Lisboa atraiu milhares de estrangeiros com a promessa de sol, segurança e uma vida mais tranquila. Porém, aquilo que durante anos pareceu uma mudança vantajosa começa agora a ser questionado pelos próprios recém-chegados, numa cidade onde as rendas dispararam e as diferenças de rendimento se tornaram cada vez mais visíveis.
Em bairros como Lapa, Rato ou Santos, profissionais estrangeiros, trabalhadores remotos e famílias com rendimentos obtidos noutros países passaram a dividir o quotidiano com portugueses que vivem na capital há décadas. O resultado é uma cidade onde coexistem várias línguas e estilos de vida, mas onde nem sempre existe verdadeira integração, segundo uma reportagem do jornal britânico The Guardian.
Rendimentos estrangeiros mudaram alguns bairros
Muitos dos novos residentes trabalham para empresas estrangeiras e recebem salários bastante superiores aos praticados em Portugal. Na Lapa, por exemplo, a autora da reportagem descreve um prédio onde trabalhadores pagos por empresas britânicas, francesas e escandinavas vivem ao lado de uma família portuguesa proprietária do imóvel.
Durante vários anos, estes residentes encontraram em Lisboa habitação relativamente acessível, escolas internacionais, espaços de trabalho partilhados e serviços orientados para uma comunidade internacional. No entanto, o aumento da procura também contribuiu para transformar o comércio e o mercado imobiliário de diferentes bairros.
Benefícios fiscais aumentaram o desconforto
Parte destes estrangeiros beneficiou do antigo regime dos residentes não habituais, que permitia condições fiscais específicas para determinados rendimentos, incluindo os obtidos no estrangeiro. O regime foi revogado para novos residentes a partir de 1 de janeiro de 2024, embora permaneça aplicável a pessoas anteriormente inscritas e a situações abrangidas pelas regras transitórias, segundo o Portal das Finanças.
Chris Pitney, um designer britânico citado pela mesma fonte, admitiu que só percebeu a dimensão do benefício depois de completar o primeiro ano fiscal em Portugal. A reação dos familiares portugueses da mulher levou-o a reconhecer o contraste entre quem recebia rendimentos estrangeiros e quem trabalhava mais horas, ganhava menos e suportava uma carga fiscal diferente.
Cafés tradicionais dão lugar a novos negócios
A transformação também é visível ao nível da rua. Cafés tradicionais foram substituídos por espaços de brunch, enquanto estúdios de ioga, clínicas com atendimento em inglês e estabelecimentos orientados para trabalhadores remotos ganharam espaço em zonas centrais.
A antropóloga Fabiola Mancinelli explicou ao jornal britânico que estes mecanismos procuravam atrair residentes financeiramente independentes e criar novos consumidores. Contudo, uma parte desse dinheiro permanece dentro de uma economia paralela, formada por negócios estrangeiros frequentados sobretudo por outros estrangeiros.
Portugueses sentem-se afastados da própria cidade
A chegada de empresas internacionais também criou empregos e, em alguns casos, permitiu pagar salários acima da média a trabalhadores portugueses. Ainda assim, continua a existir a perceção de que a mão de obra local deve ser mais barata apenas por trabalhar em Portugal.
Alex Couto, escritor e autor de um livro sobre a transformação de Lisboa, critica precisamente essa diferença. Apesar de reconhecer algumas vantagens económicas, rejeita que profissionais portugueses recebam propostas inferiores simplesmente devido aos salários habitualmente praticados no país.
Duas comunidades partilham as mesmas ruas
As tensões vão além do dinheiro. Inês, uma lisboeta de 60 anos ouvida pelo mesmo jornal, considera que “existe uma certa arrogância” na forma como alguns estrangeiros circulam pela cidade, apontando comportamentos quotidianos nos supermercados e nos passeios.
A barreira linguística também pesa. Muitos trabalhadores remotos passam os dias em casa ou em espaços onde tudo está escrito em inglês, frequentam estabelecimentos internacionais e convivem sobretudo com pessoas em circunstâncias semelhantes. Portugueses e estrangeiros vivem, assim, nas mesmas ruas, mas nem sempre partilham os mesmos espaços.
Sonho começa a perder força
Alguns estrangeiros já sentem igualmente os efeitos da subida das rendas e da instabilidade profissional. Afastados dos sistemas de saúde e de proteção social dos países de origem, podem encontrar-se sem segurança laboral, progressão de carreira ou uma rede familiar próxima.
As alterações à Lei da Nacionalidade também aumentaram a incerteza. Desde 19 de maio deste ano, o período mínimo de residência legal para pedir a naturalização passou para sete anos no caso de cidadãos da União Europeia ou de países de língua oficial portuguesa e para dez anos no caso das restantes nacionalidades, segundo o Ministério da Justiça.
A falta de participação na vida local acaba por reforçar o sentimento de desconexão. Sem acompanhar a informação portuguesa, utilizar regularmente os serviços públicos ou criar relações fora dos círculos internacionais, alguns estrangeiros reconhecem que construíram uma bolha social e económica dentro de Lisboa.















