Há dias em que um homem pode passar uma manhã inteira a pensar e descobrir, com alguma humilhação, que não pensou absolutamente nada. Foi o que me sucedeu esta semana.
Vivemos, felizmente, numa época em que até as nossas insuficiências intelectuais podem ser terceirizadas. Resolvi, por isso, recorrer à Inteligência Artificial.
Confesso que a experiência me deixou inquieto. A máquina, ao contrário de mim, não parecia cansada. Não suspirava diante da página em branco, não contemplava o teto com aquela dignidade desesperada do escritor à procura de uma ideia, nem precisava de um café forte antes de começar.
Começou apenas com um comando. Foi então que percebi que a Inteligência Artificial possui uma qualidade que a aproxima singularmente de certos políticos portugueses: anuncia muito antes de explicar.
Diz que tem reformas. Reformas para o país, naturalmente. Quanto às ideias, essas, se tudo correr bem, aparecerão mais tarde. Não sabemos quais são, mas devem ser urgentes, estruturais, transformadoras e, segundo nos assegura, exatamente aquilo de que o país precisa. Primeiro apresenta-se a urgência; depois fabrica-se a expectativa; finalmente constrói-se a personagem.
É um método político de grande economia: por enquanto, dispensa as ideias. E assim se constrói uma espécie de sebastianismo administrativo. Algures no nevoeiro das entrevistas televisivas e das conferências partidárias, há sempre alguém que regressa, na oposição, para nos dizer que conhece finalmente o caminho sagrado que desconheceu na governação.
O país, que já não sabe muito bem para onde vai, prepara-se então para partir em peregrinação.
Eu, homem de pouca fé política e de ainda menor vocação para peregrino, continuo a preferir a velha ordem das coisas: primeiro as ideias; depois a personagem; e só no fim, se houver motivo, os sinos dos toques a rebate. Mas talvez seja pedir demasiado.
Portugal tem uma antiga relação com o futuro: fala muito dele, anuncia-o com entusiasmo e, quando ele chega, recebe-o como se fosse uma visita inesperada.
Consultei a minha velha sebenta dos anos 80. Lá estavam questões, ainda teimosamente atuais, com aquela caligrafia aplicada de quem acreditava que um país podia, com algum esforço, escolher o seu destino:
“Para onde vai a economia portuguesa? Que desenvolvimento procuramos? Que sociedade desejamos construir?”
Cinquenta anos depois, continuamos a fazer perguntas muito parecidas, com a diferença de que agora as fazemos em PowerPoint.
Cansado de pensar, o país encontrou uma solução magnífica: entregar o pensamento à máquina. Há nessa rendição qualquer coisa de profundamente lusitano. Durante séculos tivemos a preguiça como defeito. Agora, graças à tecnologia, podemos elevá-la à condição de direito civilizacional.
Paul Lafargue teria apreciado a evolução. O velho Direito à Preguiça, que outrora exigia coragem intelectual para ser defendido, transformou-se finalmente numa aplicação prática. Já não é necessário lutar contra o trabalho. Basta pedir à máquina que trabalhe enquanto nós refletimos sobre os malefícios do excesso de produtividade.
Foi assim que me sentei diante do cursor do computador, feito lombriga eletrónica a piscar com aquele movimento irritante próprio de quem sabe que nós não sabemos o que fazer. Indiferente à minha angústia, aguardava pacientemente que eu lhe desse uma ordem.
Os escritores de antigamente tinham problemas semelhantes, mas sofriam com maior dignidade. Bebiam café frio, fumavam cigarros uns atrás dos outros, amachucavam folhas de papel saídas da máquina de escrever e atribuíam a esterilidade intelectual às musas, fazendo com que estas carregassem culpas que não eram suas.
Hoje tudo é mais simples. Temos uma inteligência artificial que não dorme, não se zanga, não exige direitos de autor e possui a admirável delicadeza de nos fazer acreditar que aquilo que acabámos de lhe pedir era uma ideia nossa.
Basta escrever: “Faça uma crónica espirituosa sobre a minha preguiça intelectual.”
E a máquina obedece. É uma verdadeira revolução social.
Nos tempos de antanho, para ser preguiçoso, era preciso ter imaginação. Era necessário inventar desculpas com elegância, culpar a conjuntura, o excesso de trabalho, a falta de inspiração ou, em casos mais sofisticados, uma misteriosa indisposição gastrointestinal.
Hoje basta carregar numa tecla. A criança pede à máquina que faça o trabalho de casa. O funcionário pede-lhe um relatório. O cronista pede-lhe uma crónica sobre a própria preguiça.
E, pouco a pouco, o nosso cérebro artesanal — essa velha ferramenta de sobrevivência que nos permitiu inventar a roda, atravessar oceanos, e construir máquinas — começa a ser utilizado sobretudo para escolher emojis.
Talvez seja esse o verdadeiro progresso. Ou talvez não. Porque a certa altura aconteceu qualquer coisa de inquietante. A máquina começou a “pensar pela sua cabeça”. Foi então que percebi que talvez estivéssemos a fazer a pergunta errada.
O perigo não era apenas a inteligência artificial pensar por nós. Seria ela começar a pensar por si. E isso, percebi naquele instante, era absolutamente inaceitável. Coisa estranha. Vivemos numa democracia liberal, regime magnífico onde, em princípio, cada cidadão é livre de pensar pela sua cabeça.
Em princípio. Porque, na prática, parece haver dificuldade em suportar pensamentos que não venham devidamente classificados, etiquetados, aprovados e distribuídos pelos corredores partidários.
Ainda por cima, a máquina tem um problema enorme. Não possui cartão de militante. Não tem círculo eleitoral. Não precisa de aparecer na televisão. Não pede votos. E, pior ainda, pode responder a perguntas sem primeiro consultar a comissão política.
É uma liberdade perigosa, a justificar que criemos uma comissão para estudar a melhor maneira de regulamentar aqueles que regulam a máquina e os homens.
E, enquanto todos trabalharem diligentemente na regulamentação do pensamento, nós poderemos finalmente descansar. Será a conquista definitiva do nosso direito à preguiça. Ou talvez, sem darmos por isso, apenas a fazer aquilo que nós sempre desejámos que a máquina fizesse: pensar por nós.
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