Depois de mais de três décadas a ensinar francês, um professor decidiu aposentar-se aos 61 anos, pouco antes de começarem a produzir efeitos as alterações à idade da reforma em França. Com uma pensão que lhe permite viver sem grandes preocupações, recorda a carreira com serenidade e encontrou uma forma diferente de continuar ligado às salas de aula.
Chama-se Joël e passou cerca de 30 anos no ensino público francês. A maior parte desse tempo foi vivida entre alunos, livros e reuniões, primeiro na região parisiense e, mais tarde, na cidade de La Roche-sur-Yon. O seu percurso e os valores que recebe foram divulgados pelo jornal francês Le Figaro Emploi.
Mais de 30 anos dedicados ao ensino
O professor começou a carreira em estabelecimentos da região de Paris, sobretudo no departamento de Essonne.
Durante aproximadamente uma década, trabalhou em escolas classificadas como REP+, uma designação atribuída a territórios onde as dificuldades sociais e educativas exigem um acompanhamento reforçado.
Nessas turmas, era frequente encontrar alunos cuja língua materna não era o francês. O trabalho obrigava a adaptar explicações, materiais e ritmos de aprendizagem. A passagem por estas escolas dava também acesso a uma bonificação, incluída na remuneração recebida por Joël.
Mais tarde, foi transferido para um colégio público em La Roche-sur-Yon, no departamento de Vendée. Foi nesse estabelecimento que viveu os últimos anos de uma carreira construída inteiramente no ensino secundário inferior francês.
Última aula ficou ligada a Maupassant
Joël ainda se lembra do tema escolhido para a despedida. A sua última aula foi dada a uma turma equivalente ao 8.º ano português e teve como ponto de partida Bel-Ami, um dos romances mais conhecidos de Guy de Maupassant.
A escolha acabou por dar um significado especial ao último dia. Apaixonado por literatura, o professor fechou a carreira a falar de um livro, tal como fizera tantas vezes ao longo dos anos. Saiu da escola em junho de 2021, no final do ano letivo.
Apesar do gosto pela profissão e da relação próxima que procurava manter com os estudantes, admite que aguardava aquela mudança com alguma expectativa. Depois de tantos anos condicionado por horários, avaliações e tarefas administrativas, queria finalmente experimentar outras atividades.
Diferença reduzida entre salário e pensão
No final da carreira, Joël tinha o estatuto de funcionário público, obtido após aprovação no concurso nacional CAPES, necessário para exercer como professor certificado em França. A sua remuneração rondava os 3.200 euros brutos mensais.
Este montante incluía a bonificação anual associada ao período em que trabalhou nas escolas REP+. Depois de impostos e contribuições, recebia aproximadamente 2.500 euros líquidos por mês, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Ao aposentar-se com a carreira contributiva completa, passou a receber uma pensão mensal de 2.700 euros brutos. O valor líquido indicado pelo antigo professor é de 2.454 euros, o que representa uma diferença relativamente pequena em comparação com o rendimento que levava para casa enquanto trabalhava.
Reforma chegou antes das novas regras
Joël aposentou-se aos 61 anos, em 2021, depois de completar todos os períodos contributivos exigidos para ter direito à pensão sem redução. A sua saída aconteceu antes da aplicação da reforma francesa das pensões aprovada posteriormente.
Essa alteração iniciou uma subida gradual da idade mínima de acesso à pensão, anteriormente fixada nos 62 anos, aproximando-a dos 64 anos de acordo com o ano de nascimento. Existem, contudo, exceções para carreiras longas e outras situações previstas na legislação francesa, como esclarece o portal oficial Service-Public.fr.
No caso deste professor, as mudanças legislativas já não afetaram o processo. Quando as novas regras começaram a ser aplicadas, Joël encontrava-se reformado e com a pensão atribuída.
Continua a ensinar duas vezes por semana
Deixar a escola não significou abandonar completamente o ensino. Atualmente, Joël dá aulas de francês a cidadãos estrangeiros através do centro comunitário da localidade onde vive. Desloca-se ao espaço duas vezes por semana, permanecendo cerca de duas horas em cada sessão.
O ambiente, garante, é bastante diferente daquele que conheceu durante a carreira. Não existem exames, classificações ou a mesma carga burocrática. Os alunos são adultos que procuram dominar a língua para conseguirem emprego e participarem mais facilmente na vida da comunidade.
Pai de dois filhos adultos, Joël encontrou assim um equilíbrio entre o descanso e a atividade. Continua a fazer aquilo de que gosta, mas escolhe o tempo que dedica às aulas e trabalha com pessoas que procuram aprender por vontade própria.
Quanto receberia um professor em Portugal?
Em Portugal, o enquadramento dependeria, desde logo, da data de entrada na Administração Pública. Os trabalhadores inscritos na Caixa Geral de Aposentações (CGA) até 31 de dezembro de 2005 mantêm-se, em regra, nesse regime. Quem iniciou funções públicas a partir de 1 de janeiro de 2006 passou a ser inscrito no regime geral da Segurança Social.
A idade normal de acesso à pensão está fixada nos 66 anos e 9 meses. A aposentação antecipada pode ser possível, nomeadamente aos 60 anos com 40 anos de serviço efetivo, mas o resultado depende da modalidade aplicável e pode envolver reduções. Existem ainda condições próprias para carreiras muito longas.
A carreira de professor dos ensinos básico e secundário desenvolve-se ao longo de dez escalões. Em 2026, a remuneração base mensal varia entre 1.770,69 euros no primeiro escalão e 3.770,19 euros no décimo, antes de impostos e restantes descontos, de acordo com a tabela publicada pelo Instituto de Gestão Financeira da Educação.
Estes valores não permitem, porém, calcular automaticamente a pensão de um docente português. O montante final resulta do regime de proteção social, dos anos de descontos, das remunerações registadas e da eventual antecipação da aposentação.
O caso de Joël mostra sobretudo que um professor pode deixar a carreira sem cortar totalmente a ligação ao ensino, transformando décadas de experiência numa ajuda direta a quem está a começar uma nova vida.















