O que para muitos acaba no lixo tornou-se uma fonte de rendimento para algumas das pessoas mais vulneráveis de Lisboa. Garrafas e latas são procuradas em caixotes, papeleiras e restaurantes e depois entregues nas máquinas do sistema Volta, que atribui 10 cêntimos por cada embalagem elegível.
Uma reportagem da CNN Portugal encontrou várias pessoas em situação de sem-abrigo ou com dificuldades económicas que passaram a depender deste sistema para conseguir dinheiro diariamente.
Há quem caminhe durante seis ou sete horas e recolha 200 a 300 embalagens num único dia.
David consegue entre 20 e 30 euros por dia
David Costa tem 36 anos, vive na rua e está desempregado. Pintor de profissão, conta que não recebe qualquer subsídio e encontrou na recolha de embalagens uma alternativa a pedir dinheiro.
Todos os dias percorre diferentes zonas de Lisboa. Procura nos caixotes e papeleiras, pergunta em restaurantes e transporta as embalagens até conseguir entregá-las.
“Consigo fazer sempre 20 a 30 euros por dia”, contou à CNN Portugal.
David explica que prefere passar várias horas a procurar garrafas a pedir dinheiro na rua. “Desde que a gente queira andar e procurar, consegue fazer dinheiro todos os dias. Às vezes mais, às vezes menos”, afirmou.
Já há quem tenha conseguido mais de 40 euros
Jorge, de 57 anos, vive num albergue e recebe o rendimento mínimo. Costuma sair por volta das 10:00 e procurar embalagens até às 16:00, sobretudo na zona da Mouraria.
Habitualmente consegue entre 15 e 20 euros, mas houve um dia em que o valor foi bastante superior.
“Já cheguei a fazer 43,30 euros num dia”, revelou à CNN Portugal, explicando que utiliza o dinheiro para comprar comida e tabaco.
O sistema trouxe-lhe uma forma de obter algum rendimento, mas também há dificuldades. Uma delas está nas máquinas onde as embalagens são entregues, que nem sempre se encontram disponíveis.
A CNN Portugal visitou três supermercados de marcas diferentes na zona e encontrou as respetivas máquinas Volta fora de serviço.
“Se o Volta acabar fico sem nada”
Entre as pessoas ouvidas está também Maria, de 60 anos. Desempregada, percorre Lisboa à procura de embalagens e consegue normalmente entre sete e dez euros depois de uma ou duas horas.
Há quem já a conheça e lhe entregue diretamente as garrafas. Quando isso não acontece, procura-as nos caixotes.
O esforço físico já lhe terá provocado consequências. Maria contou ter passado três dias com dores e mostrou os pés, que diz terem ficado “em carne viva” devido às caminhadas.
Além das garrafas, limpa casas quando consegue trabalho e faz crochet para tentar vender. Ainda assim, explica que o dinheiro obtido através das embalagens pode ser suficiente para garantir uma refeição.
“Se trocar as garrafas, com todas juntas consigo uma refeição”, contou.
É por isso que a possibilidade de o sistema deixar de existir a preocupa. “Se o Volta acabar fico sem nada”, afirmou à CNN Portugal.
Sistema também está a provocar problemas nas ruas
A reportagem mostra, porém, o outro lado da situação. Trabalhadores da limpeza, comerciantes e funcionários de restaurantes relatam que algumas pessoas retiram o conteúdo dos caixotes à procura de embalagens e deixam resíduos espalhados.
João, assistente operacional da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, explica que há locais que precisam agora de ser limpos mais vezes porque os caixotes voltam a ser remexidos pouco depois da passagem das equipas.
Apesar das dificuldades, reconhece o dilema: para quem trabalha na limpeza, o fim do sistema poderia reduzir o lixo espalhado, mas alguns euros obtidos através das embalagens podem fazer diferença para quem vive na rua.
“São poucas moedas, mas já dá para comer”
Rasham, de 27 anos, veio do Nepal e acabou a viver nas ruas de Lisboa. Não tem outro rendimento e diz conseguir juntar cerca de 20 euros num dia normal através das embalagens.
António, de 50 anos, também percorre a cidade várias vezes por dia apesar de se encontrar, segundo o próprio, fisicamente debilitado. Num dia favorável, afirma conseguir chegar aos 30 euros.
São histórias diferentes unidas pelas mesmas contas: a 10 cêntimos de cada vez, são necessárias dezenas ou centenas de embalagens para conseguir alguns euros.
Para quem depende deste dinheiro, porém, uma garrafa que outra pessoa deita fora pode significar muito mais do que 10 cêntimos. Como explicou Maria à CNN Portugal, “são poucas moedas, mas já dá para comer”.
















