Um peixe de água doce ainda pouco conhecido entre muitos portugueses começou a ganhar espaço nas peixarias e arcas congeladoras dos supermercados nacionais. Chama-se tilápia, tem um sabor suave, poucas espinhas e a procura tem crescido de tal forma que as importações estão a acelerar em Portugal.
Muito consumida no Brasil e em vários países asiáticos, a tilápia começou a entrar de forma mais visível na grande distribuição portuguesa em 2025. Segundo o ECO, Continente e Pingo Doce introduziram a espécie nos seus sortidos nesse ano, enquanto a Auchan começou a comercializá-la no primeiro trimestre de 2026.
Este peixe está a chegar a cada vez mais supermercados
A tilápia pode ser encontrada inteira, embora seja mais habitual surgir à venda em filetes frescos ou congelados. Uma das suas características é precisamente a facilidade de preparação, além do sabor menos intenso quando comparado com outras espécies.
No Continente, a entrada deste peixe no sortido ocorreu em 2025. Segundo a cadeia, citada pelo ECO, a procura tem sido impulsionada sobretudo pelos consumidores brasileiros, mas também por clientes interessados em experimentar novas opções de pescado.
O Pingo Doce tomou uma decisão semelhante. A cadeia do grupo Jerónimo Martins explicou ao ECO que introduziu a tilápia no mesmo ano depois de identificar uma procura crescente por produtos associados a diferentes hábitos e culturas alimentares.
Preço ronda os 15 euros por quilo
O preço é outro dos fatores que poderá ajudar a explicar a curiosidade em torno deste peixe. Em julho, um quilo de filetes de tilápia custava 14,90 euros num Continente da Margem Sul.
Uma tilápia inteira congelada, com menos de 350 gramas, encontrava-se à venda por 2,66 euros. No Auchan de Cascais, os filetes custavam 14,99 euros por quilo no início de agosto, de acordo com os valores recolhidos pelo ECO.
Segundo Ricardo Amaral, diretor de Frutas, Verduras e Peixaria da Auchan Portugal, a tilápia apresenta um preço inferior ao da pescada e do bacalhau, enquanto relativamente à dourada o preço por quilo é semelhante.
Nem todos os supermercados vendem tilápia
Apesar do crescimento, encontrar este peixe ainda depende do supermercado escolhido. Continente, Pingo Doce e Auchan estão entre as grandes cadeias que já o incluíram na oferta.
O ECO confirmou, por outro lado, que Lidl, Aldi Portugal, El Corte Inglés e Mercadona não comercializavam tilápia quando foram questionados.
Existem também lojas Intermarché onde a espécie já foi promovida. Um supermercado da cadeia em Albergaria-a-Velha destacou, por exemplo, a tilápia nas suas redes sociais, apresentando sugestões para a preparar grelhada, no forno ou em filetes panados.
Importações dispararam em Portugal
Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados pelo ECO, mostram que Portugal importou 972.767 quilos de tilápia durante 2025.
Trata-se de um crescimento superior a 64% relativamente a 2024. Em valor, as importações aproximaram-se dos 2,4 milhões de euros, representando uma subida de 54,3%.
E 2026 está a acelerar ainda mais esta tendência. Só até maio tinham entrado em Portugal 511.604 quilos de tilápia, avaliados em cerca de 1,4 milhões de euros.
Com base no ritmo médio mensal, o ECO estima que, em junho, as importações em quantidade já tenham ultrapassado tudo aquilo que Portugal importou durante o ano inteiro de 2024.
De onde vem a tilápia vendida em Portugal?
Apesar de a popularidade deste peixe em Portugal estar fortemente associada à comunidade brasileira, a maior parte da tilápia importada não chega do Brasil.
Os dados do INE indicam que a China é o principal fornecedor do mercado português. Seguem-se Índia, Espanha, Países Baixos, Vietname, Bélgica e Alemanha quando considerada a quantidade importada.
Existem ainda fornecedores europeus que abastecem o mercado nacional. A empresa neerlandesa Anova Seafood confirmou ao ECO que fornece tilápia fresca ao retalho português há aproximadamente um ano, tanto inteira como em filetes.
Comunidade brasileira ajudou a trazer este peixe para Portugal
A explicação para o crescimento da tilápia passa também pelas mudanças demográficas verificadas no país. No final de 2025 residiam em Portugal 574.195 cidadãos brasileiros, segundo dados do INE citados pelo ECO.
A comunidade brasileira representa mais de um terço da população estrangeira residente e trouxe consigo hábitos alimentares que começam agora a refletir-se nas prateleiras dos supermercados.
As próprias cadeias reconhecem esta influência. O Pingo Doce explicou que a importância da comunidade brasileira e o facto de a tilápia ser uma das espécies de peixe mais consumidas no Brasil estiveram entre os motivos para introduzir o produto.
Portugueses também começam a experimentar
A procura, contudo, já não estará limitada aos consumidores que conheciam a tilápia antes de chegar a Portugal. Continente e Pingo Doce indicam que existe interesse por parte de outros clientes que procuram diversificar o peixe que consomem.
Na Auchan, a estratégia passa inicialmente pelas comunidades brasileira e asiática, mas a cadeia espera conquistar também os consumidores portugueses. A empresa reconhece que já existe curiosidade, embora a adesão ainda não seja expressiva.
Uma possível barreira é o hábito alimentar nacional. Ao contrário do que acontece noutros países, o consumidor português está tradicionalmente muito mais habituado a espécies provenientes do mar do que a peixes de água doce.
Ainda assim, com um preço competitivo, sabor suave, facilidade de preparação e uma presença crescente nos supermercados, a tilápia começa a encontrar espaço nas mesas portuguesas. Os números das importações mostram que aquilo que começou por responder aos hábitos de determinadas comunidades poderá estar a transformar-se numa nova opção nas compras de muitos consumidores.















