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JOSÉ FIGUEIREDO SANTOS - Sociólogo e professor universitário jubilado. Foto DR
Opinião

Cidades que expulsaram a sombra | Por José Figueiredo Santos

“Um banco à sombra, colocado no lugar certo, pode ser uma pequena ponte. Ali descansa-se, espera-se, conversa-se. Ali combate-se, por vezes, a solidão”

15:01 7 Setembro, 2026 15:02 7 Setembro, 2026 | Cristina Mendonça
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Há cidades que ficam esbaforidas com o calor. E há outras — talvez mais ambiciosas — que parecem ter sido construídas precisamente para o produzir.

No Algarve aprendemos cedo a desconfiar do verão. Conhecemos o sol pelo nome, sabemos-lhe os humores e percebemos que, pelas três da tarde, ele cai sobre as ruas com a autoridade tranquila de quem regressa a uma casa que sempre considerou sua.

Por isso, o estranho não é o calor, mas construirmos cidades surpreendidas por ele.

Há uma forma muito simples de medir a inteligência de uma cidade. Não requer estudos, relatórios de impacto, planos estratégicos, nem um consultor engravatado a explicar aquilo que toda a gente já sabe. Basta sair à rua às três da tarde, num dia de estio, e reparar numa coisa elementar: quantas pessoas estão sentadas?

Se não estiver ninguém, talvez a cidade esteja a confessar que foi desenhada para ser admirada, fotografada, inaugurada — mas não propriamente vivida.

Uma cidade inteligente é aquela onde alguém pode simplesmente parar. Onde o velho pode descansar sem procurar a sombra com a urgência de quem procura abrigo. Onde uma criança pode esperar pela mãe debaixo de uma árvore. Onde dois desconhecidos se sentam num banco e acabam por conversar.

Porque talvez uma cidade comece aí: no instante em que deixa de nos apressar.

Há pouco tempo atravessei Granada durante uma dessas vagas de calor, que já deixaram de causar espanto porque começam a adquirir o estatuto melancólico de destino.

Quarenta e dois graus. A cidade ardia. Mas não ardia toda do mesmo modo.

Bastavam dez metros. Às vezes menos. Uma árvore. Depois outra. Depois uma sucessão de copas fechadas e, de repente, o corpo compreendia aquilo que nenhum termómetro parecia conseguir explicar: a sombra não é apenas ausência de sol.

É presença de vida.

Debaixo das árvores, o tempo em Granada parecia outro.

As pessoas sentavam-se. Conversavam. Esperavam. Bebiam qualquer coisa. Havia bancos à sombra de árvores antigas, e ninguém parecia especialmente incomodado com as folhas.

As folhas caíam e a cidade continuava. Ninguém convocara uma assembleia municipal para discutir a inconveniência das folhas, das raízes ou o facto escandaloso de uma árvore, por definição, dar algum trabalho.

Talvez seja precisamente isto que precisamos de reaprender: uma árvore não é um objeto urbano. É uma promessa.

Em Portugal, confundimos modernidade com ausência. Retiramos árvores para abrir vistas. Alargamos passeios para que ninguém os habite. Repavimentamos praças até alcançarem aquela perfeição que as torna impecáveis — e completamente inóspitas.

Endireitamos. Limpamos. Geometrizamos.

É uma curiosa forma de planeamento urbano: primeiro retiramos da cidade as razões para permanecer; depois lamentamos que ninguém permaneça.

No Algarve, terra que conhece perfeitamente a sombra, esta contradição chega a ser quase obscena.

A arquitetura tradicional sabia-o. As casas sabiam-no. As ruas estreitas, os pátios e as árvores sabiam-no antes de nós.

Sabiam que o calor também se combate com paredes caiadas, com corredores estreitos, com portas entreabertas, com água e, sobretudo, com sombra. Sabiam que uma casa não é apenas o habitat que nos protege da chuva: é também o espaço que nos ensina a sobreviver ao sol.

Mas fomos fazendo exatamente o contrário. Onde havia uma copa, colocámos pedra. Onde havia terra, lançámos cimento. Onde havia sombra, pusemos estacionamento.

E, com a serenidade própria das épocas que acreditam sinceramente na sua própria inteligência, chamámos a isso progresso.

Talvez tenhamos cometido o erro de imaginar que uma cidade é feita apenas daquilo que construímos.

Não é.

Uma cidade é também — talvez sobretudo — feita daquilo que consentimos que continue vivo.

Uma árvore abatida não desaparece sozinha. Leva consigo uma pequena comunidade. Leva o pássaro que ali fazia ninho, o cheiro da terra depois da chuva, o lugar onde alguém esperava pelo autocarro, a sombra de quem regressava do mercado, o pequeno território onde uma criança descobria que o mundo também podia ser verde. Leva até aquilo que não vemos: o movimento futuro de uma copa que já não chegará a existir. E leva uma coisa que raramente entra nas contas municipais: o futuro.

Já sabemos que o calor mata. Dizem-no os termómetros, as estatísticas, os hospitais, os avisos que regressam todos os verões. Também sabemos que mais árvores podem reduzir significativamente a temperatura urbana.

