Para um microrganismo que vive no nosso corpo, nós somos todo o seu universo. Os seus contornos e limites estão para lá daquilo que ele pode percecionar. Não tem forma de saber que habita um organismo muito maior, porque a sua experiência do mundo termina onde terminam os seus sentidos.
Nesta perspetiva, e embora numa escala completamente diferente, até que ponto nós próprios, seres humanos, não poderemos também fazer parte de um ser vivo maior, cujos contornos e dimensões nos são inacessíveis? E, se essa hipótese fosse verdadeira, tal como existem milhões de seres humanos, cada um albergando os seus próprios micromundos, não poderiam existir igualmente inúmeros desses “macro-seres”, cada um contendo realidades distintas?
A vida parece organizar-se em diferentes níveis, alguns demasiado pequenos e outros demasiado grandes para serem apreendidos por quem neles habita. Uma bactéria não sabe que vive num intestino. Uma célula do fígado não imagina que existe um planeta. E nós, que nos consideramos conscientes da realidade, talvez também vivamos inseridos em algo cuja verdadeira dimensão ultrapassa a nossa capacidade de observação.

Jurista
Tal como existem inúmeros seres humanos (…) poderão existir inúmeras estruturas superiores, cada uma acolhendo universos inteiros com formas de vida semelhantes ou completamente diferentes da nossa
Se um microrganismo pudesse filosofar, talvez concluísse que o seu universo é húmido, quente e rico em nutrientes. Nunca suspeitaria de que esse universo é apenas um órgão, integrado num corpo, pertencente a uma espécie que vive num planeta. A sua visão do real estaria inevitavelmente condicionada pela escala em que existe.
E nós? Acreditamos que o universo corresponde à totalidade da realidade porque é o mais vasto que conseguimos observar. Mas será essa uma conclusão inevitável ou apenas o reflexo dos limites da nossa perceção?
A história da ciência ensina-nos precisamente isto: sempre que julgámos ter alcançado uma fronteira definitiva do conhecimento, acabámos por descobrir novos níveis de complexidade e novas perguntas. Isso não demonstra que exista algo para além do universo conhecido, mas lembra-nos que a ignorância é frequentemente maior do que aquilo que imaginamos.
Também a Terra pode ser entendida como um sistema extraordinariamente complexo e autorregulado. Alguns cientistas e pensadores sugeriram que, em certos aspetos, ela funciona de forma semelhante a um organismo, mantendo equilíbrios através da interação entre inúmeros processos físicos, químicos e biológicos. Não se trata de afirmar que a Terra seja um ser vivo no sentido tradicional, mas de reconhecer que existem formas de organização capazes de produzir estabilidade sem dependerem de uma consciência central.
E se existirem muitos “organismos-universo”?
Se aceitarmos esta hipótese apenas como um exercício de imaginação filosófica — e não como uma explicação científica — nada impede que o nosso universo seja apenas uma parte de uma realidade maior. Tal como existem inúmeros seres humanos, cada um contendo o seu próprio mundo microscópico, poderão existir inúmeras estruturas superiores, cada uma acolhendo universos inteiros com formas de vida semelhantes ou completamente diferentes da nossa.
Naturalmente, esta analogia não constitui uma prova. Apenas recorda que aquilo que conseguimos observar pode não esgotar tudo o que existe. A realidade não tem obrigação de coincidir com os limites da nossa experiência.
Não é ciência. Não é religião. É apenas um convite à reflexão sobre a possibilidade de a realidade ser mais vasta do que aquilo que conseguimos conceber.
E porquê pensar nisto?
Não para encontrar respostas definitivas, mas para cultivar a humildade. Para reconhecer que talvez não sejamos o centro de nada, apenas uma pequena parte de algo que nos ultrapassa. E para lembrar que a vida — ou, talvez mais precisamente, a própria realidade — pode ser sempre maior do que aquilo que conseguimos ver.
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