Há dias, o meu marido enviou-me um vídeo que me deixou a pensar numa coisa aparentemente insignificante: quando foi que deixámos de pedir beleza às coisas comuns?
Não estou a falar de arte. Nem de grandes palácios, igrejas, monumentos ou edifícios feitos precisamente para nos impressionar.
Estou a falar de uma cama. De um prato. De uma faca. De um berço. De uma mesa posta.De um quarto de criança. Até de um carrinho de mão.
Coisas absolutamente banais, feitas para cumprir uma função e que, durante muito tempo, alguém achou que podiam cumprir essa função e, ainda assim, ter um pouco de beleza.
Uma cama servia para dormir, evidentemente. Mas podia ter uma cabeceira trabalhada, uma curva na madeira, um pequeno ornamento.
Uma faca precisava de cortar. Mas alguém podia trabalhar-lhe o cabo.

Um prato precisava apenas de receber a comida. E, no entanto, pintavam-se nele flores, folhas, pássaros, pequenas linhas, cores.
Um berço precisava de ser seguro e confortável. Mas podia ser pensado como uma peça bonita para receber alguém que acabara de chegar ao mundo.
Até um simples objeto de trabalho podia ter um detalhe que não melhorava em absolutamente nada a sua função.
Era apenas bonito. E é precisamente isso que me fascina.
Houve um tempo em que até muitas das coisas que não precisavam de ser bonitas eram feitas com a intenção de o ser.
Não quero com isto cair naquela tentação tão humana de dizer que antigamente é que era bom.
Não era.
O passado está cheio de dificuldades que felizmente deixámos para trás. Sempre existiram objetos pobres, simples, exclusivamente utilitários. E hoje existem objetos contemporâneos e edifícios extraordinariamente belos.
Não é uma competição entre passado e presente.
É apenas uma sensação.
A sensação de que, algures pelo caminho, fomos perdendo a pequena magia das coisas.
Olho para muitos objetos que nos rodeiam atualmente e encontro linhas direitas, superfícies lisas, branco, cinzento, bege. Tudo funcional. Tudo simples. Tudo facilmente combinável com tudo.
E não há nada de errado nisso.
A simplicidade pode ser lindíssima.
Mas às vezes apetece-me perguntar: onde foi parar a flor? Onde ficou aquela pequena curva completamente desnecessária? O desenho no prato? O puxador estranho? Aquela coisa que não tinha função nenhuma além de alguém, um dia, ter achado que ficava bonita ali?
Isto não acontece apenas aos objetos. Acontece também aos edifícios.
Durante séculos, construímos muitas vezes com uma preocupação que ia além da necessidade de levantar quatro paredes e colocar-lhes um teto. Uma janela podia ter uma moldura. Uma varanda podia ter um ferro trabalhado. Uma fachada podia receber um friso, um azulejo, uma pedra recortada ou um pequeno elemento decorativo que não sustentava absolutamente nada.
Estava lá porque alguém achou que um edifício, mesmo cumprindo uma função perfeitamente banal, podia também contribuir para a beleza do lugar onde se encontrava.
E não, não se trata de declarar guerra ao modernismo ou ao minimalismo.
Há uma enorme beleza na simplicidade. Le Corbusier e tantos outros demonstraram que a depuração das formas também pode constituir uma linguagem artística. Uma linha limpa pode ser tão bela como uma fachada ornamentada.
O simples não é necessariamente o simplório.
Talvez o problema surja quando deixamos de simplificar por escolha estética e começamos simplesmente a retirar porque é mais rápido, mais barato e mais fácil de reproduzir.
Uma parede lisa pode resultar de uma extraordinária decisão arquitetónica. Ou pode ser apenas uma parede lisa porque uma parede mais trabalhada custava mais. E não são exatamente a mesma coisa.
Há um filme de que sempre gostei, Kate & Leopold, em que um homem do século XIX é inesperadamente transportado para a Nova Iorque contemporânea. E há qualquer coisa naquele confronto entre tempos que me ocorre quando penso nisto.