O que talvez ainda não saibamos é traduzir esses números para a linguagem da rua.

Uma morte evitada não é uma estatística, mas alguém que continua a abrir a janela de manhã. É um homem que continua a sentar-se no mesmo banco. É uma avó que continua a levar o neto ao jardim. É uma conversa que ainda acontece. É alguém que continua aqui.

A natureza dentro das cidades não é luxo. Uma árvore não serve apenas para refrescar o ar. O voo breve de um pardal, o canto de um melro, os movimentos de uma copa ao vento introduzem na cidade uma coisa que o betão nunca conseguiu fabricar: a sensação de que a vida continua a acontecer para além de nós.

Talvez seja por isso que uma cidade sem pássaros pareça tão silenciosa, mesmo quando está cheia de automóveis.

Não é silêncio. É pobreza. Porque o silêncio de uma cidade sem árvores não é apenas a ausência de canto. É a ausência de uma certa conversa entre o céu e a terra.

E os velhos sabem disto de uma maneira que os relatórios dificilmente compreenderão.

Falamos tanto do envelhecimento da população que acabámos por transformar os idosos numa categoria estatística. Há planos, estratégias, programas — e esquecemo-nos de uma verdade muito simples: para quem envelhece, a distância entre um banco e outro pode ser a diferença entre sair de casa e ficar em casa.

Um banco à sombra, colocado no lugar certo, pode ser uma pequena ponte. Ali descansa-se, espera-se, conversa-se. Ali combate-se, por vezes, a solidão sem que ninguém tenha de lhe chamar pelo nome.

É uma coisa pequena. Quase nada. Mas há coisas pequenas que conseguem sustentar uma vida inteira.

Não precisamos de inventar grandes equipamentos para tudo, nem de nos envaidecer com o redondo das rotundas. Há políticas públicas que podem começar por coisas tão humildes que, diante da solenidade das grandes empreitadas, quase parecem ridículas: uma árvore, um banco, um jardim, uma fonte, uma rua onde o corpo humano não seja tratado como um obstáculo ao trânsito.

O problema não é não sabermos. Sabemos.

O problema é que uma árvore tem um defeito terrível para a política contemporânea: demora.

Demora a crescer. Demora a fazer sombra. Demora a transformar uma rua. E, pelo caminho, confronta-se com a pressão do mercado imobiliário e com um subsolo já saturado de cabos elétricos, condutas de água e gás, redes de esgotos e todas as infraestruturas que disputam, em silêncio, o pouco espaço que resta. Até as raízes precisam de lugar para existir.

Uma árvore não se inaugura com pompa. Não proporciona uma cerimónia vistosa. Não produz, no dia seguinte, uma fotografia capaz de preencher uma página de jornal. Não cresce ao ritmo de um mandato.

E talvez seja precisamente por isso que seja tão difícil plantá-la.

Uma árvore exige uma espécie de política que fomos perdendo: a política do amanhã.

Quem planta uma árvore não a planta para si. Fá-lo para alguém que ainda não conhece. Para a criança que hoje passa a correr e que, daqui a trinta anos, talvez venha sentar-se debaixo daquela copa. Planta-a para uma cidade que ainda não existe. Planta-a contra a própria vaidade.

Talvez seja isso que distingue uma decisão verdadeiramente pública de uma simples obra pública.

A obra pública diz:

— Vejam o que fizemos.

A árvore, muito mais silenciosa, parece responder:

— Vejam o que virá depois de nós.

E talvez seja por isso que as cidades precisem menos de inaugurações e mais de raízes.

Precisem de políticos com uma dimensão de estadistas, capazes de pensar para além do calendário eleitoral. De urbanistas que compreendam que uma cidade não termina na planta desenhada. De cidadãos que percebam que exigir sombra não é pedir conforto, mas o direito elementar de habitar o lugar onde se vive.

Porque já não é uma hipótese distante que haverá cada vez mais calor.

O verão está a mudar de feitio. O sol que conhecíamos parece ter aprendido maneiras mais agressivas de permanecer. E nós teremos de decidir se queremos que as nossas cidades sejam lugares onde se sobrevive ao verão ou lugares onde ainda se pode viver durante ele.

Podemos continuar a construir cidades polidas e ressequidas, descompensadas pelo ar condicionado. Cidades onde a pedra devolve, durante a noite, o calor que acumulou durante o dia e onde até a sombra parece ter de apresentar licença para existir.

Ou podemos construir cidades onde, mesmo no coração do estio, alguém possa sentar-se na rua. Alguém que simplesmente tenha decidido parar.

Não parece uma grande medida. E, no entanto, talvez seja uma das maiores.

Porque uma cidade não é apenas o lugar por onde passamos. É também o lugar onde podemos ficar. Sentar-nos à sombra. Escutar uma árvore. Deixar que o tempo passe sem nos levar com ele. Ter, por alguns instantes, um lugar onde não seja preciso chegar a lado nenhum.

E, por uma vez, não ter de pedir desculpa ao sol.

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