Dizia o Ministro do Povo, em discurso solene, que Portugal estava melhor. Dizia-o com a segurança de quem olha o País de cima e, lá do alto, confunde a paisagem com a estatística.
— Meus caros portugueses: a economia cresce, as contas públicas estão equilibradas e o Governo esfalfa-se a fazer reformas.
Houve aplausos enérgicos. Os aplausos, nesses lugares, obedecem sempre ao mesmo calendário: começam antes das palavras acabarem.
Mas eis que, do fundo da sala, um homem se levantou. Tinha no rosto a gravidade de quem carrega um mês inteiro na carteira.
— Senhor Ministro, posso fazer uma pergunta?
— Obviamente.
— Se o País está assim tão melhor, por que razão eu continuo com esta teimosia de sentir que estou pior?
O Ministro sorriu, constrangido.
— É preciso olhar para os indicadores da economia, meu caro senhor.
— Eu olho. Olho todos os dias. Eles é que não param de olhar para mim.
O Ministro franziu a testa.
— Como assim?
— Durmo com eles à cabeceira. A prestação da casa aumentou. O supermercado disparou. A luz custa os olhos da cara. O combustível virou ouro preto. E, quando preciso de uma consulta no público, descubro que até o tempo passou a cobrar entrada.
O Ministro consultou os papéis.
Os números estavam todos ali, direitos e asseados, sem uma única conta por pagar.
— Mas os salários estão a aumentar — disse, com aquela convicção desajeitada de quem nunca precisou de esticar um ordenado até ao fim do mês.
— Alguns.
— É um facto.
— O meu também é.
Fez uma pausa.
— Experimente viver um mês com o meu salário e pagar aquilo que eu pago.
O Ministro tossiu. Um nervoso miudinho atravessou-lhe a gravata.
— O Governo está a trabalhar para melhorar os rendimentos.
— Eu sei. Mas eu não quero apenas que o meu rendimento melhore no papel. Quero que melhore na panela, no frigorífico, na carteira.
O Ministro retomou o sorriso.
— Também reduzimos impostos.
— E agradeço. Mas sabe qual seria a maior redução de impostos?
— Qual?
— Reduzir aquilo que me leva metade do ordenado antes de eu começar a viver.
O silêncio caiu sobre a sala.
Foi um silêncio breve, mas pesado. Um silêncio sem indicadores.
— Estamos também a reforçar os serviços públicos — declarou o Ministro.
— Então explique-me uma coisa: por que razão tantos portugueses precisam de pagar no privado aquilo que já pagaram ao público?
O Ministro suspirou.
— Há problemas que vêm de trás.
— Eu sei.
— Problemas antigos, herdados de outros governos, que não se resolvem de um dia para o outro.
— Eu sei.
O homem assentiu.
— Também sei. Mas a minha vida não anda para trás. Vai sempre para a frente, mesmo quando o País promete que está a avançar.
O Ministro ficou calado.
Depois disse:
— Governar não é fazer milagres.
— Ninguém lhos está a pedir.
— Então o que pedem?
O homem olhou em redor.
As bandeiras tremulavam ligeiramente, embora não houvesse vento.
— Pedimos uma coisa simples. Que o País dos discursos seja o mesmo País onde vivemos.
Fez uma pausa.
— Queremos que os números da economia cheguem às nossas carteiras. Que trabalhar dê para viver. Que uma casa seja lugar de chegar, não o sonho de a abandonar. Que ninguém tenha de consultar a carteira antes de consultar o médico. Que envelhecer não seja uma condenação. E que um jovem possa imaginar uma vida aqui sem ter de imaginar outra vida longe daqui.
O Ministro ouviu-o com gravidade.
— Isso exige tempo.
— Nós sabemos.
O homem dirigiu-se para a porta.
— O problema é que a nossa vida também está a passar.
Parou.
— E enquanto os Governos pedem tempo, nós continuamos a pagar as contas.
Fez-se silêncio.
O Ministro recompôs-se. Endireitou os papéis. Reencontrou a voz oficial.
— Como podem verificar, este Governo mantém um diálogo permanente com os cidadãos.
Houve aplausos. Muitos aplausos.
Porque Portugal estava melhor.
Melhor nos gráficos, nas estatísticas, nos discursos.
Lá fora, porém, o País continuava a fazer malabarismo com o ordenado: primeiro a renda, depois a luz, o supermercado, os impostos e, no fim, se houvesse espaço, o médico.
E chegava ao fim do mês com uma estranha forma de riqueza: sabia exatamente quanto lhe faltava.
O Ministro regressou ao gabinete. Sobre a secretária esperava-o um relatório estampado em letras gordas:
PORTUGAL ESTÁ MELHOR.
O Ministro abriu o relatório.
O gráfico subia. A vida, essa, parecia não ter recebido a notícia.
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