Não é apenas aquilo que o homem do passado descobre que o futuro inventou.
É também aquilo de que o futuro prescindiu.
Até um elevador podia ser um lugar bonito. Madeira, metal trabalhado, espelhos, pormenores completamente dispensáveis à sua função.
Hoje basta-nos, na maior parte das vezes, que carreguemos num botão e ele nos deixe rapidamente no andar certo. E é evidente que isso é progresso.
Mas talvez seja legítimo perguntar se todo o progresso precisa de significar prescindir do encantamento.
Provavelmente reparo particularmente nestas coisas porque sou arqueóloga.
Grande parte daquilo que sabemos sobre as pessoas que viveram antes de nós não vem apenas das grandes obras que deixaram. Vem das pequenas coisas.
Um fragmento de cerâmica. Um pente. Uma fíbula. Uma lucerna. Uma conta. Um pedaço de vidro. E tantas vezes encontramos beleza neles.
Um desenho. Uma decoração. Um cuidado.
Uma coisa completamente desnecessária à função do objeto e, por isso mesmo, profundamente humana.
E aqui se encontra outra característica do nosso tempo: o consumo imediato.
Temos provavelmente mais objetos do que qualquer geração que viveu antes de nós. Compramos mais. Substituímos mais. Mudamos mais.
E, paradoxalmente, talvez tenhamos menos coisas de que sentiríamos verdadeiramente falta.
Uma mesa podia acompanhar uma família durante décadas. Uma louça aparecia nos almoços de domingo, nos Natais, nos aniversários. Um móvel passava de uma casa para outra. Um prato podia lembrar uma avó. Uma chávena podia sobreviver a três cozinhas e continuar a ser aquela em que alguém preferia beber o café.
Certos objetos envelheciam connosco e, a determinada altura, já não eram apenas coisas. Tinham histórias.
Hoje, tantas vezes, trocamos.
Porque mudou a decoração. Porque surgiu outra tendência. Porque aquele já não combina. Porque apareceu outro mais moderno, mais simples, mais prático.
Talvez não tenhamos deixado apenas de ornamentar as coisas.
Talvez tenhamos deixado de imaginar que elas ficariam connosco tempo suficiente para merecerem ser ornamentadas. E talvez seja essa uma das grandes contradições do nosso tempo: nunca tivemos tantas coisas e talvez tenhamos cada vez menos coisas que desejamos guardar para sempre.
Não quero voltar atrás. Gosto do presente. Gosto do conforto, da tecnologia e da funcionalidade. Não quero viver rodeada de móveis pesadíssimos, rendilhados em todas as superfícies e quinze peças de louça diferentes para conseguir tomar o pequeno-almoço.
Mas tenho alguma pena de que, para chegarmos ao simples, tenhamos às vezes prescindido do encantamento.
Porque a beleza também é uma função.
Tornar o espaço onde vivemos um pouco mais bonito, pousar à mesa um prato que nos dá prazer olhar ou abrir uma porta através de um puxador que alguém se preocupou em desenhar não será certamente uma tarefa assim tão inútil. Uma coisa pode ser prática e bonita. Simples e especial. Contemporânea e capaz de permanecer.
Não precisamos de voltar ao passado. Nem sequer devemos. Talvez baste recuperar o direito ao desnecessariamente bonito. Uma flor num prato. Uma curva numa cabeceira. Um cabo trabalhado numa faca. Um detalhe numa fachada. Um quarto de criança cheio de cor, imaginação e mundos impossíveis.
Aquela pequena magia que não melhora a função de um objeto, não aumenta a produtividade, não torna nada mais rápido e provavelmente nem sequer é necessária.
Está ali apenas porque alguém quis acrescentar um pouco de beleza ao mundo.
E talvez isso seja suficiente.
Porque uma flor pintada num prato não serve para nada.
E provavelmente por isso que serve para alguma coisa.
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