O Algarve tem na sua história e na sua geografia uma vocação evidente para o mar. O problema é que, ao longo das décadas, essa vocação corre o risco de se transformar mais em paisagem turística do que em motor de desenvolvimento económico estruturante. A economia azul, quando bem compreendida, pode ser a chave para mudar esse cenário não apenas diversificando a base económica da região, mas também criando oportunidades reais de emprego, de qualificação e empreendedorismo para os jovens.
A estratégia regional do Algarve já reconhece a necessidade de alargar a base económica da região, reduzindo a dependência excessiva do turismo sazonal. Nesse contexto, a economia azul surge como uma das fileiras prioritárias de diversificação, com projetos que integram biotecnologia marinha, aquacultura sustentável, investigação científica, literacia costeira, energias renováveis oceânicas e a valorização sustentável dos recursos marinhos.
Aqui, porém, surge uma questão crítica que a psicologia ajuda a compreender: como transformar esta aposta em trajetórias de vida para os jovens?

Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
A teoria do desenvolvimento vocacional demonstra que os interesses e as preferências profissionais não surgem de forma espontânea, nem isolada. São construídos progressivamente através das experiências concretas, dos modelos de referência, da orientação e das oportunidades de exploração oferecidas pelo contexto em que a pessoa se encontra. Modelos como os de Donald E. Super, John L. Holland e Linda S. Gottfredson destacam que a formação das preferências vocacionais depende de um processo de maturação que envolve a descoberta de si, a exploração do mundo do trabalho e, fundamentalmente, a possibilidade de testar e viver opções reais.
Numa perspetiva desenvolvimental, Donald E. Super (1990) defende que a carreira se constrói ao longo de todo o ciclo de vida. Ou seja, durante a fase de crescimento, que decorre essencialmente na infância e início da adolescência, desenvolvem-se os primeiros interesses, valores e representações sobre o mundo do trabalho. Nessa etapa, atividades de educação ambiental, contacto com o oceano, projetos de literacia dos mares, visitas a centros de investigação ou experiências ligadas à ciência constituem oportunidades privilegiadas para despertar a curiosidade e ampliar o horizonte vocacional dos jovens. Na adolescência e no início da idade adulta ocorre a fase de exploração, caracterizada pela experimentação de diferentes papéis, pelo aprofundamento dos interesses e pela procura de informação sobre profissões e percursos formativos. É precisamente nesta etapa que programas de mentoria, visitas técnicas, estágios de curta duração, clubes de ciência do mar, Centros Tecnológicos Especializados (CTeSP), concursos de inovação ou projetos de investigação podem desempenhar um papel decisivo na consolidação das escolhas vocacionais. Posteriormente, durante a fase de estabelecimento, esses interesses transformam-se em projetos profissionais concretos através da formação, da inserção no mercado de trabalho, da especialização ou do empreendedorismo.
Esta perspetiva é complementada pela teoria tipológica de John L. Holland (1997), segundo a qual as pessoas tendem a procurar ambientes profissionais compatíveis com os seus interesses, competências e características de personalidade. A economia azul apresenta precisamente uma enorme diversidade de contextos ocupacionais, permitindo responder a diferentes perfis vocacionais: jovens com interesses em investigação poderão encontrar oportunidades na biotecnologia marinha, oceanografia ou investigação científica; perfis realistas poderão identificar-se com atividades ligadas à engenharia naval ou à aquacultura e à pesca, áreas que exigem competências técnicas, resistência física, orientação espacial, capacidade de lidar com condições ambientais variáveis e trabalho em equipa; perfis empreendedores poderão desenvolver projetos empresariais relacionados com a inovação azul, o turismo sustentável ou a economia circular.
Para Linda S. Gottfredson (2005), as aspirações profissionais resultam de um processo gradual de circunscrição e compromisso, através do qual os jovens eliminam ou aproximam determinadas profissões em função das suas crenças, expectativas e oportunidades. Isto faz com que determinados setores que permanecem pouco visíveis durante o percurso escolar tendam a ser excluídos precocemente do horizonte vocacional. Por isso, aproximar os jovens das profissões ligadas ao mar significa também ampliar as possibilidades que conseguem imaginar para o seu futuro.
A investigação mais recente complementa estas abordagens clássicas. A Career Construction Theory, desenvolvida por Mark L. Savickas (2005, 2013), defende que construir uma carreira deixou de significar escolher uma profissão para toda a vida. Num mercado de trabalho marcado pela rápida evolução tecnológica, pela sustentabilidade e pela mudança constante, construir uma carreira significa adaptar continuamente a identidade profissional às novas circunstâncias e oportunidades. Neste contexto, assume particular relevância o conceito de adaptabilidade de carreira, entendido como um conjunto de recursos psicológicos que permitem antecipar o futuro, assumir responsabilidade pelas próprias escolhas, explorar novas possibilidades e confiar nas próprias capacidades (Savickas & Porfeli, 2012). As experiências proporcionadas pela economia azul, através do contacto com as empresas, laboratórios, centros tecnológicos, projetos de investigação e inovação não despertam apenas interesses profissionais. Desenvolvem igualmente competências psicológicas essenciais para enfrentar um mercado de trabalho em permanente transformação.
