Nos últimos dias, os resultados da 1.ª fase de acesso ao ensino superior voltaram a ser manchete. À primeira vista, o Governo poderia apresentar uma taxa de colocação próxima dos 90 % como sinal de sucesso. Porém, por detrás desse indicador esconde-se um problema estrutural: em 2025 entraram menos 6 mil estudantes nas universidades e politécnicos portugueses, registando-se o número mais baixo de candidatos colocados em quase uma década.
As causas para esta situação são múltiplas e interligadas. Em primeiro lugar, há o declínio demográfico, com menos jovens a concluir o ensino secundário devido à quebra da natalidade. Este fator estrutural reduz naturalmente o número de candidatos, mas não explica por si só a dimensão da queda registada em 2025.
O segundo fator, e possivelmente mais preocupante, está relacionado com as novas regras de acesso ao ensino superior e com os efeitos persistentes do ensino à distância durante a pandemia. A obrigatoriedade de realizar pelo menos dois exames nacionais e o aumento da sua ponderação, agora entre 45 % e 60 %, colocam grande pressão sobre os estudantes. Muitos alunos que tinham médias internas consistentes enfrentam agora barreiras devido ao desempenho em exames específicos.
Durante a pandemia, o ensino à distância foi adotado rapidamente, muitas vezes sem garantir que as bases das matérias fossem consolidadas de forma gradual. Este hiato formativo afetou gerações inteiras de alunos, especialmente em disciplinas estruturantes como Matemática, Física e Línguas. A falta de acompanhamento presencial e de avaliação contínua deixou lacunas significativas, tornando mais difícil para muitos estudantes atingir os níveis exigidos nos exames nacionais. A combinação do aumento do peso dos exames e das lacunas criadas pelo ensino à distância resulta num efeito cumulativo: alunos competentes mas com bases frágeis são penalizados e acabam por desistir ou adiar o ingresso no ensino superior.
Outro fator crítico é a desigualdade territorial. Os politécnicos do interior registaram quedas ainda mais acentuadas na procura, refletindo a dificuldade de fixar jovens em regiões menos urbanizadas, com custos de transporte e alojamento muitas vezes incomportáveis, e oportunidades sociais e profissionais limitadas.
A crise da habitação estudantil também pesa decisivamente. Em cidades como Lisboa, Porto, Coimbra ou Braga, as rendas atingiram valores superiores a 400–500 euros por quarto. Mesmo com as bolsas sociais, muitas famílias não conseguem cobrir estes custos, tornando a decisão de enviar os filhos para a universidade financeiramente inviável.
Há ainda um fator cultural: a percepção de valor do ensino superior. Com salários iniciais baixos em muitas áreas, alguns jovens optam por ingressar diretamente no mercado de trabalho, vendo o diploma universitário como um esforço elevado com retorno incerto.
As consequências são graves. Num país já com percentagem de licenciados inferior à média europeia, menos estudantes significam menor competitividade, menor inovação e risco de dependência tecnológica e económica. Politécnicos e universidades do interior podem perder cursos, financiamento e docentes, acelerando a desertificação territorial. Socialmente, os recursos financeiros passam a ser determinantes, aumentando desigualdades e exclusão educativa.
É urgente rever o modelo de acesso, garantindo exigência mas também justiça. É essencial investir em habitação estudantil, reforçar o papel dos politécnicos como motores de desenvolvimento regional e consolidar programas que suprem lacunas formativas deixadas pelo ensino à distância, garantindo que todos os alunos tenham bases sólidas para competir em igualdade. Ao mesmo tempo, é necessário valorizar o ensino superior como motor de desenvolvimento pessoal, social e económico, mostrando que estudar é um investimento estratégico para o país.
Não, não é bom para Portugal ter menos estudantes no ensino superior. É um sinal de alarme que exige ação urgente. Garantir que mais jovens entram e permanecem no ensino superior deve ser uma prioridade nacional, tão estratégica quanto a saúde ou a habitação.
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