participação vs. Poder de decisão – Hoje reconhece-se que a criança tem direitos e deve ser ouvida. A ideia de que “a criança não deve questionar” cede lugar à sua participação, embora, por vezes, esta se estenda a decisões para as quais não tem competências. Uma parentalidade autoritativa envolve ouvir e dialogar com os filhos, mas a decisão final sobre certos assuntos familiares pertence aos pais. É importante explicar essas decisões, mas também estabelecer limites para evitar negociações intermináveis e garantir a autoridade parental.
- Coparentalidade vs. Conflito – A família hoje é diversa e as funções parentais mudaram. Educar já não é só tarefa das mães, nem a autoridade exclusiva dos pais. A coparentalidade exige cooperação entre ambos, juntos ou separados, apesar das diferenças nas suas experiências e formas de educar. Embora se reconheça a importância do equilíbrio parental, a falta de um modelo vivido leva muitos a conflitos. No meio dessas tensões, a autoridade enfraquece e as crianças acabam por assumir papéis inadequados, desestruturando a hierarquia familiar.
- Vítima vs. Agressor – O desejo dos filhos de “dominar” os pais para conseguirem o que querem é comum, assim como o desejo dos pais de serem os melhores para os filhos. O problema surge quando estas vontades extremas se confrontam. Educar também implica negar, contrariar, e isso custa aos pais que querem agradar e temem a rejeição. Essa dificuldade cria filhos despreparados para a frustração, que, sem regras nem respeito pela autoridade, podem tornar-se jovens agressores no seio familiar, usando violência e manipulação. Assim, pais inseguros e filhos sem referências afetivas adequadas comprometem o desenvolvimento saudável da família. Crianças sem limites podem tornar-se jovens sem respeito. E quando os pais têm medo dos filhos, a função parental fica gravemente comprometida.
Romper o ciclo: o que fazer?
A violência filioparental raramente surge de forma súbita. É geralmente o culminar de uma relação familiar fragilizada, onde os papéis se inverteram: os filhos ocupam um lugar de decisão que não lhes pertence, os pais sentem-se sem capacidade para exercer a sua função, e a casa torna-se um espaço de tensão constante.
É urgente quebrar o silêncio e interromper o ciclo. Isso implica:
- Reconhecer o problema sem julgamento;
- Procurar ajuda especializada;
- Reforçar um modelo educativo com autoridade, afeto e limites;
- Promover a cooperação parental;
Conclusão
A VFP surge como sintoma de uma relação familiar perturbada, marcada por disrupções na hierarquia, proteção e autonomia. Sem intervenção atempada, este padrão torna-se cada vez mais rígido, gerando sofrimento para todos na família, presos nesta dinâmica. A VFP manifesta-se de várias formas e deixa marcas, muitas vezes invisíveis, mas profundas. É urgente compreender, intervir e prevenir, para evitar que as crianças — vítimas de hoje — se transformem em jovens — agressores de amanhã. Para isso, é essencial aumentar a sensibilização social e profissional, e promover investigação que apoie respostas de intervenção eficazes.
[1] Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12889-025-22600-y
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