A presença de javalis nas ruas de Setúbal voltou a colocar em discussão a gestão destes animais em meio urbano, sobretudo por estar a preocupar os moradores. Nas últimas semanas, os exemplares têm surgido ao final da tarde e durante a noite na zona ribeirinha da cidade, onde procuram alimento e reviram espaços ajardinados e contentores do lixo. A situação levou o município e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) a agendar uma reunião para quinta-feira, 13 de agosto, com o objetivo de encontrar soluções.
O problema não é novo na região. O Clube da Arrábida acompanha a presença de javalis na Serra da Arrábida há mais de uma década e explica que os movimentos dos animais variam consoante a disponibilidade de alimento. Durante o inverno, encontram raízes e tubérculos na serra, enquanto no verão a menor disponibilidade de alimento leva-os a aproximarem-se da cidade.
Animais procuram alimento durante a noite
A chegada dos javalis à zona urbana tem consequências visíveis. Os animais escavam o solo das áreas ajardinadas em busca de tubérculos, deixando buracos de grandes dimensões, e podem ainda virar os contentores à procura de restos de comida. A presença é mais frequente ao fim do dia e durante a noite, quando os animais se deslocam pelas zonas urbanas.
De acordo com o Jornal de Notícias, a disputa sobre as competências para capturar os javalis continua sem uma solução definida. O ICNF considera que a sua intervenção não abrange zonas urbanas, enquanto a Câmara Municipal de Setúbal entende que essa responsabilidade pertence ao instituto. A reunião marcada para quinta-feira deverá servir para discutir a atuação das diferentes entidades.
Câmara aconselha distância dos animais
Perante o aumento dos avistamentos, a autarquia avançou com uma campanha de sensibilização destinada à população. Uma das principais recomendações passa por não se aproximar os animais, sobretudo quando estão acompanhados por crias. As fêmeas podem reagir de forma agressiva caso entendam que existe uma ameaça.
Os cuidados estendem-se aos animais domésticos, que devem permanecer com trela quando circulam em zonas onde possam encontrar javalis. Também é aconselhado não deixar restos de comida junto aos contentores e evitar alimentar colónias de gatos fora dos horários definidos, reduzindo assim a disponibilidade de alimento que pode atrair os animais.
Abate de javalis aumentou na Arrábida
A dimensão do problema também está relacionada com a evolução da população de javalis na região. Dados fornecidos pelo ICNF em junho indicavam que as ações autorizadas de correção da densidade populacional na Serra da Arrábida tinham aumentado. A estimativa passou de 400 a 600 animais abatidos por ano para um intervalo entre 600 e 700.
Estas operações são realizadas através de caça controlada ou esperas noturnas com recurso a armadilhas. A intervenção ocorre sobretudo em propriedades agrícolas e em áreas próximas das praias, precisamente em locais onde os javalis encontram fontes de alimentação.
O Clube da Arrábida tinha já contactado o ICNF em junho para defender ações de controlo da densidade populacional junto à praia, sobretudo no inverno e no início da primavera, período em que os animais procuram abrigo naquela zona. Segundo a mesma fonte, não terá obtido resposta ao pedido.
Plano nacional prevê redução da população
A questão ultrapassa, contudo, o território de Setúbal e da Serra da Arrábida. O plano estratégico dedicado ao javali em Portugal aponta para a necessidade de reduzir entre 20% e 30% da população destes animais no território nacional ao longo dos próximos dez anos, de forma a manter o equilíbrio dos ecossistemas.
A recomendação, citada pelo Jornal de Notícias, resulta do Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal, elaborado pelo Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro. O documento considera riscos relacionados com a segurança de pessoas e bens, saúde pública e efeitos sobre habitats, espécies e equilíbrio dos ecossistemas.
Para já, a presença dos javalis em Setúbal continua a exigir uma resposta coordenada entre as entidades responsáveis. A reunião entre a autarquia e o ICNF poderá esclarecer quem deverá intervir nas zonas urbanas e que medidas poderão ser adotadas para reduzir a aproximação dos animais à cidade.
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