Também a Social Cognitive Career Theory, proposta por Robert W. Lent, Steven D. Brown e Gail Hackett (1994, 2002), demonstra que os interesses profissionais dependem da interação entre a perceção de competência (autoeficácia), as expectativas de sucesso e as oportunidades disponibilizadas pelo contexto. Quanto maior for o contacto dos jovens com profissionais, empresas e projetos ligados à economia azul, maior tende a ser a confiança nas próprias capacidades e a probabilidade de considerarem este setor como uma opção realista para o seu futuro profissional.

Psicóloga e vogal da Direção Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
A economia azul, quando apresentada apenas como um conceito abstrato, discurso estratégico ou como um conjunto de políticas públicas, dificilmente mobiliza vocações. Para que os jovens desenvolvam interesses genuínos nesta área, é necessário criar experiências concretas de exploração vocacional, permitindo-lhes experimentar, observar, participar e compreender o impacto real destas profissões na sociedade. Jovens que hoje se sentem afastados do desenvolvimento regional podem, com oportunidades concretas, transformar-se na força motriz da economia algarvia.
Do ponto de vista da psicologia, a economia azul constitui um contexto privilegiado de desenvolvimento vocacional porque integra ciência, tecnologia, sustentabilidade, inovação, empreendedorismo e compromisso ambiental. É um domínio que permite aos jovens construir não apenas uma carreira, mas também uma identidade profissional alinhada com valores de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável. A investigação demonstra que as novas gerações procuram, cada vez mais, profissões que conciliem realização pessoal, impacto social e sustentabilidade. Neste contexto, a economia azul reúne características particularmente mobilizadoras, permitindo que muitos jovens encontrem um propósito profissional associado à preservação dos oceanos, à inovação científica e ao desenvolvimento sustentável (Dik & Duffy, 2009; Damon, 2008). A escolha profissional deixa, assim, de ser apenas uma decisão ocupacional para se afirmar como uma componente central da identidade e do projeto de vida.
O desafio consiste em garantir que esta estratégia não se limite a projetos-piloto financiados por fundos europeus, que desaparecem quando o financiamento termina. A economia azul necessita de uma governação clara, de uma rede de formação contínua, de empresas que se assumam como parceiras e de uma comunicação capaz de mostrar aos jovens caminhos reais de carreira, bem como de uma rede articulada entre escolas, universidades, centros de investigação e entidades públicas, capaz de criar oportunidades permanentes de exploração vocacional e de qualificação profissional.
As instituições educativas assumem aqui um papel central. Não basta informar os jovens sobre as profissões do futuro. É necessário proporcionar experiências significativas, que lhes permitam construir interesses, desenvolver competências, fortalecer a autoeficácia e transformar possibilidades abstratas em projetos concretos de vida.
Se o Algarve levar verdadeiramente a sério esta aposta, a economia azul poderá tornar-se muito mais do que um setor económico e afirmar-se como uma plataforma de desenvolvimento humano, inovação e coesão territorial, capaz de renovar o sentido de futuro da região. Mas isso exige investimento continuado na qualificação dos jovens, na ligação entre a ciência e a indústria, na criação de emprego qualificado que não dependa da sazonalidade turística, e talvez, sobretudo, em promover uma visão psicológica do desenvolvimento, reconhecendo que os interesses e as preferências não são dados, mas construídos e que a região pode e deve ser um laboratório ativo de experiências vocacionais.
A pergunta que fica é simples: queremos apenas que o Algarve seja um destino de férias ou queremos que se afirme como um verdadeiro laboratório vivo da economia azul, onde os jovens possam construir as suas vidas através de projetos que valorizam o oceano, a ciência e o futuro? A resposta depende do quanto a região está disposta a investir em políticas consistentes, formadores competentes, orientadores vocacionais e oportunidades reais para as suas gerações mais jovens. Se essa aposta falhar, a economia azul será apenas mais uma palavra de ordem em documentos estratégicos. Se ganhar força, poderá mudar o destino da região.
Investir na construção vocacional dos jovens significa investir simultaneamente na capacidade de inovar, criar conhecimento e gerar desenvolvimento sustentável. Talvez seja esta a verdadeira economia azul e aquela em que o maior recurso não é apenas o oceano, mas o potencial humano capaz de o compreender, valorizar e transformar o futuro. Sabemos que as regiões não desenvolvem apenas setores económicos. Desenvolvem pessoas.
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