Mateus Salvador, uma criança de Faro que acaba de completar 8 anos, está há cerca de um ano a transformar garrafas e latas num caminho para concretizar um sonho: ter uma impressora 3D. O projeto, denominado “Do Volta ao 3D”, nasceu em família como uma forma de associar esse desejo à aprendizagem sobre esforço, responsabilidade, poupança e perseverança.
Em vez de receber diretamente o equipamento, foi-lhe proposto que participasse ativamente na concretização do objetivo. A meta definida passa por reunir cerca de sete mil garrafas e latas, entregá-las através do sistema Volta e utilizar os dez cêntimos correspondentes a cada embalagem para financiar a compra.
Segundo a família, Mateus já ultrapassou metade do objetivo. Pelo caminho, o projeto começou também a alterar hábitos de pessoas próximas e de desconhecidos, que passaram a guardar embalagens para contribuir para a iniciativa.

Familiares, amigos e outras pessoas têm entregue sacos com garrafas e latas, enquanto algumas participam apenas com algumas unidades. Um estabelecimento juntou-se igualmente à recolha.
Para Mateus, a quantidade não determina a importância do gesto. “Uma embalagem também conta.”
Projeto tornou-se numa aprendizagem sobre poupança e perseverança
A família faz questão de que todo o processo seja vivido pela criança, desde a recolha das embalagens às deslocações às máquinas, passando pelas contagens e pelo acompanhamento da aproximação à meta.
O objetivo é que Mateus perceba que mesmo pequenas contribuições podem ter impacto quando são acumuladas ao longo do tempo e que alcançar uma meta exige espera, esforço e continuidade.
A mesma lógica é aplicada ao dinheiro que recebe ocasionalmente. A decisão de o guardar ou gastar fica nas suas mãos e, quando opta por destiná-lo à futura impressora, converte simbolicamente o montante no equivalente em embalagens.
“Menos 50 garrafas”, diz Mateus quando entrega dinheiro para ser integrado na contagem do projeto.
Para a família, esta escolha tornou-se também numa oportunidade para abordar conceitos como poupança, definição de prioridades e adiamento de uma recompensa imediata em função de um objetivo que considera mais importante.
O projeto acabou por gerar ainda outro hábito: Mateus começou a retirar as tampas das garrafas e a reservá-las para uma iniciativa de recolha de tampinhas destinada à aquisição de ajudas técnicas.
Impressora deverá permitir criar peças úteis e inclusivas
A escolha do futuro equipamento também está a ser preparada com atenção. Como Mateus tem uma irmã mais nova e a família vive com um gato, a opção deverá recair sobre um modelo fechado.
A idade do jovem utilizador levou ainda a família a privilegiar critérios de segurança, simplicidade de utilização e manutenção pouco complexa, procurando garantir que a impressora possa ser efetivamente utilizada por Mateus com o maior grau possível de autonomia.
E os projetos que pretende desenvolver já começam a surgir. Mateus fala na criação de brinquedos, objetos sensoriais, peças úteis e adaptações destinadas a pessoas com mobilidade reduzida e a pessoas cegas.
Uma das primeiras ideias está já escolhida: um porquinho-mealheiro em forma de torre.
No aniversário, apesar de ainda não ter alcançado a meta necessária para comprar a impressora, pediu filamentos como presente. Para a família, o pedido demonstrou que Mateus já se imagina a utilizar o equipamento e a desenvolver as próprias criações.
Vídeos acompanham percurso e procuram chegar também a pessoas surdas
Grande parte do percurso está a ser registada em vídeo e partilhada nas redes sociais, mostrando as recolhas, deslocações, entregas nas máquinas Volta e evolução das contagens.
A maioria dos vídeos é legendada. Mateus tem familiares surdos e, segundo a família, houve desde cedo a preocupação de permitir que também eles acompanhassem o projeto, tornando a comunicação mais acessível.
A divulgação, esclarece Margarida Vieira Salvador, mãe de Mateus, não pretende angariar dinheiro nem encontrar alguém disposto a oferecer uma impressora. O objetivo é que Mateus complete o caminho iniciado através da própria iniciativa.
A família começou a partilhar a experiência depois de perceber que o projeto estava a ultrapassar a simples recolha de embalagens. Algumas pessoas começaram a mudar hábitos, outras passaram a acompanhar regularmente a evolução da meta e várias têm procurado contribuir com aquilo que conseguem juntar.
Esse envolvimento ganhou também uma dimensão emocional para Mateus, que percebe que existem pessoas interessadas no seu objetivo e dispostas a guardar uma garrafa ou uma lata por se terem lembrado dele.
Para a família, o projeto acabou por transmitir a mensagem que esteve na sua origem: grandes objetivos podem ser alcançados através de pequenos passos, a persistência faz parte do processo e uma contribuição reduzida pode ter valor quando se junta a muitas outras.
É esse percurso que pretendem continuar a dar a conhecer através do “Do Volta ao 3D”, sem encurtar o caminho nem substituir o esforço que a criança está a fazer.
Aos 8 anos, Mateus continua assim a aproximar-se do objetivo da mesma forma que começou: uma garrafa e uma lata de cada vez.
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