Portugal tem uma capacidade admirável de se unir — desde que esteja a jogar a seleção. Em 90 minutos, o país desperta: bandeiras nas janelas, ruas cheias, euforia coletiva. É bonito. É legítimo.
Mas o contraste é gritante. O mesmo país que se mobiliza para celebrar um golo permanece surpreendentemente silencioso perante os problemas que realmente moldam o seu futuro.
Vivemos num país onde o SNS funciona em esforço permanente, onde a habitação se tornou inacessível para grande parte dos jovens, onde os salários continuam entre os mais baixos da Europa e onde a natalidade cai a pique.

Jurista
O país que deixamos aos nossos filhos depende menos dos golos que celebramos e mais das causas que abraçamos. E isso exige que deixemos de ser espectadores da nossa própria vida coletiva
E perante isto, a reação coletiva é quase sempre a mesma: um encolher de ombros. Uma resignação quase cultural. Um “é assim mesmo”, dito com a serenidade de quem comenta o estado do tempo.
O contraste devia incomodar-nos: mobilizamos milhões para um jogo, mas quase ninguém para exigir um SNS funcional; enchemos ruas por um golo, mas não por um futuro demográfico sustentável.
Não é o futebol que está em causa. É o resto.
Portugal não precisa de menos futebol — precisa de mais país.
Se conseguimos unir-nos por 90 minutos, também conseguimos unir-nos pelos 365 dias do ano. Se conseguimos exigir resultados em campo, também conseguimos exigi-los fora dele.
O país que deixamos aos nossos filhos depende menos dos golos que celebramos e mais das causas que abraçamos. E isso exige que deixemos de ser espectadores da nossa própria vida coletiva.
O futuro não se decide num estádio.
Decide-se todos os dias — e temos estado demasiado calados.
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