Acordei com o sol a bater na cama, atravessando as persianas como quem espreita sem querer ser visto. Antes de saber se estava vivo, fui às redes sociais saber como estava o país.
O país estava cansado. Dizia-se.
Não era cansaço de pernas. Era um cansaço mais antigo, desses que se alojam no peito e fazem morada onde antes vivia a esperança.
A minha gata não sabia disso. Veio aninhar-se junto aos meus pés, inteira de tranquilidade. Gata é bicho sem pátria: não acredita em promessas, não vota e nunca ouvi dizer que esperasse alguma coisa de um ministro.
Eu, porém, tinha fome. Desejei um ovo estrelado.
Foi na casa de banho, entre uma urina e outra, que me veio a lembrança: durante anos disseram ao povo que o Estado era dele.
E o povo acreditou. Não por ser ingénuo. É que há mentiras que, quando vestem fato e gravata, ficam com aparência de verdade.
Disseram-lhe:
— O Estado somos todos nós.
O povo olhou para o Estado. Depois olhou bem para si e exclamou.
— Então eu devo ser o nós que ficou de fora.
Talvez tenha sido aí que começou o cansaço.
Primeiro vieram as promessas. Depois as comissões para estudar as promessas. Depois os grupos de trabalho. Depois os relatórios, esses lugares onde os problemas vão morrer depois de muito bem alimentados.
Desci à cozinha. Levantei os estores. Fiz o ovo. Comi-o com pão e bebi chá de gengibre com canela.
Na administração da minha casa, pensei, as coisas são mais simples. Quando falta dinheiro, procuro saber onde o pus.
No Estado, quando falta dinheiro, procura-se saber quem vai estudar onde ele foi parar.
E assim o povo trabalha. Trabalha tanto que às vezes parece que é a própria realidade que está desempregada.
Falam muito do povo, pelo povo, em nome do povo. Só não falam com o povo.
Talvez porque o povo tenha aprendido a perguntar. E pergunta é coisa perigosa. Uma pergunta, quando nasce inteira, exige uma resposta.
O político sabe disso. Por isso, quando ouve uma pergunta, já está a fabricar a resposta. Enquanto responde, pensa na eleição. E enquanto pensa na eleição, procura no passado alguém a quem entregar a culpa.
Se o povo pergunta pelos impostos, chamam-lhe populista. Se pergunta pela saúde, populista. Se pergunta pela casa, populista. Se pergunta pelo dinheiro do PRR, torna-se populista com distinção.
Há, contudo, uma pergunta que quase nunca recebe esse nome:
— Quem beneficiou?
Essa pergunta é mais perigosa.
Porque traz memória. E a memória, quando funciona, costuma incomodar os governos.
A política inventou, entretanto, uma nova língua. Fala de transparência, sustentabilidade, inclusão, transição, resiliência.
São palavras muito bonitas. Tão bonitas que chegam penteadas às conferências e saem de lá num completo desalinho.
Só não conseguem, coitadas, entrar na vida das pessoas.
O bem comum tornou-se uma criatura lendária. Toda a gente fala dele, mas ninguém o encontra. Há quem jure tê-lo visto num programa eleitoral, entre duas promessas e uma fotografia sorridente.
Também há o desenvolvimento. Dizem que é preciso desenvolver.
E desenvolver, descobriu-se, é crescer. Crescimento da economia. Crescimento do país. Crescimento dos números. Crescimento das carreiras.
Estas últimas são as que melhor crescem. São inúmeras as cabeças onde nada nasce, mas onde a carreira floresce com uma saúde invejável.
O povo olha. E aprende. Aprende que promessa não é mentira. Talvez seja apenas uma mentira que ainda não chegou ao poder.
Aprende que uma comissão não resolve um problema. Dá-lhe, isso sim, uma sala, uma secretária, um carimbo e, se os astros forem favoráveis, um orçamento.
Aprende também a reconhecer o momento exato em que uma promessa adoece.
Primeiro:
— Vamos mudar, reformar, cuidar.
Depois chega o “mas”.
Mas não agora. O mundo mudou. A conjuntura é difícil. Os mercados estão nervosos. Bruxelas não deixa. O orçamento não permite.
E assim se vai adiando o presente em nome de um futuro que nunca chega.
Talvez fosse necessário criar um Ministério da Esperança. Ou melhor: um Ministério da Esperança e da Espera.
Com uma secretaria de Estado para a Paciência Popular e uma comissão independente para estudar até onde pode esperar um povo antes de começar a desistir.
E o povo tem esperado muito. Esperou reis, repúblicas, revoluções, reformas, fundos europeus. Esperou o crescimento e a transição. Esperou sempre.
E, de cada vez, explicaram-lhe que aquilo que lhe faltava era precisamente aquilo que lhe fazia bem.
Mas chega um dia em que a paciência muda de nome. Deixa de ser virtude. Passa à condição de resignação.
Foi então que pensei que talvez o verdadeiro problema não fosse o povo ter perdido a fé na democracia. Talvez tivesse perdido a fé na distância. A distância entre quem manda e quem obedece. Entre quem fala de sacrifícios e quem não sabe o preço deles. Entre quem anuncia o futuro e quem paga o presente.
Depois, é sabido que a confiança não se inaugura. Não leva placa. Não tem fita para cortar. Nasce devagar, quando alguém promete pouco e cumpre. Quando escuta sem estar apenas a preparar a próxima frase.
Quando tem coragem para dizer:
— Não sei. Vou estudar.
Ou, milagre maior:
— Talvez tenha razão.
Talvez seja disso que estejamos cansados. De gente que sabe tudo. De salvadores. De homens providenciais. De quem sempre tem a solução antes de conhecer o problema.
Talvez governar seja uma coisa mais pequena. Não ter que possuir o futuro. Apenas não roubar o presente.
Talvez o povo não queira muito. Apenas uma casa onde caiba a vida dos filhos. Envelhecer sem pedir desculpa. Ser ouvido sem ter de gritar. Trabalhar sem sentir que trabalha para pagar a distância entre ele e quem decide.
E quer, sobretudo, voltar a acreditar que as palavras ainda guardam aquilo que prometem.
É pedir demais? Talvez.
Durante anos ensinaram-nos a pedir menos. E nós aprendemos. Pedimos menos justiça. Menos dignidade. Menos futuro. Até chegarmos a este estranho tempo em que o povo já não pede que não o enganem. Pede apenas que não o enganem tão depressa.
Fiquei a olhar pela janela. O sol continuava inocente. A gata dormia. O país, esse, continuava cansado.
E pensei que talvez ainda nos restasse um gesto antigo, pequeno e português, uma espécie de palavra sem voz. O manguito. Não é bem um insulto. É antes uma maneira de dizer:
— Eu ainda aqui estou.
Um voto sem urna. Uma frase sem discurso. Talvez o mais curto e sincero dos protestos.
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