Portugal tem uma forte tradição no consumo de peixe, mas há uma espécie que se destaca por um motivo pouco comum: a salema, um peixe presente na costa portuguesa que, em determinadas circunstâncias, pode provocar alucinações visuais e auditivas em quem o consome.
Conhecida cientificamente como Sarpa salpa, esta espécie é comum no Mediterrâneo e em partes da costa africana, mas também pode ser encontrada ao longo do litoral português. À primeira vista, nada parece distingui-la de outros peixes costeiros muito apreciados na alimentação.
No entanto, alguns exemplares podem acumular substâncias tóxicas depois de se alimentarem de certas algas. É essa particularidade que está na origem de episódios raros, mas documentados, de alterações neurológicas temporárias após a ingestão.
Um peixe aparentemente inofensivo
A salema apresenta corpo prateado, riscas douradas e olhos amarelados. Apesar do aspeto discreto, tornou-se conhecida em vários relatos científicos pelos efeitos invulgares que pode desencadear em algumas pessoas. Esta espécie alimenta-se de algas e pode ingerir organismos marinhos que contêm compostos tóxicos. Essas substâncias acabam por se acumular em certas partes do peixe, sobretudo nas vísceras e na cabeça.
Quando consumidas pelo ser humano, essas toxinas podem causar sintomas como febre, desconforto, visões distorcidas, sons imaginários e sonhos intensos. A reação não acontece em todos os casos, mas está suficientemente documentada para despertar atenção.
Casos raros, mas já estudados
Segundo um estudo da National Library of Medicine, uma das principais instituições públicas de investigação biomédica norte-americanas, um dos trabalhos mais citados sobre este fenómeno descreve episódios registados no Mediterrâneo Ocidental. Entre eles está o caso de um homem de 90 anos que começou a sofrer alucinações auditivas cerca de duas horas depois de ter comido salema.
De acordo com esse relato, o doente descreveu vários pesadelos ao longo de duas noites e só recuperou totalmente cerca de três dias depois. Noutro caso, um homem de 40 anos terá sofrido alucinações prolongadas durante cerca de 36 horas, necessitando de acompanhamento médico.
Também há referências históricas e relatos antigos associados a peixes deste género, o que mostra que os efeitos estranhos atribuídos à salema não são uma curiosidade recente. Ainda assim, continuam a ser episódios incomuns e pouco previsíveis.
Porque é que isto acontece
A explicação mais apontada está na alimentação do peixe. Ao consumir determinadas algas, a salema pode acumular compostos que, depois, têm impacto no sistema nervoso humano quando o peixe é ingerido.
O risco pode variar consoante a dieta recente do animal, a zona onde foi capturado e até a forma como é preparado. Isso ajuda a explicar porque razão nem todos os exemplares causam problemas e porque os efeitos são difíceis de antecipar.
É precisamente essa imprevisibilidade que torna este peixe tão curioso. Pode ser consumido sem qualquer consequência num caso e, noutro, provocar sintomas intensos e inesperados.
Espécie também existe em Portugal
A salema é uma espécie presente nas águas costeiras portuguesas, sobretudo em zonas rochosas e áreas com algas. Pode ser encontrada em vários pontos da faixa litoral, do Algarve ao Norte, sendo conhecida tanto na pesca lúdica como na profissional.
Segundo a Pesca, a espécie integra ainda a lista oficial de capturas permitidas em Portugal, o que confirma a sua presença regular nas pescas nacionais. Isso não significa que seja um peixe perigoso por definição, mas mostra que faz parte do universo marinho habitual do país.
Ainda assim, os alertas recomendam cautela, sobretudo no consumo das vísceras e da cabeça, onde as toxinas tendem a concentrar-se em maior quantidade. Como não é possível perceber a olho nu se um exemplar transporta compostos ativos, a prudência continua a ser a principal recomendação.
Um peixe que continua a intrigar
A salema é, por isso, um dos casos mais invulgares do mundo marinho. Trata-se de um peixe bonito, relativamente comum e até apreciado em várias cozinhas, mas que pode esconder efeitos pouco habituais.
Embora os episódios de alucinação sejam raros, a existência de casos documentados mostra que esta não é apenas uma história curiosa contada entre pescadores. Há uma base real para o alerta, mesmo que se trate de uma ocorrência pouco frequente.
No fim, a salema continua a ser um verdadeiro enigma do mar: uma espécie comum em Portugal, mas com um potencial inesperado que a distingue de quase todos os outros peixes consumidos à mesa.
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